Crítica

Um filme-máquina (de costura)

Linha Fantasma é um filme que olha para tudo da mesma forma que o seu protagonista, o mestre-alfaiate de Daniel Day-Lewis, olha para os seus manequins.

PTA e o “filme de arte”, onde cada gesto é sublinhado e repisado, um filme-máquina, máquina de (alta) costura
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PTA e o “filme de arte”, onde cada gesto é sublinhado e repisado, um filme-máquina, máquina de (alta) costura

Apesar de tudo, Vício Intrínseco tinha trazido alguma leveza, e sobretudo alguma irreverência, ao cinema de Paul Thomas Anderson (PTA), e é com decepção que o vemos a voltar ao “filme de arte”, onde cada gesto é sublinhado e repisado, num filme-máquina, máquina de (alta) costura, que olha para tudo da mesma forma que o seu protagonista, o mestre-alfaiate de Daniel Day-Lewis, olha para os seus manequins: o que conta é o que trazem vestido, tal como para PTA a evidência do seu próprio luxo “artístico” toma precedência.

Se as metáforas com a costura forem demasiado fáceis no contexto de A Linha Fantasma temos outra, que aliás é a que preferimos e está contida no filme: aquele som ampliado do ruido de certos objectos (os talheres no prato, a faca a espalhar a manteiga na torrada), a tornar palpável a insuportabilidade de se revestem, para o protagonista, os elementos incontroláveis que se imiscuem na sua rotina – é isto, esta “desnaturalização” forçada, óbvia e redundante que está no centro do cinema de PTA tal como ele aqui o pratica.

A ironia torna-se pesada, e se A Linha Fantasma é (ou enfim, podia ser) o Ladies’ Man de Jerry Lewis (a misoginia numa casa de bonecas) reescrito pelo mesmo Harold Pinter que assinou o argumento do Criado de Losey (o cenário doméstico como palco de uma luta que também é de classes) e filmado por Stanley Kubrick (o “olhar da máquina”) o resultado é bem menos interessante do que a soma das parcelas. Enfim, responsabilidade também de Daniel Day-Lewis, proclamado “maior actor do mundo”, aqui numa composição que é duma picuinhice sem medida e mata a personagem praticamente à nascença: não se acredita nela para que o seu “mistério” se torne interessante, e sem interesse pelo mistério a crença não se recupera. Um círculo vicioso, uma “linha fantasma”.