José Pedro Cortes: "Se estiver atento ao mundo, a fotografia aparece"

A cor e a luz refulgem na fotografia de José Pedro Cortes com uma intensidade inédita. Abriu-se ao digital, afasta-se do documento, cria uma realidade suspensa, como um jardim ou uma gruta com sons. Na Galeria Francisco Fino, em Lisboa.

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Planta Espelho concretiza um novo caminho anunciado. José Pedro Cortes começou a usar câmara digital e abandonou o registo mais documental do território Nuno Ferreira Santos
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Foi há dois anos nas páginas do PÚBLICO. Ao fim de várias exposições e três livros de fotografia, José Pedro Cortes anunciava a possibilidade de um novo caminho para o seu trabalho. Ei-lo agora revelado na Galeria Francisco Fino, em Lisboa, sob o título de Planta Espelho, uma constelação de imagens realizadas em várias geografias. A cor e a luz refulgem nas suas superfícies com uma intensidade inédita, consagrando-lhes uma força independente de relações ou narrativas. Para trás, ou apenas refreados, ficaram os confrontos com os corpos e os olhares dos retratados, o impulso do documental que caracterizavam Things here and things still to come, Costa e One’s own arena. Ficaram? Com toda a sua novidade, Planta Espelho arrasta consigo coisas do passado. Nasceu tanto da experiência do mundo como de um olhar sobre um arquivo.

José Pedro Cortes reflecte sobre o caminho que o levou aqui: “Sabia desta exposição há um ano e quis pensá-la de uma forma diferente. Nos trabalhos que fizera, em 2016, para a Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira já tinha ensaiado esta nova direcção, mas agora decidi arriscar, tomando duas decisões. Uma de ordem técnica, a outra relacionada com o conteúdo. Comecei a usar uma câmara digital e fui abandonando o registo mais documental do território, que estava muito presente noutros trabalhos”.

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One’s Own Arena (2015) criava uma intimidade pela fotografia como um acto a dois. Em Planta Espelho o fotógrafo interessa-se mais pela massa escultórica do corpo do que pela identidade das pessoas

O resultado imediato foi uma fragmentação em diferentes tons de luz, conduzida pela curiosidade e a atenção. A câmara continua a ser a ferramenta que permite ao artista captar o mundo, cada vez mais uma superfície de imagens em que o natural e o artificial se confundem, desestabilizando a memória das experiências e dos lugares. O espanto diante do que se vê em Planta Espelho declina-se por vezes numa sensação de ansiedade, ao que não será alheia, também, a natureza técnica da maior parte das fotografias.

“Com o digital, comecei a trabalhar de uma forma que não conseguiria em película. Uma nova relação com a luz e com o espaço, uma nova portabilidade e uma nova cor. Tudo isto produz imagens mais cristalinas, mais luminosas, com um lado espectral, que precisei de tempo para entender”.

José Pedro Cortes refere-se, por exemplo, à fotografia do motociclista, em Itália, uma caixa de luz que torna o corpo humano indistinto dos artefactos técnicos, ou a da vegetação que, a tecnologia, tornou, por momentos, azul. “Cresci com a a magia da película, mas senti que precisava de uma nova forma de intermediação entre mim e a realidade. Tinha feito um percurso com um medium e agora precisava de outro. Percebo que se pense que nessa opção haja a tentação de facilitismo, mas a dificuldade e as dúvidas na procura de uma fotografia são anteriores à técnica, são do domínio pessoal e moral, de como queremos olhar e para onde olhamos.

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Em Silence, livro editado em 2005 pela Pierre Von Kleist, encontram-se motivos que surgem transfigurados em Planta Espelho Em Silence, livro editado em 2005 pela Pierre Von Kleist, encontram-se motivos que surgem transfigurados
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No mesmo espaço, o mundo artificial e o mundo natural: Things here and things still to come, livro realizado entre 2008 e 2009, em Telavive, Israel
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Em One’s Own Arena, livro e exposição no Museu da Electricidade, “já existia essa relação, a criação de uma intimidade pela fotografia como um acto a dois, que exige confiança”
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O impulso do documental caracterizava as fotografias de Costa, realizadas na Costa da Caparica entre 2006 e 2013

A fotografia e o mundo

José Pedro Cortes volta a observar a imagem do motociclista. “Fi-la muito depressa. Mas, depois, quando a vi mais tarde, tive uma estranha sensação. Imediatamente gostei dela, mas talvez por ter uma linguagem nova para mim, olhei-a quase como se não fosse minha, como se não tivesse autor. Foi essa mesma sensação que tive diante da primeira imagem do livro de Israel, a da rapariga à janela [de Things Here and Things Still to Come]. Como se me tivesse sido dada. Seja qual for a sua origem, as imagens que sinto serem importantes têm uma capacidade de acompanhar o tempo. Há algo nelas que continua misterioso, que não se decifra totalmente com o olhar e não percebemos como é que, sempre que as olhamos, elas se renovam.”

O digital representou uma passagem, não uma ruptura, permanecendo na abordagem certas atitudes e sensibilidades em relação ao tempo do trabalho: “Há uma aceleração com o digital, fica tudo disponível. Desaparece a distância entre o disparo e a revelação, tendem a diminuir o erro e as surpresas. Mas, na verdade, a forma de trabalhar não mudou muito. De certa maneira, fotografo como se ainda usasse película. Muitas vezes não vejo logo as imagens, não as altero digitalmente. Tento que haja uma ligação directa entre o que vejo e a imagem. A técnica é apenas o veículo para que haja esta transferência.”

As experiências da aprendizagem têm marcado o percurso de José Pedro Cortes. Enquanto estudava Gestão no Porto, onde nasceu em 1976, estudou cinema e fotografia. Passou pela Filmógrafo, onde colaborou com Abi Feijó e Regina Pessoa, trabalhou num atelier de fotografia comercial e foi durante, durante cinco meses, aluno na ArCo - Centro de Arte e Comunicação Visual. Um itinerário cheio, precário que incluiria, em termos formativos, um mestrado de fotografia na Kent Institute of Art and Design (2003-2004), em Londres, e um curso na Fundação Calouste Gulbenkian (2005). Solidificava-se a antecâmara de uma carreira que seria constituída por momentos como a nomeação para o Prémio BESPhoto em 2014 e essa magnífica aventura, conduzida pelo amor à imagem impressa e aos livros, na companhia de André Príncipe, que se chama Pierre von Kleist Editions. A relação de José Pedro Cortes com o mundo construía-se com a fotografia e vice-versa.

Na exposição, Anjos mostra um edifício iluminado do qual se debruçam e descem plantas. Sob a coexistência do fabricado e do mundo natural, manifesta-se uma tensão que reaparece noutras fotografias ou entre as fotografias. “Quero olhar para um tempo onde, em paralelo à vontade de progresso do Homem, continuamos a viver com a fragilidade e com a instabilidade dos objectos, dos corpos e da natureza”, diz. “O nome da exposição era para ser 'planta-estúdio’, o que permitia jogar com a ideia de planta, de vegetação e de estúdio. Tinha um sentido metafórico, um mapa pessoal do estúdio, o da minha cabeça e o físico, o do mundo. Mas mudei para ‘planta-espelho’, um arbusto que tem uma capacidade de adaptabilidade muito grande e que se comporta de maneira diferente consoante o local onde seja plantado. A exposição joga com o lado livre e natural, e o lado artificial e tecnológico do homem, aplicado à paisagem e, também, ao corpo”.

Entre o acaso e a atenção

O corpo aparece nas imagens menos espectaculares, em detalhes de membros em esforço ou em movimentos suspensos, sugerindo a presença do trabalho em estúdio, entre artista e modelo. José Pedro Cortes recorda as fotografias realizadas na Japão que culminariam noutro livro e na exposição One's Own Arena, em 2015 no Museu da Electricidade. “Nesse trabalho, já existia essa relação, a criação de uma intimidade pela fotografia como um acto a dois, que exige confiança e provoca alguma tensão. Aqui, interesso-me mais pela massa escultórica do corpo do que pela identidade das pessoas”, enfatiza, antes de revelar que a questão do corpo será explorada com outro escopo em Junho, no Museu do Chiado, numa exposição comissariada pelo crítico de arte do Ípsilon Nuno Crespo.

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Em Planta-Espelho, os motivos, as escalas, de enquadramentos sucedem-se sem o controlo do livro de fotografia. O espectador entra sai e quando e onde quiser, escolhe o ritmo da sequência, interrompe a experiência de uma imagem de objecto para observar a imagem de um lugar. Vê superfícies e imagens sobre superfícies. Edifícios, espelhos, sombras, máquinas, paisagens, vegetação, coisas brilhantes, construídas ou em construção, coisas gastas, à beira do desaparecimento. “Há um espectro geográfico e temático mais amplo, mas creio que cada uma das imagens vive de uma forma independente. Nos livros havia pequenas introduções que localizavam o trabalho e as imagens eram lidas como um todo. Aqui cada imagem tem um som diferente e a experiência da exposição está na forma como se lida com a simultaneidade destes estímulos”

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Uma caixa de luz, um motociclista que torna o corpo humano indistinto dos artefactos técnicos: José Pedro Cortes teve uma “estranha sensação”, era como se a foto não fosse dele, como se não tivesse autor
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José Pedro Cortes gosta que as pessoas vejam, aceitando a irrupção do acaso e o inesperado, tanto na exposição, como no exterior. “A instalação destas fotografias está relacionada com o modo como trabalho. Quando me encontro num lugar, ando, vejo, paro. Regresso várias vezes ao mesmo sítio, para ver se uma coisa se pode transformar numa fotografia. Com um meio económico e solitário, como é uma câmara, procuro estar atento à experiência sensorial que o mundo me dá. E, numa constelação de imagens, as relações de forma e conteúdo são feitas, tal como diz um fotógrafo que gosto bastante, o Lee Friedlander, sempre na misteriosa intersecção entre chance e atenção”.

Blue Wall Tokyo é uma imagem assim, pelo modo como interpela e confunde o olhar. Que imagens se vêm dentro da fotografia? Trata-se de uma impressão do real? Uma imagem compósita? Após olhares repetidos, o espanto não se separa da dúvida. Que método é este? “Trabalho de forma meditativa sobre uma coisa que está à minha frente. Se estiver atento ao mundo, a fotografia aparece, torna-se uma coisa autónoma, tem uma vida para lá do autor. E os espectadores podem entrar nela, contemplar o mundo, ter memórias, recordações, ou ficar à superfície com dúvidas. Aquilo que o artista faz é dizer ‘chega aqui, tenho uma coisa que te quero mostrar’. A fotografia não lida com o movimento. Podemos fazer o quisermos, mas quando se fotografa uma cadeira, ela é sempre uma cadeira. Este é o ponto de partida”.

Dúvida e vulnerabilidade

As imagens não se tornam fotografias apenas no gesto criativo de José Pedro Cortes, tornam-se obras quando tornadas públicas, adquirindo uma outra realidade. Na parede, uma sombra, reminiscente de uma silhueta encontrada no livro Silence (2005), amortece a profusão de cores. “É uma imagem que realizei há mais anos e que redescobri. Gosto de andar em frente, olhando para trás. Já são uns bons anos a fotografar. Fui criando um arquivo que me permite pensar sobre o modo como as imagens, ao fim de algum tempo, se tornam fotografias com uma vida pública. Embora tenha um pé no presente, também começo a ter a sensação que estou cada vez mais a trabalhar num arquivo”.

Em Planta Espelho aparecem fotografias que apontam para parentescos, correspondências com outros trabalhos. Os automóveis, a janela envelhecida e partida, as plantas, os objectos em decomposição são motivos que regressam, transfigurados por um novo olhar. “Quero que as fotografias apareçam. Quando isso acontece, o tipo de técnica utilizado, saber se a imagem é ou não ensaiada, são questões secundárias. Elas sãos válidas por si mesmas”. 

Uma das fotografias que apareceu é a do rosto de Prince num televisor, inscrevendo a exposição no tempo, neste século. “Sim, é a mais documental. Estava em Tóquio, tinha chegado há muito pouco tempo, liguei a televisão muito cedo e vi esta imagem. Não percebi exactamente o que estava a acontecer, mas fiz a fotografia e só então soube que ele tinha morrido. A imagem fala sobre esse momento de dúvida, do instante antes da descoberta da morte”.

Não é a primeira vez que salva uma imagem alusiva ao desaparecimento de uma figura da música pop. Para a exposição do Prémio BES Photo já tinha fotografado o obituário do Lou Reed, escrito pela Laurie Anderson. “Aquilo que faço inscreve-se num tempo que inevitavelmente se transfere para as minhas imagens. As referências a Lou Reed ou ao Prince servem para não perder referências à História, àquilo que aconteceu e é do domínio público. O mesmo sucede com uma imagem de uma fachada de um edifício ou de um cigarro apagado. São documentos nosso tempo. E daí perguntar, como se constrói um documento? O que é um documento hoje em dia?”.

Na exposição, não se prometem respostas para estas perguntas. No seu lugar subsiste, antes, uma tensão entre a persistência do real e a fotografia como objecto autónomo que ao proporcionar uma experiência ao espectador, cria um sentido independente do valor documental. “Nestes últimos tempos sinto-me menos ligado à tradição fotográfica e aos livros de fotografia e sinto que outras artes como a música e a arquitectura me influenciam mais”, reflecte. “Interessa-me pensar como é que as imagens individuais se conseguem relacionar com um espaço e criar uma realidade suspensa, como se fosse um jardim ou uma gruta com sons”. Tal intenção e expectativas são indissociáveis de uma atitude que cultiva e sobre a qual nunca deixou de pensar. “As experiências pessoais e a observação dos espaços e das pessoas, sempre me trouxeram dúvidas e questões que tentei incorporar na construção de um discurso, seja livro ou exposição. Com o tempo, fui afastando uma quantidade de panos e camadas de ideias feitas e percebendo que nas nossas relações não existe senão vulnerabilidade. Nunca há só um ponto de vista. Este estado de dúvida, de não me deixar seduzir pela leitura fácil e linear da realidade, é uma das coisas mais preciosas e livres que existem. Gera um estado de alerta e curiosidade e é aquilo que me continua a mover”.

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Chegou a Tóquio, ligou a TV, viu uma imagem de Prince, não percebeu, mas fez a foto: a imagem fala sobre esse momento de dúvida, o instante antes da descoberta da morte Nuno Ferreira Santos