Crítica

Ver as coisas a aparecer

Na Galeria Francisco Fino, José Pedro Cortes continua surpreendido pelas imagens que habitam a realidade.

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Nuno Ferreira Santos

Há algo que ressalta de imediato em Planta Espelho, a nova exposição individual de José Pedro Cortes, na Galeria Francisco Fino, em Lisboa. De tão brilhantes, algumas fotografias parecem iluminadas, como se fossem caixas de luz. O efeito é irresistível, magnetizante. Os visitantes abeiram-se delas, percorrem-nas com o olhar. Demoram-se diante do que vêem. A presença intensa da cor contribui para o espanto da contemplação. Não é a primeira vez que José Pedro Cortes (Porto, 1976) privilegia as relações entre as cores – na exposição Moi, Un Blanc, realizada na Galeria Módulo em 2011, o interesse pelas superfícies coloridas já se revelara – mas em Planta Espelho a intensidade dos contrastes adquire outros sentidos. Abundam as peles cromadas, metálicas que compõem o mundo artificial: edifícios, viaturas, máquinas, coisas que o homem construiu e acrescentou ao mundo. Foi nesse mundo que José Pedro Cortes fez as suas imagens e é esse mundo que nos dá a ver, agora filtrado pelas possibilidades e os limites da câmara digital, instrumento que tem vindo a usar.

PÚBLICO -
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Ímpedir ao observador a tranquilidade do reconhecimento: Blue Wall Tokyo, a cidade como uma tela na qual se reproduzem, se projectam imagens

Em Planta Espelho, rareiam as fotografias em película, como rareiam os retratos de intimidades ou de gestos que habitualmente associamos à esfera privada e que o artista transfigurou em Things here and things still to come e One's Own Arena. A excepção consiste num conjunto de trabalhos realizados em estúdio; de resto, a vontade de documentar territórios ou quotidianos definidos e a interacção repetida, tensa, com as pessoas retratadas cederam o lugar ao trânsito e à experiência das imagens, ao modo como o olhar as redescobriu no acaso, na contingência. José Pedro Cortes insiste em ver as coisas a aparecer – pode ser um reflexo, o lugar dos objectos no espaço, a relação entre um edifício e a folhagem, as cores numa superfície. O resultado material dessa atitude é, por vezes, desconcertante ao ponto de impedir ao observador a tranquilidade do reconhecimento; é assim em Blue Wall Tokyo (a cidade como uma tela na qual se reproduzem, se projectam imagens) ou na fotografia da vegetação “pintada de azul”. Sob os limites do enquadramento, que sublinham os detalhes e deixam de fora a realidade animada, o espanto aparece com a inquietação, com a dúvida: é este o nosso mundo?

Planta Espelho pode ser experienciada como uma composição musical, pois nela cabem tons graves e agudos, ritmos distintos, momentos melódicos, dissonância. Às fotografias de maiores dimensões, espectaculares e iluminadas, seguem-se outras mais “modestas”, retratando objetos abandonados, detalhes de corpos, plantas, árvores. As escalas descem, levando o olhar para planos onde as coisas são irregulares e imperfeitas, objectivamente finitas. Embora os territórios não sejam reconhecíveis, e estejam ausentes os desfoques, os velamentos, os erros que caracterizam outros trabalhos, Planta Espelho devolve uma sensibilidade que continua surpreendida pelos contrastes, pelos movimentos, pelas relações que habitam a realidade. José Pedro Cortes não esgota o espectador, pelo contrário, permite-lhe algum apaziguamento, quando lhe mostra o recorte de uma sombra, o gesto suspenso de uma mão, a moldura e o tecido de um janela partida, uma planta morta num vaso. E ao reintroduzir estas coisas no mundo, insiste na sua contemplação e no seu mistério, torna-as coisas do pensamento. Uma das imagens em que esse gesto se torna mais pungente é a fotografia do músico Prince captada na televisão, durante uma viagem ao Japão. De dimensão reduzida, fixa a exposição de Planta Espelho no tempo histórico, assinalando uma memória colectiva e o fim de uma época. E com ela, uma imagem de uma imagem, José Pedro Cortes liberta-nos por momentos das fotografias como puras abstrações e da fragmentação e irrealidade do mundo.