Foram descobertas mais de 60 mil novas ruínas maias

A descoberta só foi possível graças a um sistema de lasers conhecido como LiDAR, que criou uma imagem 3D de uma superfície de 1200 quilómetros quadrados, inacessível aos investigadores.

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Imagens obtidas na investigação na floresta tropical de Petén, no Norte da Guatemala DR

Com recurso a tecnologia de ponta, um grupo de investigadores foi capaz de descobrir mais de 60 mil ruínas maias escondidas na floresta tropical de Petén, no Norte da Guatemala, próxima da fronteira com o Belize e o México. Um sistema de lasers conhecido como LiDAR pôs a nu um conjunto de ruínas de casas, palácios e uma rede intricada de estradas e calçadas, numa superfície com mais 1200 quilómetros quadrados que não podia ser estudada antes. Afinal, as cidades maias do Norte da Guatemala podem ser bem maiores do que se pensava.

Um grupo de investigadores conseguiu retirar, de forma digital, a cobertura florestal de imagens aéreas da floresta tropical do Norte da Guatemala, com recurso à tecnologia LiDAR – abreviatura de Light Detection and Ranging (“Detecção de Luz e Variação”, em português). O resultado foi um mapa 3D da superfície da Terra, com mais detalhe do que aquele que seria possível retirar de anos de exploração de campo.

A LiDAR usa a luz laser para retirar uma amostra comprimida da superfície da Terra – emite milhões de pulsões laser em intervalos de quatro segundos, a partir de um avião ou de um helicóptero. Os comprimentos de onda do laser são então reflectidos e medidos – “não muito diferente da forma com os morcegos usam o sonar para caçar”, descreve a BBC. As medições são usadas para produzir uma imagem a três dimensões da superfície do solo.

“A LiDAR está a revolucionar a arqueologia da mesma forma que o telescópio espacial Hubble revolucionou a astronomia”, disse Francisco Estrada-Belli, arqueólogo da Universidade de Tulane, nos EUA, à National Geographic. “Vamos precisar de 100 anos para analisar todos os dados recolhidos e perceber o que estamos a ver.” “Com estes novos dados, não é pouco razoável pensar que podiam ter vivido aqui dez ou 15 milhões de pessoas”, disse o arqueólogo, “incluindo nas terras baixas e pantanosas que muitos de nós achavam inabitáveis”.

Estas imagens permitiram identificar mais de 60 mil estruturas – a maioria estruturas em pedra que poderiam ter servido de apoio a cabanas de madeira e colmo. Foram ainda identificadas várias estruturas de defesa como fortes e muralhas, o que permite concluir que os maias dedicavam mais recursos à defesa do que os investigadores acreditavam.

Outros achados incluem uma pirâmide de sete andares que estava praticamente coberta de vegetação e uma rede complexa de estradas e calçadas, possivelmente usadas para o comércio. Como são estruturas elevadas, os investigadores pensam que foram projectadas para serem usadas mesmo em alturas de chuva intensa.

“Acho que este é um dos maiores avanços em mais de 150 anos da arqueologia maia”, disse Stephen Houston, professor de arqueologia e antropologia da Universidade Brown, EUA, à BBC. Descreveu ainda que os mapas do LiDAR eram “de cortar a respiração”.

Thomas Garrison, arqueólogo do Ithaca College, EUA, disse ainda à BBC que a densidade populacional foi “grosseiramente subestimada” e que pode “ser três ou quatro vezes maior do que aquilo que se pensava anteriormente”.

Apesar de optimistas com o potencial da LiDAR – que poupou anos de investigação aos cientistas –, Thomas Garrison salienta um dos principais problemas desta tecnologia: “A parte complicada da LiDAR é que dá uma imagem de 3000 anos de civilização maia comprimida. Coloca-nos mais desafios numa altura em que ainda estamos a aprender mais sobre os maias.”

A mesma tecnologia já foi usada para revelar os templos de Angkor Wat, no Norte do Camboja.

As descobertas na Guatemala foram possíveis graças a um projecto de três anos de uma organização que promove a preservação da herança cultural: a Fundação Pacunam. O objectivo é mapear mais de 14 mil quilómetros quadrados das terras baixas guatemalenses.

Estas descobertas vão ser divulgadas ao pormenor num programa do canal britânico Channel 4, Lost Cities of the Maya: Revealed (As cidades perdidas dos Maias: Reveladas, em português), que se estreia a 11 de Fevereiro.