Crónica

A cegueira diária

Porque é que não aprendemos com os turistas que gastaram dinheiro para vir para aqui olhar para as coisas em que já não reparamos?

Portugal está cheio de caminhos secretos, mas não são necessariamente os mais bonitos. Os caminhos mais bonitos até são conhecidos — basta ter a carta correcta e fazer umas perguntinhas —, mas as pessoas evitam-nos, porque são demorados. Para se perceber o absurdo vou repetir: os portugueses evitam os caminhos bonitos, porque demoram bastante tempo a percorrer. Sim, a beleza prolonga-se no tempo. Não é só um minuto ou dois de encantamento. Pode ser mais de uma hora. É inaceitável.

A vida é curta de mais para ir pelos caminhos feios. Encafuamo-nos em casa ao fim do dia e só saímos no dia seguinte para trabalhar. Para trabalhar encafuamo-nos num edifício, de onde só saímos para voltar para casa. O caminho entre estes dois encafuanços é muitas vezes a única viagem do nosso dia. O caminho pode ser a nossa única liberdade, o nosso momento de vida selvagem, umas pequeníssimas férias, só ligeiramente proibidas, mas por isso mesmo mais merecidas.

Porque não havemos de ir pelo caminho mais bonito? Porque é que vamos sempre com pressa, sem tempo de reparar nas mudanças dos dias e das luzes e dos verdes? Porque é que não aprendemos com os turistas que gastaram dinheiro para vir para aqui olhar para as coisas em que já não reparamos?

Aprende-se muito quando se está a mostrar a nossa terra a uma pessoa amiga. Escolhem-se os caminhos que mais cantam, aqueles para os quais nunca temos paciência. O pasmo da nossa amiga abre-nos os olhos para a cegueira da nossa preguiça e falsa, falsa economia.

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