Crítica

Procurar num espaço instável

A história de uma artista e do seu fascínio pelo gelo, das suas “obsessões brancas”, e também a da procura de um sentido para uma vida instável.

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Alicia Kopf escreveu uma espécie de crónica da “conquista do inútil”

Irmão de Gelo, da espanhola Alicia Kopf (n. 1982) — pseudónimo literário da artista plástica Imma Ávalos Marquès — é, ao ser folheado de maneira aleatória, um livro estranho: desenhos, fotografias, extractos de biografias de exploradores polares e de outros aventureiros, pequenas crónicas, notícias, excertos de conversas no Whatsapp, notas de rodapé a aclarar conceitos e a remeter para links onde são referidas como fontes o Google e o Facebook, apontamentos diarísticos vários incluindo os de uma viagem à Islândia. Não se assemelha a um romance comum. No entanto, e ao ser lido, ao fim de pouco tempo se percebe que há nele uma lógica narrativa interna consistente que une todo aquele material.

Quase logo no início, Alicia Kopf apresenta-nos uma teoria do século XIX, de John Cleve Symmes, que defendia que a Terra tinha dois buracos nos extremos e que comunicavam entre si. Logo, seria lógico aceitar que: “Se fosse possível chegar ao pólo, ter-se-ia ao alcance todo um universo interior.” Esta teoria serve à narradora para nos ir introduzindo na vida do seu irmão, diagnosticado com transtorno do espectro autista — que lhe provoca uma distância comunicativa com o mundo exterior, e também com o exercício da vontade própria. O irmão, que parece espectador de uma obsessão que por vezes não compreende, torna-se assim no centro do livro e justifica toda a estratégia profundamente narrativa. As acções do irmão parecem congeladas, e ao mesmo tempo a narradora confessa ter as suas “obsessões brancas”, e que lhe interessa o “furor ártico”. “O meu irmão é um homem preso no gelo. Vê-nos através dele. Ou, mais exactamente, no seu interior há uma fissura onde por vezes há gelo. Ele está e não está.” A congelação, ao contrário do fogo que consome, conserva a forma do corpo.

Neste romance de Alicia Kopf temos a escrita à procura do sentido de uma vida instável (por vezes o leitor duvida: qual das duas vidas será a mais instável, a dela ou a do irmão adulto?): a escrita que procura com obsessão metáforas para construir uma espécie de épica de si própria, e são inúmeras as referências no livro ao épico, não como um ponto longínquo, ou alto (numa montanha, por exemplo), que se alcança, mas como um método que se pratica. Chegando, sobretudo, a separar o épico da vitória, do conseguimento de um feito:  “O que a vitória tem de frio e a derrota de épico.”

Contrariamente ao que se possa pensar ao ler todas aquelas biografias dos exploradores polares na primeira parte do romance — de Robert Edwin Peary a Frederick Cook, de Scott a Amundsen, e poucos anos mais tarde a do capitão Shsckleton e da sua expedição — à narradora de Irmão de Gelo não lhe interessam os exploradores polares por si próprios, ou o facto de terem conseguido com sucesso, ou sem ele, atingir os seus objectivos científicos; interessa-lhe sobretudo a ideia de procura num espaço instável: procurar uma metáfora para esse espaço de conquista, uma metáfora que nesse cenário, e por natureza, se manterá sempre arredia. Mais uma vez, é o método (e também o artístico) o que ela tenta encontrar, e não um ponto-objectivo em si.

Ao mesmo tempo que vai narrando a história do irmão (e a sua, ou as suas), a narradora vai-se dando conta de como a arte pode irromper no terreno da verdade documental, e vai levantando questões pertinentes sobre a sua natureza, a sua expressão nos dias actuais, e sobretudo acerca da sua utilidade e finalidade no nosso pequeno mundo, pois o doméstico pode ser o território mais difícil de habitar. “Quase não resta nada de nós a não ser a continuidade da nossa história, aquilo que conseguimos reter apesar do espólio contínuo da própria fisicalidade, uma fronteira muito frágil, permeável, atravessada todos os dias por rios, cascatas, continentes, multidões.”

Alicia Kopf escreveu uma espécie de crónica da “conquista do inútil”, bem diferente dos textos do cineasta alemão Werner Herzog, mas com muito de comum — aliás, não é em vão que a figura de Fitzcarraldo é referida, bem como a sua  tarefa épica de levar um barco a subir uma montanha nas florestas da Amazónia.