Crítica

SG, gigante outra vez

Nação Valente é o melhor disco que Sérgio Godinho já gravou neste século e entra na lista dos seus melhores de sempre.

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Nação Valente: cada tema, ainda que nos soe como novidade, parece pertencer há muito a um lote de canções eleitas Arlindo Camacho

Quando gravou Coincidências, um dos seus discos mais celebrados, Sérgio Godinho incluiu nele cinco canções em parceria, com nomes como João Bosco, Milton Nascimento, Ivan Lins e Novelli a assinar quatro músicas e Chico Buarque a escrever-lhe uma letra. Isso foi em 1983, em consequência de uma ponte com o Brasil (com alegrias e dissabores, pois passou pelos cárceres da ditadura militar brasileira). Desde então, apesar de ter trabalhado com muitos músicos e cantores, não voltou a repetir tal partilha em discos de estúdio. Até hoje. Nação Valente, que chega às lojas esta sexta-feira, não só leva mais longe o que em Coincidências foi uma aposta ganha com autores brasileiros, como a expande num maior número de parcerias, agora com autores portugueses: Sérgio assina todas as letras (excepto um original de Márcia, Delicado, do disco Casulo), mas apenas duas músicas, sendo as restantes escritas por Hélder Gonçalves (dos Clã, também autor de duas), David Fonseca, José Mário Branco, Nuno Rafael, Filipe Raposo e Pedro da Silva Martins (dos Deolinda). Esta diversidade será mérito de Sérgio (que se apropria das canções de forma a torná-las suas, no som e na forma, mesmo a de Márcia) mas também de Nuno Rafael, que garante com excelentes resultados a produção e a direcção musical do disco. Ouvir Nação Valente torna-se, por isso, viciante: cada tema, ainda que nos soe como novidade, parece pertencer há muito a um lote de canções eleitas. Poucos discos logram tal feito.

Tematicamente, há temas introspectivos, existencialistas, entre a hesitação dos caminhos a seguir, a título pessoal (Grão da mesma mó) ou colectivamente (Nação valente, um hino de optimismo mas também de alerta no pós-troika), outros virados para os dilemas da desumanização do trabalho para sobreviver (Noite e dia), outros para os jogos do amor e do compromisso que ele exige ou nele se quebra (Artesanato, Tipo contrafacção ou Até já, até já), juntando-se-lhes a sensualidade explicitamente erótica de Baralho de cartas e o exotismo misterioso de Noites de Macau, as duas canções que Sérgio assina sozinho. Nesta última, quem leu o romance de Sérgio Coração Mais Que Perfeito (Quetzal, 2017), encontrará uma “ponte”, decerto não intencional, com a temática do livro: “Esperanças ressurgidas/ Num diamante já no chão/ Apanhe-se ainda vivo/ E que ele volte/ Ao lugar vazio em vão/ Ao lugar do coração.” (no livro, as cinzas da cremação de um amor morto dão lugar a um diamante em forma de coração, uma jóia para usar num colar, ao peito). E há, por fim, o “doce pássaro da juventude” de Mariana Pais, 21 anos, jovem com “sede de ter mundo”, a dançar “ao vento da viagem”, a rondar os desejos da Nação valente: se Mariana quer sonhos “de laços” e também “de liberdade”, para o Portugal recém-saído da troika pedem-se “fronteiras antigas e fronteiras abertas” e “um país de ideias libertas.”

É impossível ouvir Mariana Pais e não pensar em José Mário Branco, o autor da música, até porque Sérgio lhe seguiu não apenas os passos como a densidade lírica do tema, com harpa, quarteto de cordas e contrabaixo. Essa intenção, no sublinhar das canções, é feita de forma acertadíssima pelos arranjos: a quase total ausência de bateria (usada apenas em parte ou substituída por percussões), o piano e os coros (de David Fonseca) em Grão da mesma mó, o dulcimer de Baralho de cartas (com um refrão por onde passa a atmosfera das trovas de José Afonso), o trio de sopros (clarinete, oboé e fagote) na estrutura de cabaré de Tipo contrafacção, o melotron de Noites de Macau ou Noite e dia, as guitarras de Delicado (com Márcia, a autora da canção, nos coros), o sincopado riff rock (a lembrar os Stones de um Honky tonk women) na malha pop de Até já, até já. Tudo isto, em Nação Valente, aparentando dispersão, é, pelo contrário, de enorme coerência.

E já que de início evocámos Coincidências, também com ele há laços insuspeitos. Abria, como Nação Valente, com um tema introspectivo, O labirinto (“E agora?/ Que encaro?/ Que enfrento? (…)/ Que aprendo/ Que encontro?”), falava de jogos de amor (A barca dos amantes, Coisas do amor I e II), de ânsias de futuro (Que há-de ser de nós?), do estado da “nação valente” à época (Não te deixes assim vestir…) e até de Horas extraordinárias, embora essas fossem bem diferentes das que habitam o pesadelo do actual Noite e dia. E havia também apenas uma letra que não era de Sérgio, mas de Chico Buarque (aqui é de Márcia). Mais uma coisa, quase cabalística: antes de gravar Coincidências, Sérgio esteve 33 dias preso pela ditadura brasileira. Nação Valente dura… 33 minutos e 30 segundos.

Mas chega de divagações. Se Coincidências é uma obra-prima de Sérgio Godinho, Nação Valente, nascido trinta e cinco anos depois, pede meças a tal estatuto: é o melhor dos discos que Sérgio já gravou neste século e entra na lista dos seus melhores de sempre. O próximo? Não tem data marcada. Como ele diz, a fechar: “Até já, seja lá quando for.”