Obra de Vhils em edifício do arquitecto Agostinho Ricca será "efémera"

Donos do edifício Santo António, no Foco, Porto, reagiram à onda de protestos de vários personalidades, entre eles Siza Vieira e Souto de Moura, que criticam a adulteração do projecto de um importante arquitecto do modernismo.

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O edifício de escritórios está a ser reabilitado ADRIANO MIRANDA
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Intervenção proposta para a empena DR

A empresa que comprou o edifício Santo António, no Foco, Porto, garante que a proposta que o artista plástico Vhils irá desenvolver para uma das fachadas terá “carácter efémero e não afecta a qualidade arquitectónica do edifício ou dos materiais originais que este incorpora”. O esclarecimento, enviado ao PÚBLICO, surge depois de vários arquitectos, entre eles Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura, se terem pronunciado contra uma intervenção que, no seu entender, põe em causa a preservação de um importante património arquitectónico da cidade, desenhado pelo arquitecto Agostinho Ricca (1915-2010), em co-autoria com João Serôdio e Magalhães Carneiro.

Depois de vários arquitectos se terem manifestado preocupados com a reabilitação que está a ser feita no edifício, por, em seu entender, alterar a obra de Ricca e pôr em causa o conjunto do Foco, considerado por Álvaro Siza como “a melhor e mais prestigiada solução urbanística e arquitectónica dos anos 60”, a empresa Atitlan Real Estate Porto Imóveis, S.A. garante, em comunicado, que está “a desenvolver, em parceria com a Câmara do Porto, o projecto de requalificação do edifício Santo António, respeitando o valor arquitectónico do mesmo, bem como a imagem global do conjunto arquitectónico onde está inserido”. E confirma, tal como o próprio Vhils já afirmara, que a intervenção artística que este deverá desenvolver para o local “está ainda em fase de estudo, não havendo ainda nenhuma solução definitiva quanto à mesma, e que contará sempre com a colaboração do pelouro do Urbanismo” da câmara.

A polémica estalou quando a mediadora imobiliária responsável por vender os espaços do edifício de escritórios colocou na internet uma imagem simulada do edifício com parte das fachadas cobertas por uma intervenção de Vhils. Vários arquitectos pronunciaram-se nas redes sociais contra esta solução, apelando à defesa do património de Ricca, numa posição a que se juntou também o International Commitee for Documentation and Conservation of Buildings, Sites and Neighbourhoods of the Modern Movement (Do.Co.Mo.Mo) e a comissão das Comemorações do Centenário de Nascimento do Arquitecto Agostinho Ricca. Questionada pelo PÚBLICO, fonte oficial da Câmara do Porto garantiu, já na quarta-feira, que os serviços do Urbanismo estão “a olhar para o processo” e que a imagem divulgada pela imobiliária “não corresponde ao que vai ser o resultado final daquele projecto”.

Esta quinta-feira, o arquitecto Eduardo Souto de Moura juntou-se aos críticos da intervenção prevista para a fachada do edifício, defendendo que este é “muito importante na obra de Ricca e faz parte de um conjunto que integra o que de melhor se fez com urbanizações”. Tal como os outros arquitectos ouvidos pelo PÚBLICO, Souto de Moura disse não ser contra “intervenções artísticas em edifícios”. Mas, defendeu, para isso é preciso “um trabalho conjunto” e, de qualquer maneira, “não é lá” que tais intervenções têm sentido, disse, rematando: “Tenho a certeza que aquilo não vai acontecer. Não faz sentido picar um prédio daqueles”.

Já em relação às garantias da empresa de que o projecto em curso respeita “o valor arquitectónico” do edifício, o arquitecto fica com algumas dúvidas, porque a intervenção já deu origem a algumas alterações. “As caixilharias já foram alteradas e colocaram lá umas grosseiras”, disse Souto de Moura. Graça Correia, do gabinete Correia/Ragazzi, que em 2010 tentou que o conjunto arquitectónico do Foco fosse classificado, também se mostra preocupada com a mudança nas caixilharias e no átrio do edifício, de onde diz ter desaparecido “o bar fabuloso”. “Lá por manterem os mármores, não quer dizer que estejam a manter o edifício na íntegra”, disse.

Num artigo de opinião publicado no P3, o arquitecto João Luís Marques, que integrou a comissão das Comemorações do Centenário de Nascimento do Arquitecto Agostinho Ricca e foi um dos responsáveis pela organização do seu arquivo (que se encontra na posse da família de Ricca) explica a importância do Foco – que está, aliás, identificado no Plano Director Municipal do Porto como conjunto de interesse urbanístico e arquitectónico -, referindo: “A grande qualidade de todo o Parque Residencial da Boavista é a unidade conseguida na diferença respeitosa de cada um dos edifícios que o compõe, sejam eles os de habitação colectiva (blocos e torres) ou de equipamentos (igreja, hotel, clube residencial e escritórios), todos organizados em torno de um grande espaço verde. A amplitude deste programa confere ao conjunto um sentido de centro cívico à margem da Avenida da Boavista, aberto à cidade, onde galerias e parque formam o reino do peão”.