À descoberta da música húngara no Baixo Alentejo

Na sua 14.ª edição, o Festival Terras sem Sombra aponta um foco na direcção da música húngara. Entre 17 de Fevereiro e 1 de Julho, o festival percorre dez concelhos alentejanos e promove a estreia das Canções Populares Húngaras de Lopes-Graça.

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Cátia Moreso dr

Um dos pontos altos da programação da 14.ª edição do festival Terras sem Sombra acontecerá a 3 de Março, no espaço Musibéria, em Serpa: tratar-se-á da estreia absoluta das Canções Populares Húngaras, harmonizadas por Fernando Lopes-Graça (1906-1994). Não é gralha. Será mesmo a primeira apresentação pública de um trabalho que o maestro e compositor português, uma das mais proeminentes figuras da música nacional do século XX, levou a cabo em 1954.

O programa terá por complemento canções populares da tradição magiar, juntando em palco as vozes de Cátia Moreso, Hanga Kacsó e Áron Várai, assim como instrumentos tradicionais interpretados por Béla Szerényi e o piano de Nuno Vieira de Almeida. Foi o pianista que esta quarta-feira, na apresentação do Terras sem Sombra na Embaixada da Hungria, em Lisboa, justificou em resposta ao PÚBLICO que só “uma certa tradição de mouquidão em Portugal” faz com que estas harmonizações com a assinatura de Lopes-Graça permaneçam inéditas, enaltecendo o empenho do festival para a concretização da sua estreia.

De facto, se há marca a que o Terras sem Sombra se pode associar é à de um contributo para a valorização do património físico e imaterial português – em particular do Alentejo. Nascido em 2003, o festival foi fundado, como lembrou o director-geral José António Falcão, “com o intuito de trazer nova vida aos monumentos” do Baixo Alentejo, muito deles inacessíveis ao público. A programação musical, assente na música erudita mas permeável também a manifestações populares, funcionava como porta de entrada nestes lugares mas também como chamada de atenção para a necessidade de resgatar esses espaços para a vida pública e desencadear processos de reabilitação dos mesmos.

Reclamando-se um festival do território e apostado em fazer do Alentejo “um destino privilegiado de arte e natureza”, o Terras sem Sombra começou a desenvolver, desde 2011, uma programação que se estende a iniciativas várias em torno da biodiversidade.

Lupa na Hungria

Nos últimos anos, sob a direcção artística do espanhol Juan Ángel Vela del Campo, o Terras sem Sombra passou a acolher um país convidado, ao qual dedica, naturalmente, uma parcela mais volumosa da sua programação. Depois de Brasil e Espanha, 2018 será um ano para a divulgação da música húngara – daí, precisamente, a escolha do reportório específico de Lopes-Graça. O primeiro sinal de aproximação entre as duas partes deu-se em 2017, quando a Basílica Real de Castro Verde recebeu uma versão concerto da ópera de Béla Bartók O Castelo do Barba-Azul.

É precisamente com música sacra húngara, de Liszt aos nossos contemporâneos Csemiczky, Tóth, Bella, Horváth e Zombola, que arrancará o Terras sem Sombra, com o concerto de abertura pelo Coro de Câmara Vaszy Viktor marcado para a Igreja Matriz de São Cucufate, em Vila de Frades, a 17 de Fevereiro. Também o compositor húngaro György Kurtág, um dos nomes maiores da música escrita do século XX, estará representado tanto no concerto Aos Quatro Ventos, dedicado à música centro-europeia (14 de Abril, em Mértola), quanto no espectáculo de encerramento, numa ampla visitação da música húngara com a presença da soprano Andrea Brassói—Jörös (30 de Junho, Santiago do Cacém).

Os músicos e os reportórios magiares estarão também presentes nos concertos do Vena Piano Trio (17 Março, Odemira) e do Ludovice Ensemble (2 Junho, Barrancos), havendo ainda lugar a recitais dos pianistas Artur Pizarro (16 Junho, Sines) e da norte-americana Pauline Yang (28 Abril, Ferreira do Alentejo). Numa das escapadas à lupa colocada sobre a Hungria, Beja assistirá (5 Maio) à actuação do grupo corso Barbara Furtuna, cujo canto polifónico apresenta óbvias semelhanças com o cante alentejano. Uma forma de homenagem ao musicólogo corso Michel Giacometti, homem de impagável contributo para o registo e estudo das músicas tradicionais (a par de Lopes-Graça), que, não por acaso, escolheu ser sepultado em Peroguarda, Ferreira do Alentejo.