Papa pede perdão por abusos sexuais mas não evita acusações de cumplicidade

Vista ao Chile decorre com contestação por causa de casos de pedofilia na Igreja Católica mal resolvidos pela hierarquia religiosa.

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Detenção durante um protesto em Santiago do Chile contra a visita do Papa Pablo Sanhuez/REUtERS
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Papa Francisco com a Presidente chilena, Michelle Bachelet LUCA ZENNARO/EPA
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Papa celebrou missa campal no Parque O'Higgins, em Santiago LUCA ZENNARO/EPA
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Protesto contra o bispo Barros OSVALDO VILLAROEL/EPA

Poucas horas depois de ter chegado ao Chile para uma viagem de uma semana que também o vai levar ao Peru, o Papa Francisco manifestou “dor e vergonha” pelos vários casos de abuso sexual de menores na Igreja Católica do país. O pedido de perdão foi recebido com aplausos no interior do palácio presidencial, em Santiago, mas não deve ser suficiente para acalmar o crescente descontentamento com a forma como o Vaticano tem lidado com este problema.

Antes da chegada de Francisco ao Chile, na noite de segunda-feira, o site de notícias Crux, fundado pelo jornal norte-americano Boston Globe, apresentava esta viagem como a mais difícil desde que Jorge Bergoglio foi eleito Papa, em Março de 2013 – a declaração de um “importante conselheiro do Papa”, para quem a visita ao Chile e ao Peru “não seria simples” é, de acordo com a correspondente do Crux no Vaticano, “candidata a eufemismo de 2018”.

Por isso, não foi de estranhar que entre as primeiras declarações do Papa no Chile se tenham destacado as referências aos casos de abuso sexual, no discurso no palácio presidencial, esta terça-feira, onde foi recebido pela ainda Presidente Michelle Bachelet e pelo sucessor, o Presidente eleito Sebastián Piñera.

“Não posso deixar de manifestar dor e vergonha pelos danos causados às crianças por membros da Igreja. É justo pedir perdão e ajudar as vítimas com todas as nossas forças, ao mesmo tempo que nos empenhamos para que isto não se repita”, disse o Papa, numa declaração recebida com fortes aplausos.

O descontentamento em relação ao Vaticano é visível tanto no Chile como no Peru, em ambos os casos devido a escândalos de abusos sexuais na Igreja Católica, mas é no Chile que a situação se tem tornado mais perigosa. Só na última semana, numa clara mensagem para o Papa antes da sua visita, pelo menos oito igrejas foram atacadas no Chile – uma dessas igrejas foi atacada com uma bomba artesanal e os responsáveis escreveram numa parede “Papa Francisco, a próxima bomba vai ser atirada à sua sotaina”. Numa outra igreja, em Santiago, os atacantes escreveram “queimem o Papa” e “o Papa é cúmplice”.

Apesar dos milhares que estiveram nas ruas de Santiago na segunda-feira, para receberem o Papa Francisco com alegria, há poucos países onde se note tanto o declínio da influência da Igreja Católica como no Chile. Em duas décadas, a percentagem de chilenos que se assumem como católicos desceu de 74% para apenas 45%, segundo a empresa Latinobarometro.

Um dos principais factores para o descontentamento é a multiplicação da denúncia de casos de abusos sexuais no país (à imagem do que tem acontecido no Peru), mas a resposta do Vaticano tem agravado ainda mais a situação.

As recentes manifestações contra a Igreja Católica no geral, e contra o Papa em particular, são motivadas pela forma como Francisco lidou com o caso do padre Fernando Karadima, banido em 2011 pelo Vaticano na sequência de uma investigação que o declarou culpado de décadas de abusos sexuais e outros actos de violência contra adolescentes.

O Papa tem sido criticado no Chile por manter como bispos três homens muito próximos de Karadima, que em 2011 enviaram uma carta ao Vaticano a defender o padre das acusações de abusos sexuais.

Em 2015, um deles, Juan de la Cruz Barros, foi nomeado pelo Papa bispo da diocese de Osorno, uma nomeação muito contestada no país – Barros garante que não sabia de nada, mas muitas das vítimas de abusos sexuais acusam-no de ter sido cúmplice do padre Fernando Karadima, com quem trabalhou de perto durante 30 anos.

Nesse mesmo ano, em 2015, Francisco foi filmado no Vaticano a dizer a turistas que as acusações de encobrimento de abusos sexuais no Chile são “estúpidas” e fruto de manipulação de políticos, ao mesmo tempo que voltou a defender a nomeação de Juan Barros.