Opinião

No lugar do morto?

O sucesso como líder terá de passar sobretudo pelo projecto político de governação que construir.

O presidente do PSD agora eleito não ganhou ainda nada, excepto o dever de provar que pode ser líder. Esta eleição é o momento mais fácil, a tarefa menor que tem de cumprir. Por agora, só está assegurada a pole position para as batalhas eleitorais. Aquele que os militantes do PSD escolherem terá de ganhar a confiança dos seus correligionários e unir o partido, terá de construir um projecto político para o país e ganhar com ele a confiança dos eleitores. Repetimos, até agora foi feito o mais fácil. A tarefa de se assumir como líder é a prova de fogo que ditará a sobrevivência de quem vai ocupar a presidência do PSD.

A missão que o vencedor das eleições directas tem pela frente é dificultada por circunstâncias diversas. Terá de afirmar-se frente a um governo do PS, que, apesar do desgaste sofrido pela governação, se mantém popular e que tudo indica ter condições para ganhar as legislativas, mesmo sem maioria absoluta. Mas terá também de recuperar um partido traumatizado pelo facto de, depois de ter ganho eleições, ter sido apeado do Governo pela inédita aliança parlamentar do PS com o BE, o PCP e o PEV.

A afirmação como líder terá forçosamente de ser feita sem se deixar colar mas também sem renegar a herança de Passos Coelho. O PSD não aceitará uma rejeição radical e refundadora da própria história. E, para o bem e para o mal, Passos marcará o PSD para sempre, como só aconteceu com Sá Carneiro e com Cavaco Silva, dois líderes que foram igualmente primeiros-ministros marcantes.

Por muito que a proposta política a ser defendida pelo PSD possa distanciar-se politicamente da governação de Passos — e do que este pôde concretizar do seu projecto de 2010 —, o que forçosamente terá de acontecer, pois as circunstâncias são hoje diferentes, ela não poderá deixar de honrar a herança. Isto é tanto mais verdade quanto foi o Governo liderado por Passos que teve a missão de conduzir o país sob um programa de acção ditado pela intervenção externa. Uma governação que deixou marcas traumáticas ainda vivas na memória colectiva. Mas ninguém pode esquecer — a começar pela futura direcção do PSD — que recuperou as finanças públicas e a credibilidade do país perante os parceiros europeus e os players políticos e económicos internacionais.

O sucesso como líder terá de passar sobretudo pelo projecto político de governação que construir e não apenas por dotes de comunicação. Daí que seja importante dizer, ainda antes de o resultado das directas ser conhecido, que as inegáveis qualidades comunicacionais de Santana Lopes não chegam para ganhar o estatuto de líder. O que irá fazer o PSD conquistar a confiança do país será o programa eleitoral. E neste domínio nada do que se sabe até hoje, do que foi dito em entrevistas ou escrito nas moções é significativo.

As moções de estratégia apresentadas pelos dois candidatos são apenas isso, textos de estratégia política para um congresso. Rui Rio apresenta um documento tradicional, com uma sólida filiação na democracia liberal e com uma visão global e actual do mundo tal como existe hoje, do mundo em que Portugal e os portugueses vivem, de um mundo que assiste a uma revolução antropológica. A moção de Santana é menos conceptual e sólida do ponto de vista da teoria política, optando por apresentar 221 propostas que no fundo não passam de manifestações genéricas e vagas de intenções, apostas, prioridades.

O projecto político-programático do PSD terá de ser construído a partir do momento em que a nova direcção for eleita em congresso e terá de envolver todo o partido. E, deseja-se, a sociedade, não apenas ao nível dos parceiros sociais mas também das universidades — de modo a que a nova liderança do PSD possa ganhar credibilidade e o presidente não seja apenas um chefe de turno que ocupa transitoriamente o lugar para perder eleições e depois dar a vez ao seguinte. E é essa a tarefa verdadeiramente difícil que espera o novo presidente do PSD: mostrar que não está apenas a ocupar o lugar do morto.