Crítica

Quem resiste a um glorioso arroz de corvina?

Nasceu com vocação petisqueira, mas agora manda a cozinha tradicional, com o arroz caldoso em evidência. Também o pernil assado recomenda a viagem até Fão.

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Nelson Garrido
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Nomeada quase sempre a propósito da praia de Ofir ou das deliciosas Clarinhas, a vila de Fão tem também um núcleo histórico antigo (séculos XVI e XVII) na margem esquerda do Cávado, uma dupla faceta — de rio e de mar — que lhe confere particular encanto e atractividade. Antigo e moderno como que separados com a travessia da EN13 e a sua centenária ponte metálica, com a frente marítima mais dedicada às actividades de lazer e veraneio e a velha vida quotidiana ancorada à beira-rio, em contexto calmo e bucólico.

Aí está o restaurante Tio Pepe, também ele agora com uma dupla faceta de restaurante e churrasqueira, com as costelinhas de porco grelhadas como que atravessadas numa casa que antes se destaca pela boa cozinha tradicional. 

E tão atravessadas estão que, além de dominarem o serviço (incluindo take away), foi montada também no meio da sala uma espécie de ilha que alberga o grelhador. Com o cuidado de que cheiros e fumo não contaminem o ambiente, mas claramente intrusiva e inestética.

Também na carta de pratos e petiscos tradicionais se atravessam as costelinhas (9€) com arroz de feijão vermelho, que parecem funcionar como o principal atractivo para a clientela. E como quem manda é o negócio, pois que façam bom proveito! 

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Por nós, o que convence é um impecável arroz de corvina ou o pernil no forno, que bem atestam as capacidades da cozinha duma casa que nasceu há mais de 45 anos, então essencialmente vocacionada para os petiscos e refeições ligeiras. 

Os mentores, dois galegos, pretenderam montar o negócio ao estilo de degustação da banda de lá do Minho, associando-se então com dois locais mais ligados às artes da pesca. Conhecedores dos meandros, os espanhóis eram à época os responsáveis pelo serviço de sala e de vinho no distinto Hotel do Pinhal, cuja ecléctica clientela acabou também por dar fama aos petiscos do Tio Pepe. 

Eram os anos que antecederam a Revolução dos Cravos e as convulsões consequentes afastaram os ambientes distintos e as clientelas eclécticas. Também os espanhóis desapareceram com o declínio do hotel e o negócio oscilou até que, já em meados da década 1980, novos proprietários assumiram a cozinha tradicional como rumo da casa, no qual só em tempos mais recentes se atravessariam as costelinhas, agora anunciadas entre as especialidades da casa. 

Como memória dos tempos iniciais ainda se exibem pelas prateleiras alguns vinhos gloriosos de então, como umas garrafas magnun de Granton, a atestar o critério então reinante. Não sendo tão ecléctica, a carta é hoje abrangente e procura abarcar todas as regiões. 

Em sala com abundante luminosidade e capacidade para uma meia centena de comensais — há uma segunda, interior e sem luz natural —, as mesas apresentam-se com toalhas de algodão, guardanapos e baixela a condizer. 

A par do pão, em fatias, chegam à mesa azeitonas (1,10€) e uma chouriça assada (3€) em rodelas, de bom calibre e sabor, tendo-se convocado também uma alheira grelhada (4,50€), pratinho de favas (2,20€) e pratinho de presunto (4€). Crocante, estaladiça e pelada, a alheira não comprometeu, saborosas as favas com chouriço, enquanto o presunto, sem gordura, fatiado e refrigerado, desiludiu. 

Para complementar as entradas, solicitaram-se também as pataniscas (1,50€ a unidade), fofas e crocantes, com evidência para o bacalhau esfiado e cebola, que bem se recomendam.

Glorioso o arroz de corvina (29,50€), que é servido no tacho de ferro com arroz caldoso e o peixe em postas. Sabor a mar, peixe e arroz (carolino, claro!) a envolver os sabores, tudo num ponto primoroso de cozedura que nem a intromissão de uns camarões (ressequidos e sem sabor, da congelação) conseguia desvirtuar. Só por si já justifica a visita! 

Nos peixes, a oferta passa ainda pelo bacalhau na brasa (27€) ou à Tio Pepe (24€), e os peixes do mar na brasa (39/kg) consoante a lota do dia, e robalo, garoupa ou rodovalho na brasa (30€/kg).

Nas carnes, além das costelinhas, as propostas incluem arroz de pato (8,50€), bife da costela (11€) e o pernil no forno (17€) que é outra das especialidades da casa. Acompanhou com batatinha assada, grelos salteados e um arroz branco de estalo. Carolino e cheio de sabor, a mostrar que nesta cozinha há mesmo mão para o arroz. Quanto ao pernil, a pele estaladiça e o molho já caramelizado tornavam as carnes ainda mais apetitosas. Pecado a consistência algo irregular, como preço da necessidade de ser pré-cozinhado para poder corresponder ao ritmo do serviço. 

Nas sobremesas, convenceu claramente a tarte de maçã (7€) ao estilo “tatin”, bem como as afamadas Clarinhas (2€ cada), uma espécie de rissol de massa fina e recheio de gila que faz as delícias dos visitantes da velha Fão. 

Mesmo com as costelinhas atravessadas, o Tio Pepe honra os pergaminhos do seu quase meio século de existência e vivamente se recomendam os cozinhados que têm no arroz a principal envolvência.

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