Entrevista

Gaika: a Londres distópica de hoje em Lisboa

O músico e artista visual inglês, na companhia de três cúmplices, traz esta sexta-feira a Lisboa um sonoridade futurista que serve, afinal, para representar a Londres distópica do presente.

 “Ao longo da noite haverá espaço para criar diferentes atmosferas e espero que aquilo que temos para propor não seja visto a partir apenas de um prisma porque vislumbro também esperança nestes dias e acredito no poder colectivo para gerar mudança.” Gaika
Foto
“Ao longo da noite haverá espaço para criar diferentes atmosferas e espero que aquilo que temos para propor não seja visto a partir apenas de um prisma porque vislumbro também esperança nestes dias e acredito no poder colectivo para gerar mudança.” Gaika

Crise económica, escalada securitária, segregação racial, impasses políticos e divisionismos na Europa. Para Gaika Tavares, mais conhecido apenas por Gaika, músico e artista visual britânico de 30 anos, isto está tudo ligado. “É inevitável que essa realidade esteja reflectida na música e arte que faço, nem concebo que seja de outra forma”, diz-nos ele a partir de Londres.

Esta sexta-feira vai estar na galeria ZDB, em Lisboa, para apresentar, com uma série de cúmplices, o projecto The Spectacular Empire, que pretende reflectir, musicalmente e visualmente, alguns desses cenários sombrios. Mas nem tudo será obscuridade. “Ao longo da noite haverá espaço para criar diferentes atmosferas e espero que aquilo que temos para propor não seja visto a partir apenas de um prisma porque vislumbro também esperança nestes dias e acredito no poder colectivo para gerar mudança.”

Ao longo dos dois últimos anos, com duas mixtapes (Machine e Security), dois EPs (Spaguetto e o duplo The Spectacular Empire na editora Warp) e duas passagens por Portugal (pelo festival Milhões de Festa e pelo MusicBox em Lisboa) o músico e produtor londrino foi capaz de instaurar uma sonoridade híbrida e algo abstracta, apesar da presença fantasmagórica e alterada digitalmente da sua voz, que se inspira em elementos e fragmentos de diversas tipologias – hip-hop, R&B, grime ou dancehall – para criar um corpo mutante e industrial. Ao seu lado, em Lisboa, estarão o rapper Flohio, a dupla de agitadores 808INK e a cantora Gloria, conhecida por investir pelos territórios mais futuristas do R&B.

Desde Outubro do ano passado que Gaika e os seus cúmplices andam em digressão pelos Estados Unidos e Europa a apresentar uma sessão onde, diz ele, “as emoções são expostas de forma aberta e sem qualquer tipo de simulacros. No palco não desejamos ser a máscara que por vezes temos de ser na vida quotidiana. Queremos, isso sim, expressar algum tipo de verdade na forma de zanga, melancolia ou celebração comunitária.”

A música, os conceitos e o imaginário visual que convoca levam-nos para algo transcendente e longínquo. Por vezes as suas canções evocam a lembrança nebulosa de algo que já foi mas que, afinal, é bem presente. A imprensa para o enquadrar diz que aquilo que ele faz é futurista e que os cenários que ele apresenta simbolizam o amanhã. Ele acha que isso pode criar equívocos. “Pode dar uma visão errónea”, afirma de forma peremptória e explica. “Aquilo que faço não provém de um espaço abstracto. É a Londres onde habito hoje que está na música. Não me interessam as metáforas de ficção-cientifica e esse tipo de coisas. A cidade movida pelos interesses do capital, de discrepâncias sociais, rodeada de câmaras de vigilância, onde a percepção do medo é real, existe hoje, neste momento, e eu sei, porque a sinto.”

PÚBLICO -
Foto

Ele é outra coisa

Não é fácil situá-lo. Para ele, a música, as imagens, os vídeos e a performance fazem parte da mesma totalidade. “Todos esses dispositivos estão ao serviço de uma ideia, é assim que funciono”, reflecte. Os ritmos em câmara-lenta, os cenários urbanos desolados que expressa e os ambientes à flor da pele, mas ao mesmo tempo paranóicos, que acaba por explorar, poderiam situá-lo perto de outros estetas contemporâneos como Yves Tumor, Dean Blunt ou Arca, mas ainda assim ele é outra coisa.

Curiosamente sempre que lhe perguntam sobre influências o primeiro nome que lhe sai é até bastante vulgar: Prince. “Foi talvez o primeiro músico que ouvi com atenção que era capaz de ser, em simultâneo, vulnerável e híper-masculino, sem ser machista. Sempre jogou um pouco ao lado das expectativas, fazendo o que queria e sendo o que queria, o que não é nada fácil, para mais frequentando o mercado de massas.”

A ambiguidade que emanava de Prince também se pressente em Gaika. Muitas pessoas, é o próprio quem o diz, imaginam que ele é gay, sendo aliás muitas vezes associado à cena “queer hip-hop”, talvez por já ter gravado com Mykki Blanco, mas ele faz questão de afirmar que não deseja ver a sua individualidade confiscada. “Sou o que sou e chega-me”, diz.  

Em muitos dos seus temas a dimensão íntima, ou se quisermos o seu mundo interno, confunde-se com o momento actual do mundo. “É inevitável”, ri-se ele, “embora muitas vezes me consiga distanciar e tenha inevitavelmente os meus momentos de tranquilidade. Mas, sim, diria que a minha vida pessoal, algo caótica neste momento, se confunde com as tensões que estamos a viver. É impossível escapar a este contexto.”

Ao contrário de muitos outros britânicos, o ‘Brexit’ a ele não o surpreendeu grandemente. “É a expressão dos impasses e da zanga que estamos a viver. Era um dos resultados possíveis. O mesmo com Trump. Não sei como é que tantas pessoas ficaram surpresas. Trump representa uma certa América. Estava na cara que poderia ganhar”, reflecte ele, concluindo. “Andamos em negação. Temos dificuldade em confrontar-nos com a realidade. Mas ela está aí. E nem sempre é a mais agradável.”

P24 O seu Público em -- -- minutos

-/-

Apoiado por BMW
Mais recomendações