Entrevista

“Defendo o meu direito à indiferença pela política”

No final do mês a sua voz far-se-á ouvir em palcos portugueses. Só não esperem ouvi-la politizar.

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Em Dezembro fez 50 anos. No final de Janeiro vai estar em palcos portugueses (Coliseu de Lisboa a 25 de Janeiro, 26 no CAE da Figueira da Foz e a 27 no Coliseu do Porto). Mathieu Zazzo

Provocou sempre divisões. Na década de 1990, no universo da moda, era invejada por ser a culta do circuito das supermodelos. Pelo contrário, na década de 2000, quando lançou o primeiro álbum (Quelqu’Un M’a Dit, de 2002), disse-se de forma paternalista, no universo da música, que para uma manequim não estava nada mal. O seu enorme sucesso na altura foi lido à luz da sua beleza. Era espiritualidade sem grande densidade, dizia-se.

Ao segundo disco (No Promises, de 2007) o sucesso diminuiu, mas alcançou a credibilidade como cantora-compositora que ambicionara. Depois tornou-se Primeira-Dama, ao lado de Sarkozy, e recomeçaram as leituras, desta vez ampliadas, porque o mediatismo era maior. Dizia-se que era a esquerda chique de braço dado com a direita. Não espanta que o terceiro álbum, Comme Si De Rien N’ Etait (2008), tenha sido recebido com muitas suspeitas. Mais uma vez, prestava provas.

Agora já não está no Eliseu e as suas canções são lidas à luz do facto de ser ex-Primeira-Dama. Sempre foi assim. Múltipla. Gostando de ser o centro das atenções. Lidando com isso. Adaptando-se. Dizendo que nem sempre é fácil. Mas gostando também. O curioso é que, apesar dos diferentes papéis e contextos em que foi lançando discos, o seu som nunca mudou.

No álbum Little French Songs (2012) propunha canções nostálgicas com qualquer coisa de afectuoso e voluptuoso, o mesmo acontecendo em French Touch (2017), disco de versões de canções que tocava ao violão na adolescência, que anda a apresentar em digressão, onde a sua voz felina e ligeiramente rouca, prevalece por entre rendilhados melódicos, orquestrações com qualquer coisa de jazzistico e uma instrumentação subtil.

Em Dezembro fez 50 anos. Um dia, quem sabe, talvez seja possível isolar a sua música de outras leituras, mas para já tal não parece ainda possível. Afirma ter saudades da confusão juvenil, mas agora que parece certa que o seu caminho será alicerçado na música e no seu encontro com Sarkozy (em Fevereiro completam dez anos de casados), diz-se confiante. No final do mês de Janeiro vai estar em palcos portugueses (Coliseu de Lisboa a 25 de Janeiro, 26 no CAE da Figueira da Foz e a 27 no Coliseu do Porto) e um dia destes falámos com ela ao telefone.

Há cerca de dez anos, em entrevista aquando do lançamento do seu segundo álbum, No Promises (2007), dizia-nos que dificilmente repetiria a experiência de cantar em inglês. Afinal, no seu último disco, French Touch (2017), voltou a fazê-lo.
Eu disse isso?! Às vezes não sabemos o que dizemos. Nesse disco o inglês surgiu de forma muito natural porque se tratava de musicar poetas e poetisas anglo-saxónicas do final do século XIX e princípio do XX. O meu receio, nesse caso, era eventualmente desfigurar os poemas porque os reconverti em canções. O novo álbum foi muito diferente. Não senti qualquer constrangimento. Gosto muito de cantar em inglês, o problema é escrever e aí tem de ser em francês. O projecto acabou por nascer a partir de uma proposta de David Foster [histórico produtor e presidente da editora Verve]. Ele foi assistir a um concerto meu, gostou muito do que ouviu e decidimos trabalhar juntos porque existia uma admiração mútua. Tão simples como isso. Foi uma excelente oportunidade de trabalharmos juntos. Havia um problema: ele não entendia na perfeição as canções em francês e propôs-me compor em inglês, coisa que nunca fiz e não me sentia preparada para fazer e foi aí que decidimos fazer um álbum só de versões.

Apesar de serem versões, do ponto de vista da identidade musical, com um acompanhamento sonoro muito subtil, não existem grandes diferenças em relação a álbuns anteriores. Nunca imaginou poder fazer algo completamente diferente?
A ideia era aprofundar e poder estar com alguém que já trabalhou com grandes vozes. David Foster deu-me uma enorme confiança e creio que nunca me senti tão estável vocalmente como agora. O maior desafio neste disco, acabou por ser esse: a voz. Ele gostou muito da vertente algo confessional que a minha interpretação empresta às canções, mas a voz ficou com uma tonalidade mais doce e luminosa e senti-me muito bem com isso.

O conjunto de canções abordadas é ecléctico Depeche Mode, The Clash, Abba, Rolling Stones, AC/DC, Willie Nelson, Rita Hayworth ou Lou Reed. Qual o foi o critério na escolha?
Em primeiro lugar são boas canções. Em segundo são canções que já canto acompanhada à guitarra há muitos anos e com as quais estou muito familiarizada. Esse foi o principal critério. Um dia o David Foster veio a Paris, encontrámo-nos, escolhemos uma série de canções que pudessem ser transformadas, tendo em atenção o trabalho de voz que ele queria desenvolver e mais tarde enviei-lhe o esqueleto sonoro delas com a minha voz. No final, gravámos 17 e ficámos com as 11 que se encontram no álbum, que são talvez aquelas que me acompanham desde a adolescência, quando pensamos que a vida nunca vai terminar. Mais tarde a vida ensina-nos que ninguém escapa. Mas estas canções acompanham-me desde o tempo em que não sabia isso.

Fala sempre com admiração de Leonard Cohen, de quem inclusive já concretizou uma versão, e Patti Smith, mas não escolheu nenhuma das suas canções. Pensou neles?
Talvez os admire demais… [risos]. Estou a brincar. Não creio que seja isso. Não aconteceu, apenas. Mas, sim, é verdade que a minha admiração por Leonard Cohen é infinita, a música, a poesia, a sua forma de estar, estive com ele uma vez há uns anos, quando actuou no Olympia, um ser humano especial, e por Patti Smith, o mesmo enorme respeito. São artistas completos, muito mais do que músicos ou apenas escritores. Mas as opções foram outras.

A existir algo que una as canções talvez o facto de quase todas conterem, de uma forma ou de outra, alusões ao amor, no sentido universal, não forçosamente relacional, não lhe parece?
Sim, absolutamente. Na verdade esse é também o tema da maior parte das minhas composições. E esse é sem dúvida o elo que une as canções do disco. No entanto só tive essa consciência quase no final do processo de escolha das mesmas. Não é algo que tenha sido premeditado. A letra de Perfect day de Lou Reed fala da amizade e do amor como elos fundamentais, o mesmo acabando por acontecer com Highway to hell dos AC/DC, que acabei por incluir também para satisfazer o meu filho, que a ouvia muito em casa. Enjoy the silence acaba por estar lá porque me parece que hoje vivemos rodeados de ruído, no sentido mais amplo da palavra. Não é o poder, a fama a todo o custo ou o desejo de estarmos a toda a hora conectados e submersos em informação que nos faz felizes. Há muitas outras dimensões.

Claro que há outras dimensões, mas o reconhecimento público, ou pelo menos dos nossos pares, é relevante, da mesma forma que uma vida material minimamente satisfatória também.
Sim, de acordo, precisamos de reconhecimento, mas o problema é a celebridade pela celebridade, sem nada que a sustente, sem trabalho, actividade ou talento por trás. Todas essas coisas, como uma certa notoriedade, acabei por ir convivendo com elas desde cedo e não são o mais importante. Sei que sou privilegiada em muitos aspectos, mas o verdadeiro luxo não é material. Não estou a dizer que não é importante, mas sim que o mais importante são os sentimentos, os afectos e compromissos.

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Anda a apresentar em digressão French Touch, disco de versões de canções que tocava ao violão na adolescência, onde a sua voz felina e rouca, prevalece por entre rendilhados melódicos, orquestrações jazzisticas Mathieu Zazzo

Ao longo dos anos teve sempre que lidar com uma certa duplicidade na forma como é olhada. Quando entrou na música, a notoriedade trazida da moda tanto a ajudou como gerou também resistências. O mesmo sucedeu a partir do momento em que foi Primeira-Dama. Como gere esse mediatismo e as críticas?  
É fácil: não as levo a peito… [risos]. Na maior parte das vezes não são críticas dirigidas propriamente a mim, mas sim a algo que, aos olhos de algumas pessoas, elas sentem que represento. Quando o meu marido estava no poder era certamente isso que acontecia, as críticas para mim, tinham-no a ele como alvo. O que fazer? Nada de especial. Focarmo-nos em coisas importantes.

Recentemente voltou a reunir-se, para um desfile, com Claudia Schiffer, Naomi Campbell, Cindy Crafword e Helena Christensen, que marcaram os anos 90 da moda. Consegue encontrar paralelismos entre o universo da moda e da música?
A principal diferença é que, na moda, era muito mais intérprete de uma intenção maior do que eu, enquanto na música tenho maior controle sobre todos os elementos. A música é também um trabalho de equipa, mas a moda é-o ainda mais, de alguma forma. Não sei. A moda mudou muito nos últimos vinte anos. As modelos são cada vez mais novas. É talvez a maior diferença em relação ao meu tempo. Foi engraçado termo-nos encontrado, mas também um pouco nostálgico, porque se tem consciência da passagem do tempo. Mas voltámos a ser um pouco adolescentes, se é que alguma vez deixámos mesmo de o ser, rindo, nervosas, nos bastidores, antes das cortinas subirem. Estou muitas vezes com a Naomi, é uma boa amiga, mas vejo menos a Helena, a Cindy e a Claudia. É engraçado porque agora com o Instangram é como se nos sentíssemos próximas outras vez. Vejo as fotos das irmãs e esse tipo de coisas e acaba por ser divertido.

Parece-lhe que na época das redes sociais, a sensação de mistério que envolvia a vida quotidiana das celebridades, se diluiu? Pelo menos existe uma sensação de maior proximidade.
Por um lado diluiu, por outro pode intensificar, depende das pessoas. Levo uma vida simples, não penso nisso, na verdade.

Como descreveria o seu quotidiano quando está em Paris?
Acordo, como o pequeno-almoço e levo os meus filhos à escola, faço algum exercício depois e ao final da tarde, se decidir trabalhar à noite, tento dormir um pouco. Tento jantar com o meu marido e filhos, às vezes também com alguns dos meus amigos. É à noite que gosto de trabalhar. Preciso dessa espécie de silêncio.

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Tem afirmado que a política não lhe interessa nada, mas deve compreender que é difícil de aceitar que alguém diga isso perante os conflitos do mundo actual, principalmente quando se conhece muito bem os corredores do poder como é o seu caso.
Não é verdade que conheça os meandros do poder. Não me interessam nada. Defendo por inteiro o meu direito à indiferença pela política. Já o disse inúmeras vezes: antes de casar nunca tinha votado. A primeira vez que o fiz foi quando o meu marido foi candidato, em 2009. E agora, não quero saber, outra vez. Tenho tendência a viver na minha bolha, é verdade. A política não é a minha coisa. A única altura em que a política me interessou, do ponto de vista do respeito pelas instituições e pelas formalidades, foi quando o meu marido esteve no Eliseu. E mesmo aí, por vezes, em segundo lugar. Em primeiro, estava o amor e a possibilidade de aceitarmos as nossas diferenças. Ele não me quer mudar e nem eu a ele. Quando estamos juntos falamos sobre os muitos assuntos que nos interessam aos dois, e que são imensos. Ele não precisa de falar comigo sobre política, nem eu de lhe falar de coisas que eu sei que ele não tem grande interesse. É apenas isso.

Os cinco anos no Eliseu atrasaram-lhe a carreira musical?
De forma nenhuma. Continuei a fazer aquilo de que mais gosto, compor, cantar e tocar, apenas não fiz nenhuma digressão. De resto foram anos excelentes, com muitas histórias interessantes, mas que já foram. Não tenho qualquer saudade.

Voltando ainda à política. É possível pensar assuntos que têm estado na ordem do dia, como as práticas de assédio sexual sobre mulheres, sem questionar ao mesmo tempo as estruturas ou as fundações sociais e políticas que regem as nossas sociedades?
Talvez não, porque por detrás dessas situações estão questões de poder. Mas ao mesmo tempo é ainda mais profundo do que isso. A maldade é um elemento humano que não deve ser menosprezado. Agora, o importante a reportar é o facto de todas essas mulheres terem tido a coragem de vir para o espaço público, contribuindo para que muitas outras mulheres anónimas possam lidar com essas situações de uma forma ou de outra. E os homens também. Não creio que possamos restringir este assunto apenas às mulheres. Quantos homens, em situações de poder, não são humilhados apenas, por exemplo, pela cor negra da sua pele? Ou em situações laborais precárias? É necessário que exista coragem e revolta com essas situações. O problema com o assédio sexual é que por vezes as vitimas se sentem culpadas também. Ficam numa espécie de limbo. Nunca passei por nenhuma situação do género, mas imagino que seja terrível. Esperemos que os últimos meses tenham servido para que alguma coisa mude realmente.

Anda em digressão e vai passar por Portugal para três datas. Há dez anos dizia-nos que o palco não era o território onde se sentia mais confortável. Agora que se sente na posse das suas faculdades vocais esse receio cénico já passou?  
Sim. Hoje estar em palco é um prazer. Aliás gosto cada vez mais da maior parte das coisas que envolvem o fazer música. A composição é um momento criativo fantástico e agravação é um trabalho colectivo muito real. E depois expor a música em palco é também óptimo porque as canções voltam a ganhar vida. Mas tenho consciência que a música é o meu trabalho e o trabalho nem sempre é apenas prazer. Também há coisas menos boas, mas é a vida. Mas hoje, sim, sinto-me muito mais serena. E também muito mais legitimada como compositora e cantora. Quando se é nova as possibilidades parecem infinitas e adoro essa confusão da juventude. Tenho saudades dela. Mas agora, pelo menos, sei que a música está lá e vai estar para sempre. É esse o meu caminho.