Entrevista

“Seria útil avançar com uma sala de consumo assistido no Porto”

Com as primeiras três salas de consumo prestes a tornarem-se uma realidade em Lisboa, Goulão diz que o Porto beneficiaria também de uma estrutura similar. E lembra que o facto de terem voltado a ser necessárias é consequência da crise, sim, mas sobretudo do desinvestimento na área.

Foto
Rui Gaudêncio

As salas de chuto avançarão efectivamente ainda durante este ano em Lisboa, como prometido?
Creio que sim. As salas de consumo assistido são respostas em cuja bondade acredito. Como sabe estão consagradas na legislação desde 2001. Na altura, eram imprescindíveis face à situação que se vivia em Portugal. Contudo, não houve condições políticas para que se pudesse avançar. E passaram-se anos até que houvesse abertura por parte de uma autarquia - no caso Lisboa - para se avançar. Nessa altura, foi o próprio IDT a ter de fazer o papelão de ‘Agora não faz sentido’ porque o consumo por via injectável tinha baixado dos 14% para os 2%.

Entretanto, houve intercorrências, nomeadamente a crise económica e social que levou a inúmeras recaídas entre antigos consumidores. E hoje voltou a haver uma população significativa a injectar, com total ausência de condições de higiene, privacidade e de dignidade. E sentimos maior dificuldade em absorver essa população novamente nas respostas de acompanhamento. Terá a ver com o modelo? O facto é que estas pessoas se acumulam à porta e a consumir sem que ninguém lhes chegue. Do meu ponto de vista, volta a fazer sentido avançar.

Neste momento, tenho em cima da mesa três propostas para a cidade de Lisboa, de três entidades que se propõem de forma complementar cobrir as necessidades desta população mais desorganizada em diferentes zonas da cidade, e vou dentro de dias ter um encontro com o vereador responsável na Câmara de Lisboa, sendo que há suporte político por parte do Ministério da Saúde.

E relativamente ao Porto?
Não tenho um conhecimento tão directo da realidade da cidade do Porto. E, mais uma vez, o facto de não termos uma ligação orgânica tão intensa como antigamente às estruturas no terreno faz diminuir os píxeis da fotografia que nos chega. Mas, ao que nos parece, seria útil avançar com uma sala de consumo assistido também no Porto.

O que mais deveria estar a avançar nesta área e não está?
Nós temos muito a ganhar com uma maior articulação – e essa é pacífica – com outras estruturas e entidades da área da Saúde. Era fundamental, por exemplo, ter um maior envolvimento dos médicos de família nos centros de saúde. 

Essa maior articulação não era o objectivo da integração nas ARS?
Na prática, não houve uma verdadeira integração. Houve uma passagem de responsabilidades, mas as estruturas regionais e locais dedicadas às dependências ficaram enquistadas no seio das ARS sem haver uma verdadeira articulação. Portanto, o potencial ganho acabou por não acontecer. 

O aprofundamento desta integração não garantiria esses ganhos?
Penso que não, porque as necessidades identificadas nesta área são de facto uma gota de água no universo das preocupações das ARS.

Qual é o risco de daqui a meia dúzia de anos voltarmos a ter a droga à cabeça das preocupações dos portugueses?
Esta abertura às salas de consumo assistido é um indício disso. Aquilo que, em presença dos progressos alcançados, a partir de certa altura deixou de fazer sentido, neste momento volta a fazer. É um indicador de que o desinvestimento nesta área começa a ter impactos. Temos uma população que carece de cuidados mas não conseguimos, por um lado, atender em tempo útil e, por outro, ser suficientemente atractivos e ter a qualidade de atendimento que tivemos noutros tempos.

Os próprios tempos dedicados a cada utente desta área vão sendo reduzidos, para que as listas de espera não se tornem incomportáveis. É preciso despachar, dar resposta, mal ou bem. E os profissionais no terreno foram perdendo a capacidade de fazer o fato à medida do doente.

Esta degradação é já visível nos indicadores de saúde desta população? Uma maior taxa de infecções, por exemplo?
Não conseguimos ter uma monitorização em tempo real desse tipo de fenómenos. Se calhar, daqui a dois ou três anos, quando tivermos os números das novas infecções do VIH, concluiremos que o grupo de utilizadores de droga, que já era o menor dos três grandes contingentes de infecção, voltou a ganhar peso. É um risco que se corre.

Naloxona e residências para velhos heroinómanos

Quando é que a naloxona vai começar a ser distribuída para prevenir as mortes por overdose?
A naloxona por via inalatória está em apreciação pelo Infarmed e, tão prontamente quanto possível, iniciaremos uma distribuição às equipas de rua. Numa segunda fase, pensar-se-á na possibilidade de treinar os próprios utilizadores de drogas e as suas famílias para que haja uma distribuição mais alargada. Mas a naloxona funciona como antagonista só de opiáceos e, nos números que temos de 2016, há apenas a identificação de uma morte directamente relacionada com opiáceos. É evidente que cada caso conta, mas é preciso evitar expectativas demasiado elevadas.

O que falta fazer mais?
Os antigos utilizadores de heroína estão envelhecidos, felizmente a maioria deles estão enquadrados em estruturas de tratamento ou pelo menos de redução de danos, mas o que é facto é que estão a envelhecer a as perspectivas que tínhamos, há 20 ou 30 anos, de uma reintegração total na sociedade são um bocado diferentes. A nossa responsabilidade é acrescida, já que contribuímos para que se mantivessem vivos até aqui, e isso remete-nos para a necessidade de criar novas tipologias de respostas, nomeadamente respostas residenciais de longa duração mais vocacionadas para actividades ocupacionais e para a provisão de cuidados de saúde gerais do que propriamente para um grande investimento numa recuperação ad integrum.

O primeiro passo, um tanto tímido, foi a criação nas comunidades terapêuticas de programas residenciais de mais longa duração do que aquilo que é tradicional. Habitualmente, os programas tinham a duração de um ano e agora é possível serem estendidos por dois anos ou mais.