Crítica

Mulheres belas e homens admiravelmente constituídos

Um clássico da literatura em nova tradução. O primeiro romance moderno em que a análise psicológica é o que o faz progredir.

Madame de Lafayette troca o empolamento bacoco do que se escrevia até então por uma verosimilhança ao nível da profundidade psicológica
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Madame de Lafayette troca o empolamento bacoco do que se escrevia até então por uma verosimilhança ao nível da profundidade psicológica DR

A Princesa de Clèves é um clássico da literatura, agora publicado em nova tradução. Surgido em 1678, anonimamente, conta-nos a vida na corte francesa dos Valois — onde parecem apenas deambular “belas mulheres” e homens “admiravelmente constituídos” — nos últimos anos do reinado de Henrique II. A sua autora, Madame de Lafayette (n. 1634), nascida numa família nobre, possuidora de uma sólida instrução, privou com inúmeras figuras da corte, e frequentou salões culturais, como era moda — tendo criado também o seu, em Paris, onde recebia figuras como La Fontaine ou La Rochefoucauld. Como romance histórico, mostra também o papel das mulheres na vida cultural do século XVII.

A importância literária de A Princesa de Clèves, apesar da sua construção rigorosa que o inscreve na estética clássica da época — e da sua escrita e estilos datados — vem-lhe em parte de uma preocupação de verosimilhança psicológica no estudo aprofundado das personagens, abrindo desta maneira o caminho a uma nova forma de romance moderno e tornando-o — para os estudiosos — no primeiro romance psicológico.

A intriga central de A Princesa de Clèves não podia ser mais comum para os romances franceses à época: uma jovem mulher, a menina de Chartres, de grande beleza, casa-se por conveniência (ou por desfastio da vida que tinha), com o príncipe de Clèves, que se apaixonou por ela assim que a viu na casa de um mercador italiano de jóias. Ambos frequentam uma corte em que ninguém andava tranquilo, nem indiferente, e em que se aspirava apenas a ascender socialmente, a agradar, onde a ambição era a palavra de ordem, a servir ou a prejudicar outros, decorrendo tudo numa espécie de sorridente e galante “agitação sem desordem”.

O senhor de Cléves percebe a falta de paixão daquela com quem vai casar: “Será possível — dizia-lhe ele — que eu não possa ser feliz casando-me consigo? Mas a verdade é que não sou. Não tem por mim mais do que uma espécie de bondade que não me pode satisfazer; não sente nem impaciência, nem inquietação, nem aflição; (…)” Mas casam-se. Tempos depois entra em cena, que é como quem diz entra num salão, o sedutor fidalgo duque de Nemours, “uma obra-prima da natureza”, e de quem se dizia também haver “qualquer coisa na sua pessoa que fazia com que não se pudesse olhar para mais nada quando ele estava presente”. E claro que assim aconteceu, inevitavelmente, com a princesa de Cléves, e de maneira irremediável, pois “um e outro eram o que de mais perfeito havia na corte, era difícil que não convergissem infinitamente”. Até aqui nada de novo na trama romanesca.

Aquilo que Madame de Lafayette vem inovar, e que à época provocou discussão por ser contra os costumes (literários e outros), foi o facto de a princesa, e após a morte da mãe, sua confessora, protectora e orientadora, e num momento de fragilidade emocional e de tensão existencial, ter feito uma espécie de transferência dessas funções para o marido (como figura paternal) e ter-lhe confessado o amor que nela crescia por outro homem. Depressa se lamenta da sua atitude, pois numa sociedade de aparências — onde a paixão e os amores eram tacitamente aceites desde que não fossem confessados — a sua sinceridade acaba por se voltar contra ela. Recusando esse amor que passou a ser proibido, a senhora de Clèves vai presenciando, em nome de uma “virtude” que só a sua ingenuidade quis preservar, à derrocada de um mundo. Ao descrever as “aventuras naturais” (como lhe chamou Voltaire) desta forma, Madame de Lafayette troca o empolamento bacoco do que se escrevia até então por uma verosimilhança ao nível da profundidade psicológica.

Se antes da publicação de A Princesa de Clèves, as personagens não agiam para se analisar — ou melhor, a acção como que parava enquanto as personagens se explicavam, ou então isso não servia para a fazer progredir — com Madame de Lafayette e este seu romance essa introspecção, essa análise de motivações da acção de agir, torna-se no próprio mecanismo de progressão da narrativa, e é para ela material precioso e necessário.