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Nelson Garrido
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Mariana tem 33 anos e vive em Londres desde 2008 Nelson Garrido

Mariana Pestana, a arquitecta que vai narrar o próximo capítulo do Victoria & Albert

A portuguesa é co-curadora de "The Future Starts Here", a primeira exposição do departamento de design, arquitectura e digital do conceituado museu londrino que inaugura a 12 de Maio

Em 1944, Jorge Luis Borges escreveu o conto A Biblioteca de Babel e imaginou o mundo como uma biblioteca gigante que continha um sem número de livros correspondente a um infinito de possibilidades. Em 1978, Georges Perec tirou partido da metáfora de um bloco de apartamentos parisiense para construiu a narrativa fragmentada de A Vida Modo de Usar. Foi na contaminação mútua entre literatura e arquitectura e inspirada por grandes nomes das letras que Mariana Pestana encontrou a sua voz. “Arquitectura não é apenas a construção de edifícios e de programas de habitação”, começa por explicar a arquitecta. “Interessa-me a narrativa, a forma como se pode contar uma história no espaço.” Percebe-se que sim ao ver o percurso desta jovem curadora, cuja primeira grande exposição no famoso Victoria & Albert está prestes a ver a luz do dia. 

 

Mariana Pestana começou por escrever a sua história em Viseu, cidade de onde saiu para estudar na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. A arquitecta de 33 anos admite que os trabalhos de notáveis como Álvaro Siza e Eduardo Souto de Moura “foram essenciais na estruturação de uma forma própria de pensar a arquitectura”, mas reconhece que “essa perspectiva academicista de aprender com os mestres” também motivou a sua busca por diferentes olhares. Chegou a Londres em 2008 para fazer um mestrado em Ambientes Narrativos na Central Saint Martins College of Art and Design, mudança que coincidiu com a crise económica que se seguiu ao colapso da Lehman Brothers. “Durante aquele período surgiu uma série de novos estúdios de arquitectura, porque havia uma grande falta de encomenda da nova geração que queria começar a trabalhar”, conta.

 

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O drone do Facebook é uma das tecnologias em exibição em The Future Starts Here Facebook Code

Foi o caso do colectivo The Decorators, constituído por Mariana, pela arquitecta paisagista Suzanne O’Connell, pelo designer de interiores Xavier Llarch Font e pela psicóloga Carolina Caicedo. Uma equipa transdisciplinar “em que se partilham competências em vez de atribuir a cada um o trabalho da disciplina que lhe compete” e cujos projectos apresentam um “carácter crítico que quer questionar e propor alternativas”. Em 2013, os The Decorators intervieram no Chrisp Street Market, em Londres, um mercado em estado de decadência onde foi organizado um conjunto de actividades culturais orientadas para a comunidade local. “A ideia era pensar a possibilidade do mercado vir a ser coberto e de ser uma espécie de centro comercial, acabando por mostrá-lo como um espaço cívico”, explica Mariana.

 

A participação do público é, aliás, uma das pedras basilares dos projectos do colectivo. “O que fazemos muitas vezes é perceber o que é que uma determinada comunidade gostaria que acontecesse no seu bairro e desenhar várias possibilidades para que possam experimentá-las”, diz a arquitecta, acrescentando que através desse método estas “poderão ficar mais bem equipadas para decidir sobre uma solução mais permanente”.

 

Poderá a tecnologia virar-se contra os humanos?

Além de ter representado Portugal na Bienal de Arquitectura de Veneza em 2014, Mariana Pestana soma já várias experiências na curadoria de eventos relacionados com a arquitectura e o design, como a Trienal de Arquitectura de Lisboa, em 2013. A visita de Kieran Long, coordenador do recém-criado departamento de design, arquitectura e digital do Victoria & Albert Museum, à exposição A Realidade Entre as Ficções — que abordava um conjunto de cenários sociais e políticos fictícios — motivou o convite do reputado museu londrino à arquitecta portuguesa. 

 

A exposição The Future Starts Here, que inaugura a 12 de Maio, é o resultado da colaboração entre Mariana Pestana e o Victoria & Albert Museum e parte da premissa do filósofo francês Paul Virilio, que estabelece que “a invenção do navio foi também a invenção do naufrágio”. Nas palavras de Mariana, “a invenção de qualquer tecnologia tem consequências que nem os próprios criadores podem imaginar”.

 

Nesse sentido, a mostra propõe-se questionar as consequências da tecnologia para a humanidade a partir de uma série de objectos tecnológicos contemporâneos. Uma das tecnologias em exibição é um veículo aéreo não tripulado, leve e revestido de painéis solares, que foi criado pelo Facebook com o objectivo de levar Internet aos locais mais remotos. “A questão que se debate aqui é a ideia de o Facebook estar a prestar um serviço que liga as pessoas à Internet ou de ser uma tecnologia controlada por apenas uma empresa”, esclarece Mariana. “No fundo, queremos criar uma consciência sobre as consequências negativas de tecnologias que nos são apresentadas como sendo fantásticas.”

 

A lista de candidaturas para a exposição já está fechada e as peças já foram seleccionadas. Actualmente, a arquitecta portuguesa encontra-se a produzir os textos que legendarão os objectos presentes na mostra, assim como o livro que acompanhará a exposição. Por terras lusas, será possível ver o trabalho de Mariana na exposição Eco-Visionários, da qual será co-curadora juntamente com Pedro Gadanho, director do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT). “Centrámo-nos na ideia do Antropoceno, na perspectiva em que admitimos que a presença humana teve um tal impacto na ecologia do planeta que originou uma nova era geológica”, diz Mariana, notando que “a exposição está dividida em quatro partes: o desastre tecnológico e o aquecimento global, o impacto da acção dos países ricos em todo o mundo, a possível extinção da espécie humana e a adaptação às novas circunstâncias”. A abertura da exposição está marcada para Abril, no MAAT, em Lisboa.

 

Além de continuar a enriquecer o seu currículo na área da curadoria e programação, Mariana Pestana está a tirar o doutoramento em Práticas Curatoriais na Bartlett School of Architecture, em Londres. Claro está, sem nunca descurar a expansão do conceito de arquitectura que vê não como algo inerte e estático, mas como um conjunto de actividades (construções temporárias, debates, publicação de revistas e livros) que define como “cultura arquitectónica”. “Todas estas actividades são formas de praticar a arquitectura e todas elas contribuem de forma complementar para o avançar da disciplina”, conclui.