Opinião

Cavaquinho excelentíssimo

O disco Praça do Comércio, de Júlio Pereira, vai receber o Prémio Pedro Osório da SPA. Uma distinção merecida. Como merecida é a recordação, aqui, de outros dois discos de 2017: Gaitas de Fole em Portugal, de Paulo Tato Marinho, e Ao Longe Já Se Ouvia, das Sopa de Pedra.

O título vem emprestado de José Cardoso Pires, da sua célebre sátira ao finado salazarismo, mas é aqui usado em sentido contrário, o de elogio. Mesmo a fechar 2017, fez a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) saber que iria entregar, no início de 2018, o Prémio Pedro Osório a Júlio Pereira pelo seu disco Praça do Comércio, por este ser “um excelente exemplo do valor do instrumento [o cavaquinho] e do muito que com ele pode ser feito, havendo agora dezenas de novos executantes e construtores em todo o país.” E a esta notícia juntava-se uma outra, de relevo: a disponibilidade da SPA “para apoiar junto da UNESCO a candidatura do cavaquinho a património da humanidade, processo complexo que exige muitas colaborações, iniciativas e acções concertadas.” Este, diga-se, é um dos objectivos a que a Associação Cultural Museu Cavaquinho (a que Júlio Pereira preside) meteu ombros desde a sua fundação, mas sem pressas. E com uma ligeira correcção: é a prática do cavaquinho (resultante da acção dos seus construtores e tocadores) que se candidatará na UNESCO e não o instrumento, ele ou os seus parentes directos, do braguinha daqui ao ukulele americano.

O que dizer, então, senão “parabéns”? Desde que Júlio Pereira gravou Cavaquinho, em 1981, que a prática e a notoriedade do pequeno cordofone não parou de crescer. Cavaquinho.PT, de 2013, e em 2017 Praça do Comércio, vieram não só reavivar esse renascimento como fortalecê-lo. Não apenas com música (e Júlio Pereira faz questão de usar sempre músicas novas, viradas ao futuro, para que se entenda que o cavaquinho é um instrumento de hoje, e não sinónimo de estagnação histórica) mas também com um manancial informativo extraordinário. Praça do Comércio, desse ponto de vista, não é apenas um disco, é também um compêndio de saberes (pelos textos, pela informação, pelas pautas ali transcritas) e uma obra de arte, valorizada com os desenhos de Carlos Zíngaro. Se há disco que, de forma clara, pugne por um objecto particular do nosso património, é este. Só ele? Não. Há mais, e já lá iremos. Mas Praça do Comércio é um excelente exemplo desse empenho.

Igualmente lançados em 2017, e numa lógica paralela, há outros dois trabalhos dignos de nota. Um é Gaitas de Fole em Portugal, de Paulo Tato Marinho, que muitos recordam dos Sétima Legião ou dos Gaiteiros de Lisboa, grupo que ajudou a fundar. Lançado na sede da Xuventude de Galicia, à qual está ligado há muitos anos, o disco é um compêndio de sonoridades gaiteiras, recorrendo a um número considerável de ponteiros e roncos e “radiografando” a experiência em textos, quadros e notas informativas. Não é, como Praça do Comércio, alicerçado em composições actuais (que também tem, do próprio Paulo Marinho ou de Rodrigo Leão), mas maioritariamente em temas tradicionais de várias regiões do país, indo das cantigas de D. Dinis aos Lhaços mirandeses. Outro bom exemplo de como valorizar um instrumento português também com parentes pelo mundo.

O terceiro trabalho desta curta selecção tem por base o instrumento mais antigo (e mais versátil) que se conhece: a voz. É a luminosa estreia das portuenses Sopa de Pedra com Ao Longe Já Se Ouvia, disco de vozes a capella (nalguns temas com percussões) que é também uma obra de arte pelo conceito e grafismo, embalado numa caixa de madeira com lâminas de cartão com fotos antigas manipuladas no rosto e, no verso, as letras das canções. A maioria vem do cancioneiro popular (Beira-Baixa, Trás-os-Montes, Açores), mas há igualmente composições de autores contemporâneos (José Afonso, Amélia Muge e Capagrilos). Celebração da voz, na sua plenitude harmónica e tímbrica (voz que também existe nos discos de Júlio Pereira ou Paulo Marinho), Ao Longe Já Se Ouvia é outro registo sonoro que vem mostrar como as mais antigas heranças podem brilhar como novíssimas (ou excelentíssimas) criações.