Uma mão para ti, outra para o navio

Maria João Gaspar e José Filipe de la Fuente estão a bordo do Royal Mail Ship. Este é o relato da última viagem do navio até Tristão da Cunha, ilha perdida no Atlântico Sul.

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“Boa tarde, senhoras e senhores, fala-vos o oficial de dia, a partir da ponte. Estes são os principais pontos de navegação. A posição no navio às 12h de hoje era 38°13’S 0° 30’W, a velocidade de navegação é de 14,3 nós e a profundidade de água sob o navio é de 5760m.”

Este é o anúncio que se ouve todos os dias, mais ou menos a meio do almoço. A informação que geralmente recebe mais atenção é a da profundidade; por muita confiança que tenhamos nos meios de navegação moderna, a ideia de que existem mais de cinco quilómetros de água debaixo dos nossos pés nunca deixa de causar alguma apreensão.

Hoje, no entanto, houve um aviso adicional. Depois das informações habituais, o oficial prosseguiu: “Esta manhã estivemos em comunicação com as autoridades de Tristão da Cunha. As informações… (pausa dramática) não são animadoras. As previsões meteorológicas para o dia da nossa chegada à ilha são de mau tempo, não permitindo operações de desembarque de passageiros ou carga.” Na sala ouviu-se um murmúrio de desilusão. A perspectiva de não conseguir desembarcar em Tristão é um balde de água fria. Mas, continua o oficial, “as condições meteorológicas no Atlântico Sul mudam muito rapidamente, o RMS St Helena manter-se-á em contacto com as autoridades de Tristão para acompanhar a situação e manterá os passageiros informados”. Particularmente interessada nesta informação estará uma família de Tristão que, se este desembarque falhar, terá que voltar para a Cidade do Cabo (com passagem por Santa Helena e Ascensão) e não sabe quando conseguirá regressar a casa.

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Que o tempo estava a mudar já os nossos os estômagos tinham percebido. Depois de um primeiro dia de mar tranquilo, com passageiros a apanhar banhos de sol no deck, o navio começou a balouçar com uma intensidade inversamente proporcional ao número de pessoas presentes às refeições. Os resistentes movimentam-se com a dignidade possível, agarrados ao omnipresente corrimão, seguindo a máxima recomendada logo no início da viagem: uma mão para ti, outra para o navio.

A dificuldade em desembarcar em Tristão é lendária. E foi certamente um dos factores que levou o Governo britânico a descontinuar, a partir de 2004, a viagem anual do RMS à ilha, de que esta é uma excepção de última hora, antes da retirada de serviço do navio. De então para cá, o transporte de passageiros e carga está limitado ao espaço disponibilizado, nos termos de acordos comerciais, em dois navios de pesca e um navio de investigação científica sul-africanos.

O único cais existente em Tristão da Cunha não comporta mais do que pequenos barcos de pesca e a transferência dos passageiros do RMS St Helena, que se manterá ancorado ao largo, envolve a utilização de um arnês e a descida por uma escada de corda até pequenos barcos tripulados pela população local. Não admira que todos os passageiros sejam obrigados a assinar termos de responsabilidade assumindo que desembarcam por sua conta e risco. “Os passageiros estarão expostos às condições atmosféricas e de mar e devem estar preparados para se molhar.” Deve ser a isto que se chama fleuma britânica.

A boa notícia chegou mais tarde, quando o comandante se dirigiu aos passageiros para anunciar que, atendendo ao mau tempo previsto para o dia da chegada, mas a previsões animadoras para os dois dias seguintes, tinha decidido atrasar a tentativa de desembarque em Tristão. O plano é reduzir a velocidade de navegação e alterar ligeiramente a rota, apontando primeiro à ilha de Gough, 350km a sul de Tristão.

Gough é uma ilha desabitada, à excepção de uma estação meteorológica sul-africana. É um local de extrema importância para a reprodução de aves marinhas, incluindo várias espécies de pinguins e albatrozes, uma delas endémica, e, em conjunto com a apropriadamente designada ilha Inacessível, também no arquipélago, é Património Natural da Humanidade. Permaneceu inexplorada e praticamente desconhecida até 1956, quando uma expedição científica formada por uma equipa de estudantes de Cambridge, muito à maneira de Phileas Fogg, fez um levantamento exaustivo da geologia, fauna e flora da ilha e produziu os seus primeiros mapas rigorosos.

A possibilidade de circum-navegar Gough, com as suas espectaculares escarpas tão raramente vistas por olhos humanos, quase nos faz esquecer que tudo pode correr mal à chegada a Tristão. Ou que tudo pode correr muito bem. Mas, essa, é outra história, ainda não sabemos qual.