Entrevista

“É crucial para o Sporting manter braço-de-ferro com o FC Porto”

Jesualdo Ferreira está preparado para reviver à distância as emoções do clássico da Luz, onde o Benfica pode fazer das fragilidades forças.

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REUTERS/José Manuel Ribeiro

A praticamente oito mil quilómetros de distância, Jesualdo Ferreira vai tentar seguir, em Doha, no Qatar, todas as incidências de um clássico que viveu e conhece como poucos treinadores, embora admita que o horário (21h30) e a diferença de fuso implicam uma maratona madrugada dentro. Com passado ligado a “águias” e “leões” — para além dos anos que viveu como técnico no Dragão —, o actual treinador do Al-Sadd perspectiva um jogo capaz de colocar à prova os diferentes estados emocionais de Benfica e Sporting e a importância de virar a primeira volta com a questão do título intacta.

Que importância poderá assumir o resultado deste jogo para os três candidatos?
Creio que em termos de importância, mesmo sabendo que nada ficará decidido em matéria de campeonato, este é um jogo crucial para o Sporting, que chega à Luz em posição de defender uma liderança que psicologicamente assume um carácter extremamente relevante. Até porque o FC Porto vai entrar a todo o gás no jogo de Santa Maria da Feira e para o Sporting é crucial, é fundamental manter este braço-de-ferro.

Mas para o Benfica este pode ser o momento da verdade…
Sim, na medida em que tem uma boa oportunidade para encurtar distâncias para a liderança. Uma derrota deixa-o a seis pontos do comando, o que poderia pesar no momento actual do clube. Mas o Benfica joga com o público, um apoio que no Estádio da Luz é sempre muito forte. É um clássico e um derby em simultâneo e, muitas vezes, não é a equipa mais moralizada que se impõe. Quando um grupo tem consciência das próprias fragilidades consegue, muitas vezes, superar-se e encontrar uma motivação que pode fazer toda a diferença nestes jogos.

A pressão aumenta ou diminui, nestes casos?
Isso não pode ser quantificado. Apesar de estar na frente, o Sporting não está sujeito a menos pressão, nem chega à Luz com menos nervos. Vai é mais desconfiado, pois uma diferença de três pontos, não sendo irrelevante, também não é significativa. Logo, nada ficará decidido. Agora, psicologicamente há aspectos que podem ser explorados. O Sporting sabe que tem uma possibilidade real de consolidar a posição, nem que seja em igualdade pontual com o FC Porto, e não se deixará condicionar pelo ambiente. Aliás, não sendo fácil para nenhum adversário, o Estádio da Luz também pode ser complicado para o próprio Benfica.

O Benfica tem experimentado dificuldades para segurar alguns resultados, mesmo quando entra bem no jogo. Esse pode ser um factor-chave?
Todas as equipas procuram entrar forte, ficar por cima do jogo. O problema é ter capacidade para gerir e manter as dinâmicas.
 

Com o momento de crispação instalado nos bastidores, em que medida é que todas estas questões e polémicas em torno do dirigismo podem contaminar o espectáculo?
Essa é uma matéria que não me interessa minimamente, nem entrarei por aí. O mais importante é o envolvimento dos profissionais, das equipas, do jogo e não de valores que não beneficiam o futebol.

E como se vive um duelo como este do outro lado do mundo?
Vou tentar seguir, como sempre, embora seja um pouco difícil, pois há três horas de diferença entre Lisboa e Doha e o jogo começa à meia-noite e meia daqui. Mas farei os possíveis para não perder nada.