Crítica

Eis o rap noir de Blasph

À superfície, apenas obsceno; nas entranhas, um espelho profundamente melancólico dos esquecidos e condenados — eis o rap noir de Blasph.

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É no film noir que encontramos o reflexo iconográfico da música de Blasph, contos de crime e castigo dos Bogarts, Cagneys, Mitchums desta vida

Fenómeno dos últimos anos: com Kendrick Lamar, gente que nunca tinha apreciado hip-hop passou a ser um ávido “partilhador” nas redes sociais, nessa multidão recém-deslumbrada se detectando um denominador comum — a identificação com o discurso politizado e contestatário em relação à América e suas paranóias (as mesmas de sempre: o racismo e a segregação, as armas, a falta de solidariedade).

O que grande parte desconhece é que muito (não todo, obviamente) do rap normalmente conotado com a violência de rua e os gangues (e que essa mesma gente desprezou quando o rap não era moda), aparentemente apenas obsceno à primeira audição, sempre sublimou, na realidade, um agudo subtexto político — tal e qual, por exemplo, o subtexto que se esconde no melhor terror cinematográfico (Carpenter, Romero, Hooper) — e uma “consciência de margem” (não necessariamente politizada ou militante), através de crónicas dos “esquecidos” que habitam realidades com códigos e representações próprios.

É aqui que chegamos a Blasph (de Blasphemia), rapper da Margem Sul (mas que podia ter saído de um filme de Nick Ray ou Tourneur) com muitos anos de rodagem (apesar de só ter um álbum a solo, Frankie Diluvio Vol. 1, 2015, e, no ano seguinte, O Processo, colaboração com Beware Jack), e que, na sua indiferença a modas, conserva um universo absolutamente reconhecível, tanto formal (na arquitectura do dispositivo rimático, sempre perfeitamente burilado, no flow, no anasalar e outras marcas fonéticas) como materialmente falando (nos temas e subjacente discursividade). Falámos em terror, mas é no film noir clássico de gangsters que encontramos o reflexo iconográfico da música de Blasph, contos de crime e castigo de homens (os Bogarts, Cagneys, Mitchums desta vida) em busca de uma outra vida através de vias moralmente correctas mas irremediavelmente oprimidos pela sombra fatalista (o primeiro e jazzístico instrumental, autoria de dB, lança-nos logo para essas ruas inquietantemente esconsas).

Faça-se este exercício ao som de €uros Ramazzotti (o amor e a sensualidade do Eros grego trocados pelo guito puro e duro): numa escuta superficial, o ouvinte mais precipitado só reterá o calão cru, ignorando o essencial, i.é, a profunda melancolia e desespero de um tipo dos bas-fonds que, pelo meio de esquemas duvidosos, não arranja saída para uma existência condenada: “Pelo euro estou a ficar primitivo / Acho que é a olho gordo, dá-me um anti-depressivo / Fartura de marisco na mesa da casa do Guincho / Eu fico tipo, ‘Vou mas é apontar a fusca ao maninho’ / Porque eu já sou homenzinho e não consigo andar para a frente / Por isso não contes o teu salário aqui assim mesmo à minha frente…” (ou numa linha tão enigmática quanto tristíssima como “Eu tenho vontade de desiludir alguém”, no final de “Botões”).

Pelo meio do negrume, há, como em todos os “anjos em queda” do noir, súbitas exaltações de uma vida desafogada, de luxos e mulheres, escapes fantasistas (como o cartoonesco título e a artwork da capa indiciam) que, no fim, sucumbem sempre ao peso do destino: se, na canção acima referida, as teclas e as cordas magnificamente compostas por Lhast e Slow J já apuravam essa atmosfera de fatum, em Incandescente (excelente instrumental do portuense Keso), ouve-se-lhe explicitamente “Eu sou a rua que deixa a mulher viúva / (…) O fado cantado à chuva”. Na ténue fronteira entre real, auto-biográfico e ficção, o EP vai sendo ainda pontuado por curtas gravações de vozes de rua sintonizadas com esta desolação geral (há uma particularmente dolorosa na sua “fúria de viver” suicida: “Eu mesmo com esta idade, não consigo ter juízo… (…) Ainda por cima deixei de dar nas drogas pesadas… Se não for a adrenalina, aquela aventura e o caralho… ‘tou fodido”).

Essencial é ter presente que, paralelamente, Blasph — ou Frankie Diluvio, nome tão gangster como tristonho no que de torrencial/plangente/bíblico evoca — nunca se leva muito a sério (a gravidade do que é dito resulta do tal subtexto, não de uma pose), e por isso é que o rap de ego trip e punchline (é um dos mais distintos atiradores nesse campeonato), lado a lado com o humor e um imaginoso descaramento, tudo acompanhado de um charme de assassino profissional, puxa sempre uma inevitável gargalhada ao ouvinte, ao mesmo tempo que o força a descodificar o encadeamento frásico e os duplos sentidos.

Num ano globalmente muito fraco para o hip-hop português (exceptua-se o álbum lançado por Slow J e pouco mais), este conjunto de 7 faixas constitui, ao cair do pano, um dos raros picos editoriais.