Torne-se perito

Estudantes iranianos confrontam-se com polícia na Universidade de Teerão

Ministério do Interior apela à população para não participar "em ajuntamentos ilegais" e promove manifestações de apoio ao regime, mas protestos continuam. Dois jovens terão morrido em Dorud.

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manifestante na Universidade de Teerão, entre o gás lacrimogénio EPA
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Manifestações continuam DR
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Manifestação de apoio ao Governo em Teerão HAMED MALEKPOUR/EPA
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Governo promoveu manifestações de apoio ao regime em mais de 1200 cidades e lançou avisos contra novos "ajuntamentos ilegais" HAMED MALEKPOUR/EPA

A Univerisdade de Teerão foi palco de confrontos entre estudantes e polícia, com uso de gás lacrimogéneo e balas de borracha. O Governo promoveu manifestações de apoio ao regime em mais de 1200 cidades e lançou avisos contra novos "ajuntamentos ilegais", mas os protestos contra o regime e contra o aumento dos preços continuam. 

A Fars, uma agência noticiosa iraniana semi-oficial, relata que cerca de 70 estudantes juntaram-se em frente à Universidade de Teerão e atiraram pedras contra a polícia. Há vídeos que os mostram a gritar "morte ao ditador" – aparentemente, diz a Reuters, referir-se-iam a Khamenei. Há múltiplos vídeos nas redes sociais que mostram o que parece ser a polícia de choque, usando gás lacrimogéneo e balas de borracha contra os estudantes, que gritaram slogans contra o ayatollah Khamenei, diz no Twitter a analista iraniana-americana Holly Dagres, coordenadora da newsletter The Iranist.com.

As agências noticiosas e outros órgãos de comunicação ocidental têm saído do Irão — daí a dificuldade em obter imagens dos protestos, ou informação em primeira mão. Mas as redes sociais enchem-se de vídeos e informações colocadas por pessoas que testemunham e vivem os protestos — o difícil é perceber a sua dimensão e motivações das pessoas que neles participam. As redes sociais são também provavelmente o motor que gera estas manifestações, suspeitam as autoridades — um vídeo publicado nas redes sociais, mostra dois jovens no chão na cidade de Dorud e uma voz a dizer que morreram, após serem atingidos pela polícia, cita a Reuters.

PÚBLICO -
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Estudantes em confronto com polícia na universidade de Teerão EPA

A agência noticiosa Reuters cita o vice-governador da província de Lorestan, Habibollah Khojastehpour, que numa entrevista dada este domingo à televisão estatal responsabiliza “agentes estrangeiros” pela morte dos dois estudantes. “Não houve disparos da polícia e das forças de segurança. Encontrámos provas da presença de inimigos da revolução, grupos Takfiri e agentes estrangeiros neste confronto”, disse.

Nas redes sociais e aplicações de mensagens, como o Twitter ou o Telegram, as mais usadas pelos iranianos, há relatos e vídeos de um terceiro dia de protestos, em cidades como Teerão, Shahr-e Kord, Rasht, Hamedan, Kermanshah ou Qazvin, dizem a Reuters e a AFP. O mais estranho, notam vários analistas, é que a Internet não está a ser desacelerada, nem está a ser cortado o acesso — um procedimento habitual no Irão e outros regimes repressivos.

Mais do que a dimensão individual dos protestos, a característica que parece mais significativa é o facto de serem tão alargados em termos geográficos, salienta no Twitter Michael Horowitz, da empresa de análise de risco Prime Source.

December 30, 2017 ">

Gritam-se palavras de ordem contra o Líder Supremo Khamenei, a maior autoridade religiosa da República Islâmica, contra o Presidente Hassan Rohani, contra a inflação e contra s intervenção do Irão nas guerras na Síria e no Iraque.

O Fundo Monetário Internacional prevê que o desemprego no Irão permaneça em torno dos 12% nos próximos anos, não só devido a constrangimentos como as sanções económicas, como também por causa da população muito jovem, que faz com que entrem muitas pessoas todos os anos no mercado à procura de emprego, diz uma analise na publicação online Al-Monitor.

E isto apesar de Rohani ter feito descer a inflação de 34,7%, quando tomou posse pela primeira vez, em Agosto de 2013, para uma média de 11,9% – o valor mais baixo de qualquer Presidente iraniano. Mas, ainda assim, o custo de vida aumenta porque aumenta o desemprego. A apresentação da proposta de Orçamento para 2018, que prevê aumentos do preço de combustível e corte de subsídios, terá contribuído para agravar o mal-estar.

Condenação dos EUA

A televisão official, que se tem mantido silenciosa sobre os protestos, quebrou este sábado o silêncio. Mostrou imagens dos protestos, classificando-os como ilegais e como algo que está a ser usado por inimigos estrangeiros. A BBC em persa, a Voice of America e a televisão Al-Arabya da Arábia Saudita foram acusadas de estarem a incitar à revolta.

O tweet do Presidente norte-americano foi igualmente citado. "O Governo iraniano devia respeitar os direitos dos seus cidadãos, incluindo o direito à livre expressão. O mundo está a observar!", afirmou Donald Trump. O Departamento de Estado também expressou apoio aos manifestantes: "Os Estados Unidos condenam de forma vigorosa a detenção de manifestantes pacíficos. Apelamos a todas as nações para que expressem publicamente apoio ao povo iraniano e às suas exigências de direitos básicos e fim da corrupção", diz um comunicado.

Os media estatais iranianos realçaram a resposta do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Bahram Qassemi: "O povo iraniano não vê valor nenhum nas declarações oportunistas de responsáveis americanos e do sr. Trump." Além disso, a televisão iraniana diz que os manifestantes detidos foram libertados.

As manifestações promovidas pelo Governo acontecem no dia em que se assinala mais um aniversário do fim da onda de contestação nas ruas que, em 2009, se seguiu à reeleição do Presidente Mahmoud Ahmadinejad, numa votação que a oposição mais liberal considerou ser manipulada. 

Mas os protestos contra as autoridades não parecem dar tréguas. Um vídeo partilhado no Twitter mostrava dezenas de manifestantes em Kermanshah a apupar a polícia, depois de os agentes anunciarem, com um megafone, que estes ajuntamentos são ilegais. 

Guardas da Revolução ameaçam

O ministro do Interior, Abdolreza Rahmani-Fazli, lançou um aviso contra a promoção dos protestos online. "Pedimos a todos que não participem nos ajuntamentos ilegais. Se quiserem fazer um protesto peçam autorização, será avaliada", afirmou.

Os Guardas da Revolução e a sua temida milícia Basij, que lideraram a repressão dos protestos de 2009, emitiram um comunicado afirmando que "a nação iraniana não permitirá que o país sofra". Até agora não há notícia de que tenham sido mobilizados.

ayatollah conservador Ahmad Alamolhoda, representante da cidade de Mashad na Assembleia de Peritos – que tem o poder de designar o Supremo Líder –, apelou a uma acção dura contra os protestos. Foi em Mashad que teve início esta onda de protestos – e esta cidade é controlada pelos conservadores, em especial por Ebrahim Raisi, o principal adversário de Hassan Rouhani nas presidenciais de Maio de 2017; e por Alamolhoda, que é sogro de Raisi, diz um artigo na publicação Al-Monitor.

Já o vice-presidente, Eshaq Jahangiri, um aliado próximo do Presidente Hassan Rohani, fez declarações sugerindo que na origem destes protestos estiveram membros radicais da ala mais conservadora, mas que entretanto perderam o controlo do movimento. "Quando se lança nas ruas um movimento social e político, os que o iniciaram não são necessariamente capazes de o controlar até o fim. Os que estão por trás desses acontecimentos acabaram por queimar os dedos", declarou.

O ex-Presidente Ahmadinejad distanciou-se dos manifestantes. "O caos e a destruição não tem nada a ver connosco", afirmou.

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