Opinião

Complexidade e Educação Inclusiva

As pessoas com condições de deficiência têm absoluta necessidade do apoio de técnicos que não sejam só professores.

Comum, comum, é o lugar onde se diz “o mundo está cada vez mais complicado”. E é verdade, apesar de estarmos exaustos de ouvir esta “lapalissada”. O mundo está cada vez mais complexo, é uma evidência. Tudo o que nos rodeia é complexo, com origens e manifestações múltiplas e obviamente com resultados inesperados e incertos. E senão vejamos: quanto mais complexos são os sistemas, maior é a incerteza sobre o seu funcionamento. Quanto mais componentes tiverem, quando mais elementos mobilizarem, maior é a incerteza do seu funcionamento e a sua complexidade. Lembro-me uma vez de ter mandado arranjar o meu carro e depois do conserto disse ao mecânico: “Fez um bom trabalho! O carro está novo!” O mecânico, experimentado e prudente, disse-me: “O seu carro tem, talvez, 6000 peças e eu só substitui 22.” Entendi então que a complexidade — e a inerente incerteza — está relacionada com o número de conexões e de interações que um sistema tem dentro de si.

E nós vivemos num sistema social complexo. Complexo não quer dizer complicado ou difícil, quer dizer etimologicamente “o que é tecido em conjunto”. E toda a nossa realidade atual é tecida em conjunto, isto é, desenvolve-se através de uma rede intricada e interdependente de relações. Nunca foi tão verdade a afirmação que “tudo está ligado a tudo”. E tudo está agora mais ligado a tudo. A erupção das tecnologias digitais aumentou de forma nunca antes vista nas sociedades humanas as possibilidades de ligações entre as pessoas. Ora, quanto mais possibilidades de interconexão, maior a quantidade de informação e maior a incerteza e a complexidade que geram. Toda esta informação realimenta-se dos seus resultados e propaga-se e aumenta em razões exponenciais. Quer dizer que o efeito de um dado conjunto de informações age, ou melhor retroage, sobre essas informações, tornando-as diferentes. Daí que um dos teóricos mais influentes do que convencionou chamar a Teoria da Complexidade, Edgar Morin, tenha afirmado que a Educação do Séc. XXI teria mais a função de religar e articular os conhecimentos do que criar conhecimentos absolutamente novos.

Esta complexidade tem um impacto na compreensão dos processos inclusivos. Não é difícil avaliar a complexidade de qualquer processo de inclusão social. Encontramos comunidades fechadas nos seus princípios, normativas nas suas regras e sobretudo exigentes quanto ao desempenho e comportamento que os aspirantes a seus membros devem ter. Por outro lado, encontramos pessoas que, em muitos momentos da sua vida, não são capazes de corresponder na perfeição aquilo que as comunidades esperam delas. Esta situação é muito visível na escola: as escolas esperam muitas vezes um tipo específico de alunos, com um determinado tipo de capacidades e comportamento. Quando os alunos não se apropriaram e não demonstram o tipo de conhecimentos e comportamento que a escola espera, a inclusão não se passa porque todo o ónus da mudança é colocado sobre o aluno e a escola sente-se ilibada da responsabilidade de mudar. A inclusão é, por isso, um processo complexo porque implica a sempre difícil mudança de modelos de entender a educação por parte do aluno e por parte da escola.

Talvez por esta mudança ser tão difícil e tão penosa, se procura encontrar soluções que aparentemente resolvam a questão através da diminuição da complexidade dos problemas. Por exemplo: se considerarmos muito difícil (vide impossível) proceder às alterações das formas de ensinar, dos objetivos de aprendizagem, dos modelos de avaliação, então a “solução” é diminuirmos a complexidade destas alterações e criarmos modelos de “educação especial”.  Ainda recentemente foi publicitada a inauguração de uma estrutura educacional dentro de uma escola regular destinada a alunos com dificuldades onde existiam, além de salas de trabalho, casas de banho e até cozinha. Quer dizer que a construção desta casa, aparentemente até muito bem construída em termos arquitetónicos, procurou diminuir a ansiedade de confrontar os jovens com dificuldades com estruturas, digamos, regulares. Agora eles podem ter aulas à parte, casas de banho só para eles e até comida só para eles.

Não confundamos as coisas: as pessoas com condições de deficiência têm absoluta necessidade para o desenvolvimento das suas capacidades do apoio de técnicos que não sejam só professores. A questão é se acreditamos ou não que esse apoio pode e deve ser potenciado, contextualizado e maximizando o acesso a ambientes inclusivos, diversos e mais desafiadores.

Vivemos em ambientes complexos, ambientes em que os problemas são tecidos em conjunto e onde certamente as possíveis soluções têm igualmente de o ser. A Educação Inclusiva procura dar respostas complexas e que, por este motivo, são sempre aproximativas e não definitivas. São estas as respostas que honestamente, e de forma cidadã, se podem encontrar hoje para as perguntas complexas que a sociedade da complexidade nos coloca. Dar respostas simples a questões complexas soa a insuficiente. Daqui a força conceptual da inclusão como modelo de intervenção que deve recrutar tudo o que de melhor sabemos fazer pelos jovens com dificuldades, aproveitando a riqueza e a complexidade do meio em que eles vivem.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico