Turquia quer prisão de jogador da NBA por insultar Erdogan

Procurador de Istambul defende condenação de Enes Kanter a quatro anos de prisão. Atleta é apoiante do movimento Hizmet de Fethullah Gülen.

Enes Kanter em acção, disputando a bola com Carmelo Anthony
Foto
Enes Kanter em acção, disputando a bola com Carmelo Anthony JASON SZENES/EPA

Indiferente à acusação que pende contra ele por “difamar e zombar” do Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, em mensagens publicadas no Twitter, o jogador de basquetebol turco, Enes Kanter – titular da equipa dos New York Knicks da liga norte-americana NBA – recorreu à mesma rede social para reagir ao pedido da procuradoria de Istambul de punição do insulto ao chefe de Estado com uma pena de quatro anos de prisão. “Tudo o que eu disse foi muito menos do que aquele desonrado merece. Acrescente mais quatro anos à pena, patrão”, escreveu o atleta, de 25 anos.

Kanter tornou-se um alvo para o regime quando começou a publicar mensagens no Twitter sobre a situação política no seu país após a tentativa falhada de golpe de Estado em Julho de 2016. Mas na acusação, o procurador de Istambul refere-se a mensagens alegadamente insultuosas que foram difundidas entre Maio e Junho de 2016, quando se referiu ao chefe de Estado turco como “o Hitler do nosso século”.

Questionado pelos jornalistas em Nova Iorque, após a dedução da acusação em Istambul, Kanter disse que não se admirava que as autoridades turcas o quisessem mandar para a prisão porque “no regime maníaco de Erdogan, basta fazer uma crítica ao Presidente para ser detido”. Mas depois de conhecer a acusação, o jogador disse que pensou: “É só isto? Depois de tudo o que eu disse só querem que passe 48 meses na cadeia?”, ironizou o jogador.

O basquetebolista – que nasceu na Suíça e agora tem um visto de residência permanente nos Estados Unidos – é um assumido apoiante de Fethullah Gülen, o arqui-inimigo do Presidente Recep Erdogan e que este responsabiliza pelo golpe falhado no Verão de 2016. O apoio público a Gülen, e a sua dedicação ao movimento Hizmet lançado pelo clérigo que também está radicado nos EUA (auto-exilado no estado da Pensilvânia), levou um tribunal turco a declarar Enes Kanter como “fugitivo”.

Sobre as suas mensagens contra o regime de Erdogan no Twitter, Enes Kanter disse que só estava a tentar aproveitar o facto de estar a salvo da prisão nos EUA (cuja legislação só considera a extradição para a Turquia quando os processos correspondem a crimes tipificados na legislação federal norte-americana) para falar “em nome de uma geração, de jornalistas e outras pessoas inocentes, que estão a ser detidos ou então raptados, torturados e mortos” no seu país.

Kanter deu o exemplo da sua própria família, que continua a viver na Turquia, e no ano passado sofreu a retaliação do por causa das suas posições políticas. Depois de ter sido detido durante uma semana, o seu pai publicou uma carta aberta a renegar o filho: “É com muita vergonha que peço perdão ao Presidente e ao povo turco por ter um filho assim”, escreveu Mehmet Kanter, para quem Enes terá sido “hipnotizado” por Fethullah Gülen.

A possibilidade de vir a ser julgado (à revelia) na Turquia não perturba o atleta, cujo passaporte turco já foi revogado. “Já estava preparado para isso, não me incomoda minimamente. Eu estou na América, onde a primeira emenda da Constituição protege a liberdade de expressão. E o meu foco aqui é fazer o que vim para aqui fazer, e que é jogar basquetebol e ganhar os playoffs”, disse ao diário The New York Post.