CTT cortam 800 postos de trabalho e fecham balcões

A partir de 2020, empresa liderada por Francisco Lacerda quer ter mais 45 milhões de euros nos resultados operacionais.

Resultados dos CTT "estão sob pressão desde meados de 2016"
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Resultados dos CTT "estão sob pressão desde meados de 2016" NUNO FERREIRA SANTOS

Praticamente em vésperas de uma greve geral de dois dias, convocada para 21 e 22 de Dezembro pelos sindicatos afectos à UGT e à CGTP, os CTT divulgaram esta terça-feira um plano de reorientação estratégica que dispara em várias frentes e que entre poupanças e receitas procurará gerar um impacto positivo de 45 milhões de euros nos resultados operacionais a partir de 2020.

Da redução do número de trabalhadores ao fecho de balcões e venda de património, do corte nas remunerações da gestão e gastos com fornecedores ao congelamento de salários dos trabalhadores, a equipa de gestão liderada por Francisco Lacerda desenhou uma série de medidas para implementar até 2020 e “lançar a próxima etapa de crescimento e eficiência operacional”. Isto, partindo do diagnóstico de que "os resultados estão sob pressão desde meados de 2016" e que se torna "indispensável um plano de transformação operacional abrangente".

A implementação desta estratégia ficará a cargo do antigo administrador financeiro da PT, Guy Pacheco. Este gestor chega para substituir André Gorjão Henriques, que deixa a empresa a meio de um mandato que só terminava em 2019.

Do lado da redução de pessoal, a matemática dos CTT aponta para uma redução de 800 trabalhadores nos próximos três anos e poupanças de cerca de cinco a seis milhões de euros por ano a partir de 2020, com gastos de 14 milhões no processo. Actualmente, os CTT têm um total de 6200 efectivos e 500 contratados a termo.

A empresa que ainda no mês passado confirmou estar “disponível” para, “em duas etapas distintas, acolher até cerca de 300 rescisões por mútuo acordo e reformas antecipadas”, revelou que cerca de 140 trabalhadores já se disponibilizaram para sair. No entanto, as metas de corte de pessoal são muito mais ambiciosas e apontam para os tais 800 trabalhadores até 2020.

Para quem fica, os CTT avisam já que ficam limitados os aumentos salariais "não obrigatórios para os colaboradores em 2018" e que estes também sofrerão uma "forte redução da remuneração variável (...) referente a 2017".

Ao nível das lojas, os CTT também antevêem um potencial de poupança na ordem dos seis a sete milhões de euros por ano. Esta optimização da rede de lojas implicará gastos de 15 milhões de euros. Estão aqui em causa as lojas "com pouca procura por parte dos clientes", justifica a empresa, sem quantificar. No final de Junho, os CTT tinham 2357 estabelecimentos postais em funcionamento, dos quais apenas 610 eram estações de correio fixas (1744 eram postos de correio e havia ainda três postos móveis).

Na apresentação, a empresa reconhece que "a contínua substituição electrónica está a impactar os rendimentos operacionais, uma vez que os CTT estão ainda muito dependentes do Correio". Isto num momento em que "o sector postal está a passar por um processo de rápida diversificação, encontrando-se os CTT ainda na fase inicial de tal transformação". Um processo que, segundo explicam, se justifica pela "ainda limitada penetração das encomendas do comércio electrónico em Portugal e por o Banco CTT apenas ter iniciado a sua actividade em 2016".

Renegociar contratos com fornecedores

A contenção com os gastos salariais da gestão será outro dos eixos de poupança: os Correios comunicaram "25% de redução da remuneração fixa do presidente do conselho de administração e do presidente executivo e 15% de redução para os restantes membros executivos e não executivos do conselho de administração em 2018 (versus os níveis actuais)". Adicionalmente, anunciaram que "não haverá lugar a remuneração variável para a comissão executiva referente a 2018 (nem em 2017)".

A factura com fornecedores é outra despesa que a equipa de Francisco Lacerda promete que irá encolher nos próximos meses. Está prevista uma "redução de gastos não relacionados com as alavancas de crescimento" e isso implica, segundo a apresentação, cortar em áreas como a "tecnologia de informação, rendas, utilities, comunicações e frota". Uma iniciativa que deverá ser suportada, segundo a empresa, "pela renegociação de contratos e racionalização da utilização de serviços/instalações". O objectivo de poupança anual, em 2020, é de cerca de 6 a 7 milhões de euros, com impacto nos resultados operacionais (EBITDA).

A empresa, que ainda esta semana anunciou a obtenção de uma mais-valia de 16 milhões de euros com a venda da antiga sede – o palacete Sousa Leal, na rua de S. José, em Lisboa – por 25 milhões de euros, tem sinalizadas no plano de reestruturação outras 30 propriedades como activos não estratégicos para venda. Ainda assim, a expectativa de encaixe líquido com estas três dezenas de imóveis é mais modesta, tendo em conta que a receita esperada é de 12 a 13 milhões de euros, a partir de um valor contabilístico actual de seis milhões.

Estas medidas surgem numa altura em que os resultados dos correios estão a ficar aquém das expectativas, tendo mesmo gerado um alerta da administração sobre o não cumprimento das metas definidas previamente. Um contexto que levou a rever a política de dividendos dos CTT e que teve como consequência uma forte redução do valor da empresa em bolsa. A 1 de Novembro, dia em que os CTT anunciaram que os lucros até Setembro caíram 58% face ao período homólogo, para 19,5 milhões de euros, e que os resultados brutos de exploração encolheram 28%, para 59,3 milhões, as acções dos CTT afundaram 21%, para 3,96 euros. Esta terça-feira, fecharam a valer 3,49 euros.

Na comunicação divulgada ao mercado, a empresa reafirma que vai propor um dividendo de 38 cêntimos por acção relativo ao exercício de 2017, mas nota que "durante o período de investimento do plano de transformação operacional (2018-2019)", tenciona propor que se implemente "uma política de dividendos alinhada" com o resultado líquido, "reforçado com a utilização de reservas distribuíveis".