O verdadeiro Pai Natal não precisa de barba postiça

É professor, actor e encenador e, nesta época do ano, é chamado a exercer funções de grande responsabilidade: arrancar sorrisos e gargalhadas a crianças de Norte a Sul do país. Guloso assumido, alimenta o sonho de viajar até Antália, na Turquia, terra de São Nicolau.

Fotogaleria
Carlos Rocha, mais conhecido como Jackas, é o único Pai Natal certificado na Península Ibérica pela Santa Claus Oath Paulo Pimenta
Fotogaleria
O anel da Fundação do Pai Natal, que o próprio criou no Museu do Brincar, e que usa o ano inteiro Paulo Pimenta
Fotogaleria
A chave mágica que Jackas usa para entrar em casa das crianças na noite de 24 para 25 de Dezembro Paulo Pimenta

A pequenada gosta de lhe puxar as barbas — quase sempre para testar se são verdadeiras — e ele não se importa nada com isso. Muito pelo contrário. São uma das suas imagens de marca e a sua manutenção está sujeita a várias regras e princípios. Exemplos: só a corta uma vez por ano e com a lua em quarto crescente — tanto mais porque elas até estão registadas numa “irmandade internacional de pais Natal de barbas”. “Coisas de americanos”, conta-nos Carlos Rocha, mais conhecido por Jackas — segundo confessa, se o tratarem pelo nome de baptismo correm o risco de que ele não responda —, o verdadeiro e genuíno Pai Natal português. Pelo menos é o único (não só no país, mas também na Península Ibérica) que se encontra devidamente certificado pela escola Santa Claus Oath, após um processo de reconhecimento de competências e a realização de um juramento perante cerca de 50 testemunhas — mais uma coisa de americanos.

Professor há 28 anos, Jackas é também actor e encenador da Arlequim – Teatro para a infância, e fundador e director do Museu do Brincar, situado em Vagos, na região de Aveiro. Mas de Novembro até 24 de Dezembro é, acima de tudo, o Pai Natal. “Percorro várias cidades e regiões do país”, conta, sem assumir qualquer tipo de cansaço. Nascido há 55 anos, em Lourenço Marques (Maputo), e residente em Ílhavo, Jackas não esconde a felicidade que lhe dá vestir a roupa vermelha de Pai Natal e espalhar “a magia entre as crianças”. “Para elas, este é um momento de esperança. Podem até não ter tido um presente no ano inteiro, mas alimentam a expectativa de que, no Natal, alguma coisa vai acontecer”, realça, ao mesmo tempo que defende que esta crença no homem das barbas brancas deve ser alimentada até ao máximo que os pais conseguirem. “Crescer a sonhar é fundamental e se o Pai Natal, ou o menino Jesus, faz parte desse processo, então toca a manter esta magia”, argumenta.

PÚBLICO -
Foto
Paulo Pimenta

Para este homem que começou a exercer as funções de Pai Natal por volta dos 18 anos — inclusive perante a própria filha, actualmente com 32 anos — urge continuar a passar à criança “os sonhos e os valores da partilha, da igualdade, da amizade, da alegria, do Natal”. “E é isso que eu tento fazer com eles, mesmo quando estou a participar num evento num shopping. Aos que têm mais brinquedos, peço-lhes para partilharem com outras crianças que não têm tantas possibilidades financeiras.”

Esqueçam as bolachas e o copo de leite

Jackas é um homem de gargalhada fácil, bem-disposto por natureza, com uma voz potente e cheia, que combina na perfeição com o tradicional “Oh! Oh! Oh! Feliz Natal!” A sua estatura ajuda — e muito — a tornar ainda mais fidedigno o seu desempenho de funções: são 1,90 metros de altura e 130 quilos de peso. “É verdade. Não preciso de usar barriga postiça, se bem que era bom começar a perder algum peso, sob pena de o Pai Natal ter algum problema de saúde”, desabafa. A culpa é da sua queda pelos doces. Especialmente a doçaria tradicional, bem carregada de ovos e açúcar — e de calorias. “Há uma coisa que eu peço muito às crianças, quando elas dizem que me deixam as bolachas e o copinho de leite: é que me deixem doces mais gulosos, tipo ovos moles, pão-de-ló de Ovar, pastéis de Tentúgal, dom Rodrigo, toucinho do céu, etc.”, ri-se.

No geral, Jackas gosta de comer bem, mas recusa passar muito tempo à mesa. “Tanto como no McDonald’s, como num chinês ou numa pizzaria. Como de tudo e como bem, mas não sou de perder tempo, a não ser que esteja em grupo”, afiança.

Já no que toca a viajar, adora “perder muito tempo”. “É das coisas melhores que se podem fazer na vida. Quando viajamos trazemos coisas connosco, cá dentro na alma, no espírito”, sublinha. Já visitou países como a Índia, Alemanha, Estados Unidos, Brasil, Marrocos, Moçambique, Espanha e Itália, “mas gostava de ir a muito mais”, garante — “O problema é que o Pai Natal não é rico (risos)”, justifica-se. Na certeza de que há um destino que sonha muito conhecer. E não, não é a Lapónia. “Contrariamente ao que se pensa, a origem do Pai Natal não é a Lapónia. É na Turquia, mais concretamente Mira, na região de Antália”, esclarece. “O Pai Natal existiu, o São Nicolau, um santo que foi deixado cair pela igreja católica mas que é o padroeiro da Rússia. O juramento que eu fiz, bem como os outros pais natais certificados, passa por espalhar esse espírito de São Nicolau. Porque ele fez bem à população e ajudou os mais desfavorecidos”, realça, sem esconder o seu desejo de conhecer a região de Antália.

Em mais de 30 anos de experiência nas “funções” de Pai Natal, Jackas já passou por de tudo um pouco, episódios mais ou menos insólitos, alegrias e tristezas. E, sim, já chorou em pleno exercício do cargo. “Quando uma criança me pergunta por que razão eu nunca passei pela casa dela, ou outra que me pediu a cura do pai ou da mãe, isto é um murro no estômago”, introduz. “Ou ir a instituições e conhecer crianças que foram abandonadas. Engole-se muito em seco. A criança não devia estar a passar por aquilo. Devia estar a pensar em ter um brinquedo”, relata. São episódios que não consegue esquecer e que contrastam com casos como o que viveu “no outro dia, em que um menino com três anos de idade” lhe pediu “um drone de presente de Natal”.

Aos que têm pouco ou quase nada, Jackas faz questão de alimentar a esperança e proporcionar um momento de alegria. Para os que já têm muito e aparecem com “uma lista grande”, avisa-os de que “talvez fosse melhor fazerem pedidos mais pequenos para o Pai Natal poder chegar a todos”.