Nesta casa cabe uma aldeia inteira

Foi palco místico das travessuras de infância. Agora é Carya Tallaya, o projecto turístico que une uma família à terra. Vale das Éguas pode ser uma das freguesias mais envelhecidas do país, mas a “humildade de aldeia” ainda persiste. E eles querem partilhá-la.

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Ricardo Lopes

Era uma vez, uma senhora muito velhinha que vivia com uma dezena de gatos num casarão de pedra numa aldeia da Beira Interior. A história deste hotel rural bem pode ser contada como num livro para crianças, até porque ela própria nasce das memórias de infância de três irmãos em Vale das Éguas, no distrito da Guarda. A casa da dona Josefina era uma das maiores da aldeia. Tinha a loja dos animais no rés-do-chão e habitação no primeiro andar, dois palheiros grandes, casinha de arrumos, horta e jardim. O portão da casa transformava em beco uma das seis ruas da aldeia; todas com o mesmo destino: a igreja, com torre afastada da nave, implantada como rotunda no centro do lugarejo.

Para os miúdos da aldeia – numa altura em que ainda havia crianças na terceira freguesia mais envelhecida do país – o mundo começava mesmo no fim daquela rua. O casarão de granito, ligeiramente afastado do bulício aldeão e habitado por uma “velhinha que vivia sozinha com muitos gatos e muitas flores, reservada mas simpática”, era um lugar “místico”, palco de inúmeras aventuras e travessuras. “Era como se fosse um espaço encantado da aldeia”, recorda Carla Proença, 42 anos, a mais nova da família à frente do projecto Carya Tallaya. Em pequenos, volta e meia passavam por ali, para brincar por entre as casas ou assustar os gatos e vê-los fugir, às gargalhadas.

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Por isso, quando o edifício, entretanto abandonado, foi colocado à venda pelo herdeiro, a família de Carla decidiu investir. Depois de dois anos de reconstrução, o hotel rural Carya Tallaya abriu ao público, em 2012. O casarão da dona Josefina está agora dividido em quatro casas com nomes de flores do campo (três T2 e um T1) e uma área comum, composta por um alpendre com lareira, piscina de água salgada e uma comprida mesa e grelhador. O mobiliário e as infra-estruturas modernas aliam-se à traça rústica dos edifícios recuperados numa decoração minimalista mas repleta de pormenores tradicionais que contam a história da aldeia através das memórias dos Proença. A máquina de costura da avó, as roscas de trapos para transportar os cântaros à cabeça que uma tia refez, a antiga amassadeira do pão, ferramentas de sapateiro, rendas, vasilhas de barro e de vidro. Até a faca com que a mãe desmanchava o bacalhau em postas para vender na velha mercearia da aldeia.

“Este projecto nasce de uma vontade familiar. Na altura, o meu pai comprou o espaço e disse «eu invisto, mas depois vocês têm de avançar com isto»”, ri-se Carla à mesa da recepção, entre golos da jeropiga caseira oferecida à chegada. Os pais ainda vivem em Vale das Éguas. É Fernando quem arranja o jardim e os canteiros do hotel, enquanto Maria Joaquina trata da horta. Mas os filhos há muito que saíram da terra. Vítor, o mais velho, mora no Sabugal, sede do concelho. Cristina e Carla foram estudar para Lisboa aos 15 anos e por lá ficaram. São eles, no entanto, que cuidam do negócio hoteleiro. Revezam-se nas idas à aldeia durante os fins-de-semana e nas épocas de maior movimento de hóspedes. E, a cada ano, um deles fica responsável por toda a logística. Uma “aventura” para quem, como eles, nunca tinha trabalhado na área. E uma “luta grande”, feita de muitas viagens e amor à terra.

Aguardente caseira, praia de Outono

Vítor, Cristina e Carla, todos na casa dos 40 anos, nasceram não muito longe daqui, no quarto onde ainda hoje dormem os pais. Carla lembra-se de “saltar e correr à vontade pela aldeia”, do “cheiro das lareiras pela manhã” ou da mãe acordá-la porque estava a nevar. “Ia à janela e estava um manto todo branco e direitinho, porque ainda ninguém tinha passado, e aquele silêncio da neve que só vivendo se percebe o que é”, recorda. “Lembro-me da felicidade que era, porque quando nevava a professora não conseguia chegar cá e não tínhamos escola”, ri-se. São essas vivências e a “humildade de aldeia” que querem agora dar aos hóspedes, a par do “sossego” e do “ar puro” que se respira numa localidade “tão pequena e longe de tudo”.

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Em 2011, moravam 39 pessoas em Vale das Éguas, segundo os censos daquele ano. Era já a terceira freguesia mais envelhecida do país: 72% da população tinha mais de 65 anos. Actualmente, não deve chegar às duas dezenas de habitantes, contabiliza Carla. Não há qualquer restaurante, café, mercearia, tasca, loja. A escola primária fechou há muito. Só a igreja abre portas à missa, uma vez por semana.

Nesta sexta-feira, porém, não falta movimento a Vale das Éguas. Bem cedo pela manhã, uma vizinha atravessa a ruela do hotel com o rebanho de ovelhas. É o único caminho possível até ao pequeno pasto que tem para lá do parque de estacionamento de Carya Tallaya. Pelas 9h, como tínhamos combinado no dia anterior, deixam-nos à porta os frescos para o pequeno-almoço. No frigorífico, há queijo regional, fiambre, leite e compotas. No saco, chegam fatias de bolo acabado de fazer, pão, sumo natural e fruta. Da pequena esplanada instalada no varandim, vê-se o fumo vindo de um forno de lenha vizinho. Ouvimos o borburinho de quem já trabalha nas hortas em frente.

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Cheio o estômago, saímos para um passeio pela aldeia. Não demos pela música buzinada a anunciar a chegada, mas o talho ambulante de Adérito Fernandes já recebe clientes no largo da igreja. Todos os dias, a aldeia acorda com a cantoria de uma loja diferente. O padeiro, os congelados, o talhante, os artigos de supermercado. Quase tudo chega de carrinha a quem não tem como se deslocar à vila ou cidade mais próximas. Adérito Fernandes, 60 anos, tem um talho e salsicharia na Rebolosa, mas há um ano que faz a rota das aldeias às sextas de manhã. Na montra, desfilam febras, entrecosto, enchidos, salsichas, queijos. A oferta vai variando conforme os pedidos. “Já não justifica muito andar aqui pelas aldeias, mas custa virar as costas aos clientes.” Por isso, continua a conduzir a carrinha por “meia dúzia” de localidades. Finda a conversa e a fila de clientela, recomeça a música e a carrinha parte. Próxima paragem: Ruvina.

Mesmo ao lado, Irene e Carmelinda olham-nos curiosas do portão. “Bom dia! Dois jovens numa aldeia tão pequenina e afastada de tudo? Estão perdidos?”, riem-se. Dois dedos de conversa é quanto baste para nos convidarem a entrar. Nas traseiras da vivenda, há muito que o dia começou. Desde as 5h que ali funciona uma destilaria improvisada. Dois alambiques pingam para pequenos baldes a aguardente feita com o bagaço que sobrou das vindimas. Alguns garrafões já estão cheios, outros tantos esperam pela receita caseira. “O meu pai é que fazia sempre. Só comecei depois de morrer, há dois anos”, conta Carmelinda, 63 anos. A professora primária, aposentada, vive no Sabugal, mas volta regularmente à terra. A prima Irene, 76, sempre viveu cá.

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Passo a passo, Carmelinda e Irene guiam-nos pelo processo de destilação. Depois fazem o teste. “Para saber se está forte ou não, põe-se um bocadinho no copo e atira-se para as chamas.” As labaredas pouco reagem, o trago que nos oferecem confirma: está a ficar fraca. Não tarda, encherão de novo o alambique com mais engaço e o processo repete-se o dia fora. Mas isso ficará para depois, que agora querem ir mostrar-nos o antigo lagar da família. Ainda se lembram das uvas serem ali pisadas como manda a tradição mas, hoje, as pequenas máquinas arrumadas a um canto dão conta do serviço. “Já está tudo a acabar.”

Passamos pela fonte de água férrea que, segundo a lenda da aldeia, “eram muito boas para as dores de estômago, e batemos ao portão de Zé Fernandes. “Vão lá, que eles também estão a fazer aguardente”, tinham sugerido Irene e Carmelinda. O velho alambique de cobre - “o primeiro da aldeia” - pinga bagaço a todo o vapor, com teor alcoólico de queimar por onde passa. Nas brasas que aquecem o aparelho, uma grelha assa o almoço comprado no talho de Adérito. Tiras de entrecosto e iscas, para aviar com fatias de pão. Zé Fernandes é emigrante em França, mas regressa regularmente a Vale das Éguas, para descansar, tratar da casa e dos terrenos e voltar com os produtos da terra.

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Despedimo-nos e descemos até à praia fluvial de Vale das Éguas, lugar de “visita obrigatória” a quem visita a aldeia. “Aconselhamos sempre. E que façam a pé, porque tem outro encanto. É um caminho muito bonito, seja de Inverno ou de Verão”, sugeria Carla. A estrada por entre os muros de pedra dos terrenos vizinhos está coberta por um manto de folhas amarelas e laranjas num Outono de postal. No fundo do vale, o rio Côa surge plácido entre a vegetação. Ouve-se uma represa numa curva do rio, no lado oposto a água salta entre árvores, rochedos e musgo. Não se vê vivalma, apenas um antigo moinho e uma zona balnear à espera da próxima época. No Verão, há um pequeno café, caiaques, escorregas e uma piscina para os mais novos.

O percurso pedestre continua pela outra margem e é uma das muitas sugestões que a família Proença incluiu num dossier de actividades e locais para conhecer na região. A versão em PDF é entregue no momento do check-in online. Há outro impresso em casa. Propostas não faltam. Diferentes caminhadas e trilhos para bicicletas. Visita aos vestígios arqueológicos de Caria Talaia, a povoação fortificada que dá nome ao alojamento. Sem esquecer os castelos, as aldeias históricas, as serras da Estrela e da Malcata ou um roteiro gastronómico com os restaurantes a experimentar na região. Aventuras para os próximos capítulos.

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