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Raríssimas são as excepções

O caso da Raríssimas é uma raríssima excepção que não deve, nem pode, prejudicar o funcionamento de centenas de IPSS que precisam dos apoios que não raríssimas vezes são insuficientes

Este fim-de-semana o país foi abanado não por uma, mas por duas tempestades Ana. E se a primeira fez muitos estragos, alguns feridos e uma morte, mas já abrandou, a outra continua a agravar-se. Ana Leal, repórter da TVI, liderou uma investigação à gestão de Paula Brito e Costa, presidente da Raríssimas, uma Instituição Particular de Segurança Social (IPSS) de apoio a crianças e adultos com doenças raras.

A reportagem transmitida no sábado pode ter sido uma boa notícia para uns e uma má notícia para outros, mas foi inequivocamente uma péssima notícia para uma grande minoria. É que se pode ter sido boa para a oposição PSD/CDS, desde logo por fragilizar agentes do Governo, não chega a ser óptima porque o deputado Ricardo Baptista Leite teve a infelicidade de estar no sítio errado, à hora errada — ou poderia ser já o convite um truque de tamponamento? Fez bem em recusar tomar posse, mas o seu envolvimento impediu o seu partido de criticar os envolvidos socialistas tanto quanto gostaria e tanto quanto a situação merece.

Será má notícia para o Governo de esquerda, leia-se PS, pelos mesmos motivos pelos quais foi boa para a oposição PSD/CDS. Por mais uma vez, depois da árvore genealógica de José Sócrates e de Carlos César, a família socialista volta a ter protagonistas e figurantes em mais um caso que funcionava “muito bem” entre portas.

Menos má para o Governo de Costa (disclaimer: Paula Brito e Costa não é sua familiar), que só durante 2017 resistiu a Pedrógão Grande, a Tancos e ao Panteão. Não seria, portanto, um caso de meia dúzia de milhares de euros, numa IPSS premiada, apadrinhada pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, por Maria Cavaco Silva e pela Rainha de Espanha Letícia, e com um esquecido Secretário de Estado envolvido, que iria abanar a confiança e determinação da sua governação. Aliás, se o clima e as alterações partidárias na Protecção Civil já o atraiçoaram com Pedrógão, desta vez a tempestade Ana, a meteorológica, pode até ter em parte dissolvido uma tempestade maior, a jornalística, com o caso Raríssimas.

Pois mais que com Pedrógão, Tancos ou o Panteão, o aproveitamento político com o caso Raríssimas pode ser verdadeiramente consequente, não para o Governo nem qualquer partido político, mas para quem injustamente ficará perdido e esquecido nos destroços da polémica. É que se de boas e más notícias vivem alguns meandros do bailado político-partidário, e de polémicas e escândalos se vive no espaço público do comentário e do escrutínio, há quem de facto sofra com esta situação. A reportagem de Ana Leal foi sim uma péssima notícia, não para quem governa ou faz oposição, mas para quem precisa de uns e de outros, para se financiar, para se proteger, para sobreviver: todas as IPSS que à custa desta excepção verão o seu meritório e nobre trabalho colocado em dúvida, potencialmente sofrendo golpes de desconfiança por parte de quem as apoia e de quem em si acredita.

Esta desconcertante notícia não tem maiores vítimas que os familiares e os cidadãos apoiados pela Raríssimas, muitos deles com doenças ainda por diagnosticar, e que correm o risco de perder um referencial naquilo que são as suas esperanças. Paula Brito e Costa não é a Raríssimas. Não é justo passarmos a olhar para esta e outras IPSS apenas com dúvida, desdém, descrença ou distância. Não podemos, enquanto sociedade, demarcar-nos destes cidadãos. O caso da Raríssimas é uma raríssima excepção que não deve, nem pode, prejudicar o funcionamento de centenas de IPSS que verdadeiramente precisam dos apoios que não raríssimas vezes são insuficientes.

O Estado não vai a todo o lado, nem irá no futuro a todo o lado. As IPSS, as associações, fundações e outro tipo de organizações continuarão a funcionar e a procurar chegar onde o Estado não vai, promovendo uma sociedade civil forte e colaborativa. E isto, apesar das tentativas fracassadas de aproveitamento político contra tudo o que está fora da esfera estatal por parte dos saudosos da centenária revolução bolchevique.