Opinião

Pobreza mundial, hipocrisia ocidental?

A pobreza e a fome mundiais são problemas tão dramáticos como complexos, mas um dos fatores que mais contribuem para as manter é, precisamente, alguma hipocrisia ocidental.

Todos gostam de exibir o apoio a causas elegantes. Por vezes fazem-no para, no fundo, esconder de si próprios as suas consciências desconfortáveis. Uma dessas causas de fácil defesa é a da luta contra a pobreza no mundo.

Infelizmente este tipo de causas, apelativas para aplacar consciências e promover mediatismos pessoais e institucionais, tem o potencial para facilmente se transformar em rituais ricos em estéril simbolismo mas vazios de substância.

É, obviamente, facílimo e intelectualmente chique fazer discursos contra a guerra e a fome, ou participar em emotivas manifestações, antes de alguns ativistas debandarem em grupos alegres que passam um bom bocado de cavaqueira no bar da moda, entre cervejas e pregos, bebidas nada baratas e petiscos, gastando numa hora de sofreguidão mais que cada um entre milhares de milhões de seres humanos possui para comer e sobreviver miseravelmente durante uma semana.

Claro que é bem menos aparatoso o facto de muito menos pessoas tentarem fazer, sem alarido, algo para minorar esses dramas. É bem mais confortável entoar discursos e empunhar cartazes. Numa sociedade em que muitos preferem a maquilhagem dos comportamentos públicos à seriedade sóbria da verdadeira intervenção, uma das maiores ameaças coletivas é o facto de muitos julgarem que, com palavras de ordem, são ativistas. Vestir o hábito do monge nunca faz um monge, mesmo que esse hábito seja exibido com petulância e alarido.

A pobreza e a fome mundiais são problemas tão dramáticos como complexos, mas um dos fatores que mais contribuem para as manter é, precisamente, alguma hipocrisia ocidental.

A Europa é pródiga na luta contra a pobreza mundial, essencialmente nos cartazes e nas declarações mediáticas. Mas recordo-me de, na União Europeia, cada vaca receber diariamente, só de subsídio comunitário protecionista, mais do que metade dos seres humanos existentes no mundo têm individualmente para comer.

A solidariedade entre os trabalhadores do mundo é proverbial nos discursos políticos. Os trabalhadores e os governos europeus e americano compreensivelmente defendem os seus próprios postos de trabalho, para o que tratam de proteger enormemente os seus mercados perante a competição global (leia-se, designadamente a competição dos países mais pobres). Contudo, os países pobres, para se desenvolverem, necessitam de ter mercados (que não têm internamente), o que significa que lhes é vital o acesso aos mercados ricos. Mas estes, nomeadamente os europeus, protegem-se da competição externa, com o pretexto de proteger os seus próprios postos de trabalho. Assim, ao fazê-lo impedem a criação de postos de trabalho nos países pobres, onde a fome e a miséria persistem por incapacidade de desenvolvimento.

Estranhamente, a União Europeia habituou-se a lançar nos mercados pobres produtos excedentários subsidiados, que desse modo passaram a ser vendidos a preços artificialmente baixíssimos nos países em desenvolvimento, arrasando os respetivos produtores.

Tudo, em síntese, em nome da proteção do emprego e da riqueza nos países europeus. O que significa manter o desemprego e a pobreza nos países pobres. Enquanto elegantemente se condena a pobreza no mundo em frente das câmaras televisivas.

Quando, no passado, empresas têxteis inglesas fecharam fábricas nos seus países (onde lançaram trabalhadores ingleses no desemprego) para abrir fábricas em Portugal onde os custos eram mais baixos (e onde criaram empregos para portugueses) todos ficaram aqui satisfeitos, sem se preocuparem com os desempregados em Inglaterra. Mas quando as fábricas em Portugal fecharam para se abrirem outras noutros países mais baratos e pobres, onde iriam criar postos de trabalho para sair da pobreza, em Portugal essa deslocação foi vista como um símbolo do Mal.

Lamentavelmente a incoerência humana, em especial a dos que mais vociferam, é enorme. Naturalmente, compreende-se que cada um veja em especial os seus interesses. Mas o que é incoerente é, depois, fingir que existe muita coerência, muita preocupação com os outros, grande solidariedade com os que são mais pobres.

A fome e a pobreza no mundo exigem, no plano imediato, uma ajuda financeira significativa. Mas estaria o cidadão português disposto a aceitar um novo imposto europeu para enviar fundos que estanquem as mortes por fome no Terceiro Mundo? Para além da fome imediata, é necessário criar atividade económica nos países pobres, para que assim eles se sustentem no futuro, com dignidade. Mas estarão os trabalhadores europeus dispostos a sorrir enquanto os investimentos são canalizados preferencialmente para esses países, em detrimento da Europa? E depois estarão abertos a aceitar nas lojas europeias os produtos desses países, sem limitações, o que pode significar produtos mais baratos com os quais algumas nossas fábricas não possam competir e que assim fechem?

Mesmo relativamente a valores humanos que parecem óbvios a situação é embaraçosamente complicada. Por exemplo, todos nós achamos quase criminoso que uma criança trabalhe. Mas a nossa memória é curta, pios ainda não há muitos anos crianças trabalhavam legalmente em toda a Europa, não necessariamente em trabalho pesado. No entanto, países cujo grau de desenvolvimento é muito mais atrasado do que quando havia empregadas domésticas com 14 anos em Portugal, registam ainda trabalho infantil. O Ocidente explode de raiva moralizadora perante o que fez até há pouco. Terão os cidadãos que conhecem a miséria do mundo pobre através dos telejornais, que a veem de pantufas com uma cerveja na mão, alguma noção do que é o horror visto no mundo real? Terão a noção de que o trabalho de muitas dessas crianças não é um ato de pais ignorantes e insensíveis mas de famílias com fome e miséria terríveis, onde um pouco de dinheiro adicional por mês pode assegurar a sobrevivência de muitos irmãos pequenos? Terão noção de que chegar a esses países e proibir súbita e linearmente o que até há pouco tempo nós próprios fazíamos lança rapidamente as crianças desempregadas nos circuitos da prostituição e mesmo da escravidão? Não será esta atuação, apesar de bem intencionada, por vezes irresponsável nas suas reais consequências?

Não há soluções simples, nem fáceis, nem miraculosas. Mas elas existem. Todavia, parte das soluções exige um esforço e uma cedência da nossa parte. Este é o maior problema, o facto de o Ocidente ser pródigo em fingimento mediático, escondendo-se atrás de falsos discursos moralistas cuja função é a de iludir a consciência pesada da nossa sociedade e a de pseudo-ativistas perante um drama pavoroso.

Por mais que o Ocidente fale da fome e da pobreza no mundo, a verdade é que é parcialmente culpado dessa situação. Designadamente, muitos dos que delas mais ruidosamente falam.