Crítica

Um rosto na multidão

“Raramente li testemunho de uma alma tão inclinada ao absoluto”, diz Olivier Rolin. E nós subscrevemos.

Era tal o número de intelectuais, académicos e cientistas ali confinados que o campo de Solovki tinha vida cultural própria
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Era tal o número de intelectuais, académicos e cientistas ali confinados que o campo de Solovki tinha vida cultural própria

As ilhas Solovki (ou Solovetsky), no Mar Branco, a oeste de Arkhangelsk (Arcangel, dizia-se outrora em português desataviado), tornaram-se um lugar de incipiente peregrinação turística desde que a UNESCO as arrolou ao Património Mundial em 1992. Mas durante muitos séculos o arquipélago foi, sobretudo, lugar de peregrinação espiritual e penitencial, esta última devendo ser entendida no duplo sentido religioso e profano-penal. Com efeito, se ali existiu desde o século XV um afamado mosteiro-fortaleza (hoje, de novo na posse da Igreja Ortodoxa Russa), a ilha maior de Solovki era usada, já no tempo de Ivan, o Terrível, para encarcerar e punir os malquistos pelo czar. O mosteiro foi encerrado em 1920 pelo emergente poder soviético, mas a utilidade punitiva do lugar não foi desperdiçada e três anos depois aflorou ali a primeira ilha do arquipélago do Gulag mapeado por Soljenítsin. Nos anos inaugurais, era tal o número de escritores e de intelectuais, de académicos e de cientistas ali confinados (além dos presos por delitos comuns) que o campo de concentração de Solovki tinha uma vida cultural própria, produzindo um jornal, espectáculos de teatro, etc. Depois, o cumprimento dos planos quinquenais e a construção do canal que liga o Mar Branco ao Báltico (entre outras conveniências) transformaram Solovki num campo de trabalhos forçados fornecedor de mão-de-obra escrava. Até ao seu encerramento, em 1939, terão passado por lá, ou lá morreram ou foram executados, mais de 80 mil seres humanos. Há, sobre este campo, um acessível filme da documentarista russo-americana Marina Goldovskaya (em inglês tomou o título “Solovky Power”) que colige imagens de arquivo, mudamente eloquentes, que reportam uma visita encomendada no final dos anos 20 a Maximo Gorki para branquear a imagem do campo e testemunhos, registados por altura da realização do documentário em 1988, de vários sobreviventes, entre os quais o do conhecido académico Dmitri Likhachev (1906-1999). A autora de Revoltada não se conta no número das testemunhas entrevistadas por Goldovskaya. Evgénia Iaroslavskaia-Markon foi executada em Solovki no dia 20 de Junho de 1931.

Olivier Rolin também se interessou pela história trágico-política das ilhas do Mar Branco, resgatando a memória de outro condenado de Solovki, Alexei Feodossievitch Vangengheim, no romance O Meteorologista (publicado em Portugal em 2015).

No prefácio do presente volume (prefácio que mereceria melhor revisão, seja dito de passagem), o escritor francês conta como, no decurso de uma viagem que fez às Solovki em 2012, tropeçou num retrato fotográfico de Evgénia (feito, aliás, em Berlim em 1926 e reproduzido na capa desta edição), que o fascinou: “A força, a violência mesma que emanavam deste perfil de guerreira pareciam pedir uma história. Era preciso que estes traços ganhassem vida, falassem”. Tais traços falam e ganham vida em Revoltada, título inventado por Rolin para a edição francesa do depoimento policial de Evgénia Iaroslavskaia-Markon — a sua autobiografia ou, talvez melhor, a sua “autonecrologia”, como a própria sugere. A história ansiada por Rolin, afinal, fora já contada pela mulher “com qualquer coisa de inflexível” retratada na fotografia. Irina Fligué, investigadora de São Petersburgo, explica no extenso posfácio como descobriu o texto em 1996, nos arquivos da extinta KGB de Arcangel, no meio de vários outros “documentos processuais” respeitantes a Evgénia — “protocolos de interrogatório, despacho da acusação e sentença” (alguns dos quais constam nos anexos deste volume). A autobiografia seria publicada pela primeira vez em 2001, numa tradução inglesa, para uma antologia sobre mulheres nas prisões soviéticas; sete anos depois foi publicada em russo.

Nascida em 1902 em Moscovo, numa família judia da burguesia intelectual, Evgénia Markon cresceu em São Petersburgo. Adolescente, acolheu a Revolução de Outubro com “entusiasmo ideológico” mas em 1921, na sequência da repressão da revolta dos marinheiros em Kronchtadt, começou a antagonizar a ala bolchevique, já “entorpecida de poder”. No ano seguinte concluiu o curso de Filosofia e conheceu Aleksandr Iaroslavski (1896-1930), um poeta frequentador dos meios anarquistas e vanguardistas que (ainda) fervilhavam na Rússia, um “biocosmista”, grupelho literário também frequentado por Likhachev (o linguista do filme de Goldovskaya, se bem se lembram). Casaram. Atropelada por um comboio, em Março de 1923, Evgénia ficou sem os dois pés, o que não impediu o casal de viajar pelo país, escrevendo, doutrinando a favor do ateísmo e da literatura, polemizando. Em 1926 viajaram até Berlim, colaborando aí com a imprensa dos expatriados russos. Regressaram a São Petersburgo em 1927 e no ano seguinte o poeta foi enviado para Solovki, por causa da aventura berlinense. Evgénia sentiu-se livre para testar um confessado fascínio, tão ideológico quanto romanesco, pelos párias e marginais da sociedade. Apanhada a furtar, foi desterrada em 1929 para a Sibéria, de onde se escapou no ano seguinte, com o objectivo aparente de ajudar o marido a fugir do campo de concentração. Detida num porto do Mar Branco, será também encarcerada em Solovki. Aleksandr Iaroslavski foi fuzilado no final de 1930, Evgénia Iaroslavskaia-Markon foi executada meio ano depois. Na colina de Sekirnaia. A tradução portuguesa (que apenas uma vez, a páginas 57, nos intrigara com uma incerta “doença de mar”) chama-lhe “montanha”, mas é um manifesto exagero.

“Raramente li testemunho de uma alma tão inclinada ao absoluto”, afirma Olivier Rolin. Subscrevemos e lembramo-nos do “espinho do perdão universal” que Evgénia diz trazer “dentro do peito” e que é assim exemplificado: “E, se eu visse um polícia da Tcheka [antecessora do KGB] a afogar-se durante o banho, então, sem hesitação, estender-lhe-ia a mão para lhe salvar a vida — isto, é claro, não me impede de, estando esta mesma pessoa a desempenhar os seus cargos, a fuzilar como a um cão […]”. Ocorre-nos, também, a maneira voluntariosa como, após a “vergonha da saciedade tranquila do lar paterno” sentida na infância, decide “passar fome” durante uns tempos. Adiante, e com a lucidez de quem se livrou da trela ideológica, sublinha que todo e qualquer poder “tende a sustentar-se e não a derrubar-se” e que é por isso que “o comunismo agora é revolucionário em todo o mundo, excepto na URSS” e que “o Governo soviético tornou-se já não apenas conservador, mas, mais do que isso, contra-revolucionário”. Recordemos que o texto está datado de Fevereiro de 1931.

Evgénia Iaroslavskaia-Markon começa, à maneira de Marco Aurélio, por pagar tributo aos seus maiores, as “três forças equivalentes” que a formaram — o pai (filólogo e historiador hebraísta), os tios e as tias maternos (“honestos até não poder mais, intransigentes até à loucura, cheios de convicções até à perda de perspicácia”), a governanta alemã, à qual atribui a responsabilidade pelo “estranho […] patriotismo” que sente por tudo quanto seja alemão (“Até a monarquia dos Hoenzollern jamais me causava tanto asco como a monarquia dos Romanov”); e termina, à maneira de Genet, com a orgulhosa assunção da mais desprovida marginalidade, o elogio da vagabundagem e do furto e um “desprezo encantador em relação tanto a materialistas como idealistas — para além do qual já não há para onde ir”. Eis uma vida magnificamente contada, a vida de uma “eterna peregrina”. Fechado o livro, Evgénia Iaroslavskaia-Markon deixou de ser só um nome. Tornou-se (mais) um rosto familiar na multidão anónima e monstruosa da estatística do Gulag.

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