FC Porto-Benfica, o clássico da revolução contra a continuidade

Nesta sexta-feira, no Dragão, será o “novo” FC Porto de Sérgio Conceição, que não é assim tão novo, contra o “velho” Benfica de Rui Vitória, que não é assim tão velho.

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O primeiro embate da temporada entre FC Porto e Benfica pode oferecer um novo líder ao campeonato JOSÉ COELHO/Lusa

Jogo especial, dois candidatos ao título, resultado imprevisível, três pontos que valem mais que três pontos, pode mudar muita coisa ou pode ficar tudo na mesma. São expressões que se utilizam, pelo menos, duas vezes por ano para se falar dos confrontos entre FC Porto e Benfica, com mais ou menos validade consoante a altura da época em que acontecem, ou de acordo com o momento de cada um deles. O desta sexta-feira, no Dragão, acontece ainda a época não vai a meio, em que as expectativas das duas equipas estão intactas e a diferença pontual é demasiado curta para transformar este clássico à 13.ª jornada num daqueles clássicos decisivos. Servirá, no entanto, para testar duas coisas: se este FC Porto reinventado por Sérgio Conceição vai confirmar o domínio das primeiras 12 jornadas: se este Benfica de Rui Vitória continua a ser o Benfica campeão dos últimos quatro anos.

Na abordagem à época, e no que à liderança técnica diz respeito, FC Porto e Benfica seguiram caminhos opostos de acordo com o seu passado recente. Depois de quatro anos seguidos sem ganhar e das apostas falhadas em Paulo Fonseca, José Peseiro, Julen Lopetegui e Nuno Espírito Santo, Pinto da Costa promoveu o regresso ao Dragão de um antigo jogador do clube, ainda a consolidar uma carreira de treinador, mas sem ter sido testado num clube com ambições. Antes do FC Porto, Sérgio Conceição tinha andado por Olhanense, Académica, Sp. Braga, Vitória de Guimarães e os franceses do Nantes, mas esta tinha tudo para ser uma promoção envenenada porque o antigo internacional português teria de fazer muito com pouco.

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Na verdade, o novo FC Porto de Sérgio Conceição não é assim tão novo como isso. É uma espécie de equipa “low cost” – em rigor só houve uma contratação, o guarda-redes brasileiro Vaná, que nem joga. Com Conceição, muita gente que não contava para outras gerências teve uma segunda oportunidade e aproveitou-a. Ricardo Pereira, José Sá, Moussa Marega e Vincent Aboubakar são os grandes triunfos da reciclagem de Conceição, que pegou na consistência defensiva do seu antecessor e acrescentou-lhe vertigem atacante, chegando a esta fase do campeonato em primeiro, sem derrotas, com o melhor ataque (31 golos marcados) e a melhor defesa (cinco golos sofridos).

Sustentado em mais uma época de muitas conquistas, o Benfica não mexeu na liderança técnica, e Rui Vitória avançou para a sua terceira época no comando dos “encarnados”, já com dois títulos de campeão no bolso. Mas, tal como o FC Porto não é uma coisa nova, este Benfica também não é uma continuidade total em relação à última época. Uma coisa não muda: Jonas continua a ser decisivo. Os problemas do Benfica têm sido outros e têm a ver com a sucessão dos que saíram e com a falta de alternativas para os que ficaram e que não estão ao mesmo nível do passado ou sem a consistência exibicional necessária (Pizzi, Luisão, Salvio, Rafa, Cervi).

Ederson, Lindelöf, Nélson Semedo e Mitroglou foram saídas compensadas apenas no plano financeiro porque os seus sucessores não atingiram, por enquanto, o mesmo patamar e isso tem-se visto, sobretudo, na Liga dos Campeões. Rui Vitória tem conseguido inventar soluções nas duas épocas anteriores com a promoção de alguns jovens e, este ano, está a tentar fazer o mesmo. Duas delas (Rúben Dias e Krovinovic) parecem estar a resultar no imediato, outras a precisar de mais tempo (Felipe Augusto, Diogo Gonçalves) e até a baliza tem sido um problema (só falta mesmo jogar Paulo Lopes). Ainda assim, e com todas as condicionantes, o Benfica entra para esta jornada a três pontos da liderança, com o segundo melhor ataque (29) e a segunda melhor defesa (8), e com possibilidades de apanhar a formação portista – se no topo, ou não, depende do que fizer o Sporting, que está entre os dois, frente ao Belenenses, em Alvalade.

Os momentos

Este é um “clássico” antecipado para uma sexta-feira porque acontece antes de uma jornada europeia em que FC Porto tem a possibilidade forte de se qualificar e em que o Benfica vai tentar não acabar a zeros. Liga dos Campeões à parte, este parece ser um momento em que os portistas apresentam, pela primeira vez na época, alguma vulnerabilidade, e em que os “encarnados” parecem estar em retoma.

As aparências são sugeridas pelo que ambos fizeram no último fim-de-semana, mas não só. Pela primeira vez nesta temporada, o FC Porto já não ganha há dois jogos, depois dos empates consecutivos com Besiktas e Desportivo das Aves, e uma eliminatória da Taça de Portugal muito apertada com o Portimonense – uma derrota iminente por 2-1 aos 90’, transformou-se numa vitória por 3-2 na compensação. Já o Benfica, se não contarmos com as derrotas na Champions, está a mostrar-se suficiente para consumo interno, como provam as seis vitórias consecutivas entre taça e campeonato, a última das quais um 6-0 ao Vitória de Setúbal – mas algumas com alguns sustos, como em Aves ou frente ao Olhanense.

Conceição vs. Vitória

Foram ambos jogadores e, com uma diferença de quatro anos na idade, até foram contemporâneos, mas nunca se cruzaram no campo. O beirão Sérgio Paulo Marceneiro da Conceição, 43 anos, foi um extremo direito com uma carreira longa e recheada de títulos, e um dos jogadores-referência da selecção portuguesa durante quase uma década. O ribatejano Rui Carlos Pinho da Vitória, 47 anos, teve uma carreira mais curta e de pouca projecção enquanto médio (o máximo que chegou foi à segunda divisão), optando pela formação académica enquanto jogava, e chegou a dar aulas de Educação Física nos anos finais da carreira e nos primeiros como treinador.

Depois de uma aprendizagem dividida entre Vilafranquense, juniores do Benfica e Fátima, Rui Vitória teve a sua primeira oportunidade como treinador de primeira divisão no Paços de Ferreira em 2010-11 e, na época seguinte, já estava no Vitória de Guimarães. Foi nesta época que Sérgio Conceição teve no Olhanense o seu primeiro emprego como treinador principal, ele que tinha sido director-desportivo do PAOK Salónica (último clube da carreira) e adjunto do Standard Liége (onde também jogou). Foi nesta época que as carreiras de ambos se começaram a cruzar, com Rui Vitória a guardar as melhores memórias dos nove confrontos entre ambos.

O saldo é francamente favorável ao técnico do Benfica, que ganhou cinco dos nove confrontos, perdendo apenas um (e três empates). O único triunfo de Conceição aconteceu num jogo da Taça de Portugal, um derby do Minho que foi favorável ao Sp. Braga, no D. Afonso Henriques, por 2-1. Como treinador do V. Guimarães, Vitória defrontou sete vezes Conceição e ganhou três vezes (2-0 ao Olhanense, 3-0 à Académica e 1-0 ao Sp. Braga) e empatou outros três (2-2 com Olhanense, 0-0 com Académica e com Sp. Braga). Como técnico do Benfica, ganhou duas vezes ao Vitória de Sérgio Conceição, ambas por 1-0.

Francamente desfavorável é o saldo de Rui Vitória frente ao FC Porto, a quem nunca conseguiu ganhar em 17 jogos como treinador de seis equipas diferente – pode considerar-se uma excepção uma eliminatória da Taça da Liga enquanto treinador do Fátima, com um empate ao fim de 120 minutos e triunfo nos penáltis. Perdeu 11 e empatou seis (dois deles no Dragão), sendo que, enquanto treinador do Benfica, empatou dois e perdeu dois. Já Sérgio Conceição, conseguiu duas vitórias e um empate em dez jogos – o empate foi no banco do Olhanense, e ambas as vitórias foram como técnico do Sp. Braga. E como jogador de Felgueiras (2), FC Porto (7) e Lazio (2), Conceição venceu sete e perdeu quatro dos 11 jogos em que defrontou o Benfica, sem ter marcado qualquer golo.

Renovação na baliza

Tanto Rui Vitória como Sérgio Conceição promoveram uma renovação nas balizas de FC Porto e Benfica, quando tinham à sua disposição dois “monstros” do futebol mundial chamados Iker Casillas e Júlio César. Se o espanhol vai aceitando, por enquanto, a suplência, o brasileiro anunciou nesta semana o fim da sua ligação ao clube da Luz, ele que foi o guarda-redes mais utilizado nos anos do tetracampeonato para os “encarnados”.

Nesta sexta-feira, quase de certeza que estará Bruno Varela na baliza do Benfica, enquanto José Sá, com ainda maior grau de certeza, irá estar a guardar as redes do FC Porto. E há um ponto em comum entre Sá e Varela: ambos passaram pela formação do Benfica e coincidiram na mesma equipa de juniores, embora Sá apenas tenha passado época e meia no Seixal, rumando depois ao Marítimo.

Depois de duas épocas e pouco atrás de Casillas, José Sá parece firme no “onze” do FC Porto, uma decisão que Sérgio Conceição justificou, não por questões de (in)disciplina, mas por aparente menor aplicação nos treinos. A verdade é que o espanhol passou a ser o guarda-redes das taças, enquanto o jovem português, que já tinha algum andamento competitivo no Marítimo antes de aterrar no Dragão, é o dono do lugar no campeonato e na Liga dos Campeões, um estatuto que, provavelmente, lhe irá valer um lugar nos eleitos de Fernando Santos para o Mundial do próximo Verão.

Bem menos seguro parece o lugar de Bruno Varela no “onze” dos “encarnados”. Depois de uma formação quase total no Benfica (dos infantis à equipa B), Varela conquistou a sua independência à beira do Sado, com uma excelente época no Vitória de Setúbal que “obrigou” o clube da Luz a repescá-lo para ser uma segunda opção. Só que Varela, com a lesão de Júlio César, passou a primeira escolha, estatuto que perdeu para Mile Svilar depois de um erro comprometedor no Bessa, e que reconquistou com a indisponibilidade do jovem belga – que pode bem voltar à titularidade no Dragão, mas só Rui Vitória saberá.