Crítica

O apelido de Charlotte

Este é o primeiro álbum onde Charlotte é verdadeiramente Gainsbourg.

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O novo e quarto álbum de Charlotte Gainsbourg soa a libertação

Ela nunca o escondeu. É-lhe difícil gerir a herança e as comparações com o pai, o cantor, músico e ícone Serge Gainsbourg falecido em 1991, e a mãe, a actriz e cantora Jane Birkin. Aos olhos da maioria os filhos de pais famosos são uns privilegiados. Têm as portas escancaradas. Mas para os próprios por vezes pode constituir um fardo, uma sombra permanente, principalmente quando se tentam afirmar na área onde os pais alcançaram notoriedade como é o caso da actriz e cantora Charlotte Gainsbourg.

Nos três primeiros álbuns a solo que lançou, no meio das solicitações como actriz, a sua principal ocupação, essa sombra esteve sempre demasiado presente. Primeiro foi o álbum composto pelo pai, Lemon Incest (1985), quando ela tinha apenas treze anos. Mais de vinte anos depois seguiu-se 5: 55 (2006), com os Air a produzirem e Jarvis Cocker (Pulp) e Neil Hannon (Divine Comedy) a escreverem as letras, e IRM (2009), o álbum produzido por Beck. Ou seja, em todas essas incursões rodeou-se de admiradores confessos da música do pai, delegando a escrita das canções a outros.

O novo e quarto álbum soa a libertação. Quando estava na fase de preparação do mesmo, há três anos, morreu a irmã mais velha, a fotógrafa Kate Barrey, ao que se supõe por suicídio. Uma das formas que encontrou para lidar com a perda foi ela própria assumir a escrita das canções ao mesmo tempo que resolveu abandonar Paris com o marido e os três filhos e estabelecer-se em Nova Iorque. Precisava do anonimato e da distância, dos outros, e de si própria, para voltar a ser apenas pessoa, afirma ela agora.

Desta vez houve também quem produzisse o disco – o francês Sebastian – mas distanciado do universo que até aí havia abordado, provindo da geração electrónica gaulesa que também gerou os Justice, ou seja, alguém de identidade fluída, capaz de expor com a mesma descontracção tecno, rock ou R&B, ao mesmo tempo que sabe propor subtileza.

Dir-se-ia que Sebastian a entendeu na perfeição. Ela não tem um vozeirão, mas sabe adaptá-la aos ambientes electrónicos nocturnos propostos por ele, e o resultado é excelente. Ela revisitou a infância, a irmã, o pai e a mãe, explorando a memória, cantando a maior parte dos versos em francês (com alguns refrões em inglês), coisa que nunca havia feito receando as comparações com o pai Serge Gainsbourg, num álbum que acaba por resultar intimista mas também catártico.

As orquestrações com qualquer coisa de cinematográfico, os enredos electrónicos escuros mas elegantes e a performance vocal ajudam a criar um ambiente melancólico, com ela a expor um desespero controlado em canções como Lying with you ou Rest (com a ajuda de Guy-Manuel dos Daft Punk), mas também existe uma agilidade exteriorizada em canções como Deadly valentine, Songbird in a cage (com assinatura de Paul McCartney) ou Sylvia Says, transposta para uma música que espelha uma força tranquila.

Ela diz que cantar é mais complicado do que estar perante uma câmara. A filmar sente-se protegida. Cantando, sente-se exposta, e desta vez ainda mais, até porque os fluídos electrónicos injectados por Sebastian deixam imenso espaço para as palavras vogarem.

O paradoxo é que sempre que se dispôs a desviar-se propositadamente da trajectória dos pais, ficou a ideia que não o conseguiu verdadeiramente. Agora que resolveu assumir a escrita das canções e o francês, contando coisas da ordem da intimidade mas de valor universal como nunca antes acontecera e como fazia o pai, parece em simultâneo ter-se aproximado ainda mais das memórias familiares, mas também por isso parecendo agora lidar com elas de forma mais saudável. Na verdade este é o primeiro álbum onde Charlotte é verdadeiramente Gainsbourg.