Crítica

Violino contemporâneo e excelentíssimo

A comparativa menoridade da obra de Mantovani é um acidente de percurso num disco espantoso com os concertos de Rihm e Dusapin e a coerência com que Renaud Capuçon se dedica à interpretação de obras para violino contemporâneas.

Renaud Capuçon nenhum outro violinista, e muito poucos músicos, tem suscitado tanto a escrita de obras novas
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Renaud Capuçon nenhum outro violinista, e muito poucos músicos, tem suscitado tanto a escrita de obras novas Brill/ullstein bild via Getty Images

Renaud Capuçon é um músico de excepção. Excelente violinista, não se tem todavia circunscrito ao repertório padrão de solista. É igualmente um assíduo praticante de música de câmara, designadamente na companhia do seu irmão, o violoncelista Gautier Capuçon, foi fundador e é director do Festival de Páscoa de Aix-en-Provence, e por entre tão intensa actividade ainda escreveu um livro sobre um grande violinista e excepcional músico, Adolf Busch.

Há duas semanas, na Gulbenkian, no habitual concerto da temporada da orquestra, foi o solista em Mar’eh de Mathias Pintscher, com direção do próprio autor, que tem uma dupla carreira como compositor e maestro – é nomeadamente o actual director do Ensemble InterContemporain. Este facto vem na continuidade de outra característica de Capuçon, a que preenche este disco: nenhum outro violinista, e certamente muito poucos músicos, têm tanto suscitado a escrita de obras novas, neste caso de Wolfgang Rihm, Pascal Dusapin e Bruno Mantovani.

Rihm é uma figura cimeira da criação contemporânea já há largas décadas. Em reacção ao serialismo e pós-serialismo característico da “vanguarda” do pós-guerra, a sua trajectória caracteriza-se por uma acentuada expressividade que justamente tem sido considerada pós-moderna - de condição pós-moderna, entenda-se. É um dos grandes, dos maiores compositores vivos e em (incessante) actividade.

Gedicht des Malers/Poema do Pintor, obra de que o referente é Max Beckman, é à sua maneira um “retrato do artista” enquanto duplo do compositor. O caracter extremamente sugestivo da escrita solista tem um papel condutor, como que arrastando o conjunto até cúmulos de expressividade, mormente uma explosão da orquestra perto do final. É uma obra poderosíssima, extremamente apelativa.

Pascal Dusapin, outro grande compositor, tem, entre outras características distintivas, a de regularmente se dedicar à escrita de obras concertantes, casos nomeadamente de Watt, para trombone, Celo, para violoncelo, Quad para violino, A Quia, para piano , Aria para clarinete, ou Galim, para flauta – e, por inusitada coincidência, na Casa da Música (onde, em 2012, foi compositor residente) foi no passado sábado apresentada a sua nova obra, Outscape, também para violoncelo e orquestra, de que a Casa foi aliás uma das instituições responsáveis pela encomenda.

Aufgang/Elevação, o concerto incluído neste disco, é uma obra deveras extraordinária, genial. Como o concerto clássico tem três andamentos e explora estruturalmente a relação/contraste entre o violino solista e a orquestra. No início o violino plana em sobreagudos enquanto a orquestra se restringe aos graves, mas ocorre a “elevação” do título nos dois andamentos sucessivos, como que em “arrastamento” do solista, haver autênticas explosões orquestrais, pateando um domínio dos meios absolutamente magistral. É uma fabulosa obra-prima!

Terá de ser dito que, depois das obras de Rihm e Dusapin, a de Bruno Mantovani, Jeux d’eau, é bastante menos interessante. Há, de resto, uma questão, senão mesmo um enigma, no que toca a este autor: terá o notabilíssimo Le Sette Chiese sido uma excepção? O certo é que Mantovani, compositor assaz prolífero e, além disso, também actual director do Conservatório de Paris, não reencontrou a mesma imaginação fértil. Cristalinamente, o título desta peça alude a conhecidas obras, Jeux d’eau a la villa d’este de Liszt e Jeux d’eau de Ravel, essas de modo explícito, já que a referência aquática pode remeter também para, por exemplo, La mer de Debussy. Curiosamente, no entanto, não se notam sugestões de tais “jeux d’eaux”. E curiosamento também, esta obra que das três incluídas no disco é a única que não tem a menção de “concerto”, tão só para “violino e orquestra”, é a mais próxima do modelo clássico do concerto, de resto com longas passagens solistas, mas há algo de previsível no desenvolvimento musical, o que a torna menos atractiva.

A comparativa menoridade da obra de Mantovani é como que um acidente de percurso num disco globalmente espantoso com os concertos de Rihm e Dusapin e a coerência com que Renaud Capuçon, superlativamente. se dedica à interpretação de obras para violino contemporâneas.

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