Crítica

Homens e cágados

Lucky vive da condição especialíssima que é a presença de Harry Dean Stanton, e isso é irrepetível. Mas tudo indica que se deva ter atenção ao que Carroll Lynch vier a fazer.

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Em primeiro lugar, e de maneira muito física, Lucky é um filme fascinado por um corpo, um corpo dum género que não se vê todos os dias no cinema. O do nonagenário Harry Dean Stanton, figura mítica do cinema americano marginal, que morreu em Setembro passado e que teve aqui um dos seus últimos trabalhos (e simbolicamente o trabalho de despedida, visto que os planos finais são exactamente isso, um adeus). O filme é construído para ele e em torno dele, como se parte da sua razão de ser fosse inventar motivos para o filmar em movimento: os gestos da ginástica diária (por onde o filme começa), os passeios até ao diner e ao pub do semi-desértico lugarejo do sudoeste americano em que vive, a concentração perante as palavras cruzadas com que se entretém, o “zapping” entre os concursos de cultura geral na televisão, o ritual da rega do cacto que tem à porta de casa. É um filme de rotinas, em grande parte, de gestos repetidos ao longo dos dias, tanto por uma questão de disciplina pessoal como por não haver mais nada para fazer, e nesse aspecto parece ecoar, de modo mais simples, algumas coisas de Jarmusch (como o recente “Paterson”, com a sua estrutura baseada na repetição).

Mas se tudo é “realista” – “o realismo é uma coisa”, aprende Lucky com as suas palavras cruzadas – mesmo quando vacila para uma fantasmagoria com o seu quê de lynchiano (as cenas no pub, onde pontifica o próprio David Lynch como ilustríssimo secundário, à procura do cágado de estimação desaparecido), há uma “escuridão” à espreita. Um dia Lucky tem um fanico e – ele que insiste na diferença entre “being alone” e “being lonely”, “estar-se sozinho” e “ser-se solitário” – descobre-se irremediavelmente só perante o inevitável fim do caminho (solidão e fim do caminho poderosamente sinalizados por uma célebre canção de Will Oldham na versão gravada pelo vozeirão de Johnny Cash, que se ouve durante uma noite de angústia de Lucky). O filme muda um pouco a partir desse momento, sem de facto mudar grande coisa no seu modo de funcionamento: torna-se uma marcha para a aceitação, uma preparação para a morte. Se já mal distinguíamos personagem e actor, ainda distinguimos menos, e começamos a olhar – a partir da conversa com o médico – como uma espécie de astronauta a ir mais longe no cosmos do que alguém foi (porque poucos sabem o que é ir a uma idade tão avançada, o que é explorar esse território tão pouco percorrido). Continuam os pequenos gags, os encontros, os diálogos que põem uma vida em perspectiva através de fragmentos de memórias e de biografia. Mas é preciso encontrar uma forma de travar a angústia, e isso lá acaba por suceder. Nesse plano, em que Lucky sorri para a câmara antes de desaparecer no deserto (e onde finalmente aparece o cágado desaparecido, numa equiparação poeticamente eficaz: Lynch já nos tinha dito que os cágados podem viver até aos 200 anos…), é completamente impossível separar o actor da personagem, são a mesma pessoa, a encarnação é plena, a comoção do espectador é garantida.

Resta dizer que o responsável por este filme muito bonito e sobretudo muito justo é um estreante, John Carroll Lynch, mas bastante conhecido como um dos poucos character actors da actualidade que não se esquecem (foi um dos suspeitos no Zodiac de Fincher, foi o barbeiro malcriado no Gran Torino de Clint Eastwood). Certo que Lucky vive dessa condição especialíssima que é a presença de Stanton, e que isso é irrepetível. Mas tudo indica que se deva ter atenção ao que Carroll Lynch vier a fazer.