Crítica

Os três desastres

Encomenda de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, com mote no emprego da tecnologia 3D e um desconcertante alinhamento de cineastas convidados — Greenaway, Edgar Pêra e Godard juntos no mesmo filme é coisa que pouca gente terá imaginado possível algum dia acontecer.

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Greenaway, Edgar Pêra e Godard juntos no mesmo filme é coisa que pouca gente terá imaginado possível
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Outra encomenda de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, com mote no emprego da tecnologia 3D e um desconcertante alinhamento de cineastas convidados — Greenaway, Edgar Pêra e Godard juntos no mesmo filme é coisa que pouca gente terá imaginado possível algum dia acontecer. Independentemente dos méritos intrínsecos, 3x3D sofre ainda mais com o atraso de cinco anos do que Centro Histórico, porque aqui foram dois os realizadores — Pêra e Godard — a apresentar posteriormente “desenvolvimentos” dos filmes com que responderam à encomenda de Guimarães. Pêra estava já a apontar ao Espectador Espantado que recentemente estreou, Godard prolongou e desenvolveu a sua reflexão sobre as três dimensões em Adeus à Linguagem, que entre som e imagem integra, com outra amplitude, muitos elementos vistos aqui.

Face a isso, 3x3D aproxima-se bastante da obsolescência: porque o segmento de Greenaway, com o exibicionismo espampanante que lhe é característico, se reduz a uma espécie de guia interactivo “artístico” para visitantes de museu, transformando tudo — da informação transformada em texto no ecran à tridimensionalidade da imagem — em poluição visual repenicada, é inútil; e porque o filme de Pêra, que aliás está longe dos seus melhores momentos, é uma introdução pouco satisfatória à sua reflexão sobre a condição do espectador de cinema que tem uma maior consistência em O Espectador Espantado. E porque, sendo assim, só a godardianos “completistas” (se é que se pode ser uma coisa sem ser a outra) se recomenda 3x3D, pelo seu segmento, sintomaticamente intitulado Les Trois Désastres, “Os Três Desastres”, que é tudo menos uma celebração das três dimensões, antes a sua feroz crítica (em todos os sentidos do termo), duma forma que mais ninguém fez a não ser ele mesmo, uns anos mais tarde, no Adeus à Linguagem.