Sónia Baptista não quer viver neste mundo

Triste in English from Spanish, na Culturgest de 24 a 26 de Novembro, é um espectáculo fundado na tristeza e na melancolia. Uma recusa da vida no planeta tal como a conhecemos e a tentativa de fazer com que a sua voz individual ganhe um balanço colectivo.

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Sónia Baptista não quer viver neste mundo. Não é que não queira viver. Não quer é este mundo. Não é ela que está a avançar, solitária, para o abismo. É o abismo que, quando Sónia olha à sua volta, atrai um planeta inteiro para o seu interior. Em Triste in English from Spanish, performance entre o teatro e a dança que ocupa a Culturgest de 24 a 26 de Novembro, a artista designa esta condição “de não querer morrer mas ter alguma dificuldade em viver” por “viver em aspic”. Aspic, para os mais distraídos, é um prato de carne e vegetais mantido numa pasta gelatinosa. Viver em aspic significa, portanto, “um estado meio de conserva, suspenso”, de uma certa remissão do mundo que pode ser desencadeada tanto pela perda de pessoas próximas, despedimentos, desastres amorosos ou um estado de doença em que o prolongamento da passagem pela Terra se torna insuportavelmente doloroso. Todo este enquadramento lembra a Sónia Baptista um dos musicais clássicos de Hollywood, Show Boat, em que os versos de Ol’ Man River (saídos da pena de Oscar Hammerstein II) dizem algo como “I’m tired of living / I’m scared of dying”. “E às vezes a vida é assim”, sublinha Sónia Baptista. “Não é de todo feliz. Nós é que temos de encontrar alegria no meio disto tudo.”

Das grandes catástrofes humanitárias aos problemas pessoais de uma amiga, o potencial de sofrimento e de tristeza é de tal forma desmedido que Sónia Baptista afirma que, no seu caso, “não é preciso muito” para se “sentir triste”. “Aquilo que me assusta no mundo”, contrapõe, “é a procura desenfreada de felicidade, a ideia de que está tudo bem e em que não se tem noção do que se passa no quarto do lado, no prédio do lado, no país do lado, em todo o mundo.” Daí que a aparente apatia e resignação que se pudesse extrapolar de uma peça fundada no seu mergulho na escuridão da tristeza e da melancolia esteja, afinal, no outro prato da balança: “Para mim, o estado de apatia e de resignação é o dessas pessoas para quem está tudo bem, aquelas que acham que não é preciso fazer nada, que não se querem envolver nem sujar as mãos.”

A tristeza, que às tantas diz em cena ser aquilo que a “mantém de pé face ao mundo”, é defendida como geradora de acção quando transformada em raiva e zanga. “A tristeza provoca-me, leva-me, dá-me um pontapé nos fundilhos para fazer coisas, para criar”, descreve, mesmo que rejeite uma certa romantização desse estado emocional como imprescindível para a criação. Mas foi à sua “história com a tristeza, com a melancolia e com a depressão” que Sónia Baptista decidiu, há dois anos, dedicar-se para a criação de um novo espectáculo. O seu papel era evidente: só ela poderia dizer o que precisava de ser dito sobre essa história pessoal, só ela estava autorizada a ironizar e a brincar com coisas que são sérias mas que não têm de ser levadas demasiado a sério. Daí que recupere a máxima atribuída a Mark Twain de que a equação para o humor corresponde à tragédia acrescida de tempo.

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“É essa a luta – a de conseguir manter-me funcional, interessante, inteligente e engraçada em alturas que tiram mesmo a vontade de viver neste mundo ou que o mundo sequer exista. Ironizo com várias referências, desde o mais mundano ao mais pessoal, do mais triste ao mais filosófico, e faço como que o mapear de um estar aqui.” Triste in English from Spanish, que começa com um solilóquio de Sónia Baptista, vai traduzindo uma cadeia de pensamentos acerca da tristeza e da melancolia até o espectáculo se abrir a um colectivo que integra Carolina Campos, Márcia Campos, Joana Levi, Cleo Tavares, Ana Libório e Paula Sá Nogueira.

Em palco, apenas mulheres, uma espécie de declaração de que o feminismo foi essencial na sobrevivência de Sónia e que lhe permitiu ter e usar uma voz – daí que compare essa epifania ao comprimido vermelho do filme Matrix, em que “quando se toma já não se consegue não ver”, neste caso, a sociedade de modelo patriarcal e as desigualdades que grassam abundantemente em cada recanto do planeta.

Choque e assombro

Na última cerimónia dos Emmys, o elenco do filme 9 to 5 subiu ao palco declarando a recusa passada e presente em serem “controladas por um patrão sexista, egoísta, mentiroso, hipócrita e fanático”, numa referência comparação da odiosa personagem do filme a Donald Trump. Em seguida, Dolly Parton resolveu partilhar com a emissão da NBC que baptizou com “choque” e “assombro” as suas mamas. “Imaginem que estes montes que tenho no peito são faróis ou luzes de nevoeiro”, atira Sónia Baptista em Triste in English. E em seguida recupera as palavras de Dolly Parton. É um momento que, de certa forma, faz ponte com um dos momentos colectivos do espectáculo, em que as intérpretes em palco desatam freneticamente a fazer boob printing – ou seja, pintam o peito e imprimem os seus contornos em folhas de papel. É a zona do espectáculo a que Sónia chama “espaço do meio”, recuperando a tese de várias pensadoras de que esse é o lugar da melancolia, “o lugar de onde se vê tudo e que é o lugar mais tramado para se estar, onde se sente o assombro da vida, mas também o choque ao ver-se o belo e o terrível ao mesmo tempo”.

Esse “espaço do meio”, acrescenta Sónia Baptista, “é onde usamos o corpo, onde nos confrontamos e confrontamos as pessoas com aquilo que temos para dizer”. É um segundo plano, de clara fricção com a escrita que a criadora assina. Em colectivo, o registo íntimo e reflexivo do texto dá lugar a uma reivindicação em que são os corpos a produzir o discurso, a embarcar, por exemplo, numa coreografia que acompanha “as músicas mais tristes do mundo – normalmente adágios” –, usando uma ironia colhida também dos comentários públicos destes trechos no YouTube.

E há ainda o corpo estranho de um urso polar, talvez evocador de Arturo, o urso polar argentino a que foi diagnosticada uma depressão no Jardim Zoológico de Mendoza e ao qual foi atribuído o epiteto de “animal mais triste do mundo”, que se passeia pelo palco, lembrando que neste espectáculo fragmentário a linha de continuidade é mesmo uma tristeza (mais ou menos caricatural) que não arreda pé. Tudo isto acaba por acentuar duas ideias fundamentais em Triste in English: a transição, por vezes acelerada e brusca, entre um estado irónico e uma situação apática e desesperançada; e o quanto o humor e o excesso transformam o drama em melodrama. Ou seja, a forma de Sónia Baptista tentar evitar a sua queda no abismo.