Crítica

Pianista, jovem e prodigioso

Aos 25 anos, Benjamin Grosvenor é “um caso": mas que pianismo e que inteligência de programa!

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Uma extrema maturação no tocante às interpretações e na originalidade dos programas

Aos 25 anos, Benjamin Grosvenor é verdadeiramente “um caso”: o mais jovem artista a ganhar o concurso da BBC (aos 12 anos!), o mais jovem  solista no concerto de abertura dos Proms, o mais jovem músico britânico a assinar um contrato com a Decca e o primeiro pianista desde Clifford Curzon, há mais de 70 anos(!), etc., etc. O nome de Benjamin não podia ser mais apropriado para aquele a quem também chamam o ”Andy Murray do piano”, aquele músico por quem os britânicos esperaram longamente como no caso do tenista.

Mas Grosvenor, e essa é a maior das suas singularidades, nada tem do habitual “jovem prodígio do piano” assente na pirotecnia virtuosística. Pelo contrário: é um músico que mostra uma extrema maturação não só no tocante às interpretações como à originalidade dos programas.

Para nossa satisfação está a tornar-se presença regular em Portugal: depois da estreia no Festival de Sintra, actuou na Casa da Música, mais tarde na Gulbenkian e agora, de seguida, em ambas as instituições, com um recital no Porto e, num concerto orquestral, como solista no Concerto de Grieg. É razão suficiente para “recuperar” o seu último registo.

Como o disco anterior, Dances, também este é um álbum “conceptual”, reunindo obras de homenagem a autores e formas passadas ou a locais objecto de evocação. Dances tinha no entanto um senão: a não observação das repetições na Partita nº4 de Bach. Nada de semelhante sucede neste disco esplendoroso, em que Grosvenor se aventura em obras por diferentes razões tão desafiantes como, por um lado, a Chacone de Bach-Busoni e o Prelúdio, Coral e Fuga de César Franck e, por outro lado, a Barcarola de Chopin ou a Tarantela de Liszt.

A célebre Chacone é verdadeiramente um monumento, um imponente edifício que se vai construindo. Que algumas passagens mais rápidas não sejam factor de equívoco: esta é uma interpretação muito lenta, com uma variedade de ornamentos que, no entanto, não afasta nunca a solidez da construção. É magistral!

Outro imenso e desafiante edifício é o Prelúdio, Coral e Fuga de Franck. O domínio dos meios, a articulação, sobretudo da Fuga , são de uma rara inteligência musical. Entre uma e outra obra, Grosvenor colocou os hoje em dia muito raros Prelúdios e Fugas op. 35, de Mendelssohn, em concreto o nº1 e o nº5, inequívocas homenagens a Bach, em que uma cascata de sons com furor dá lugar a uma sugestão expressiva de maravilhosa sonoridade, no nº1, e em que a uma impressão de espontaneidade com um distinto cantabile se sucede uma corrente marcada por um assinalável controle dinâmico nos contrastes de forte e piano, no nº5.

Mudança não de época mas de estética com a Barcarola de Chopin (uma homenagem a uma cidade, Veneza, onde o compositor nunca esteve) e Venezia e Napoli de Liszt, mudança para o fulgor do impulso romântico, mais evocativo nas “peças venezianas”, a Barcarola e Gondoliera de Liszt, de assinalável potência todavia com passagens rápidas mas cristalinas nas “peças napolitanas”, Canzone e Tarantella.

Um único lamento: que apenas na edição digital figure Le tombeau de Couperin de Ravel, obra tão pertinente neste programa, até eventualmente mais que por exemplo a Barcarola.

Mas que pianismo e que inteligência de programa! Esperemos que Benjamin Grosvenor continue a apresentar-se em Portugal!