O mais mortífero terramoto do ano desfez as habitações sociais de Ahmadinejad

Sismo de magnitude 7,3 matou centenas de pessoas na província de Kermanshah, onde o antigo Presidente mandou construir um polémico projecto social.

A maioria das mortes aconteceram na província de Kermanshah
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A maioria das mortes aconteceram na província de Kermanshah ABEDIN TAHERKENAREH/EPA

Passavam 18 minutos das 9 da noite quando Majid Ameer sentiu o seu prédio a "dançar no ar". A experiência de uma vida no Iraque disse-lhe que tinha acabado de rebentar "uma bomba enorme" mesmo ao lado de casa – pegou nos três filhos, saiu a correr para a rua e só percebeu o que tinha realmente acontecido quando ouviu os gritos: "Terramoto!" Afinal, apesar do pânico, Majid estava em segurança no seu bairro em Bagdad – a quase 200 quilómetros de distância, na cidade iraniana de Sarpol-e Zahab, centenas de pessoas morriam em poucos minutos soterradas no sismo mais mortífero do ano.

Nestas coisas dos desastres naturais pouco importam as linhas de fronteira que são desenhadas num mapa: o epicentro do terramoto localizou-se numa zona rural já dentro do território iraniano, mas a apenas 32 quilómetros a Sul de Halabja, no Iraque; e a destruição abateu-se sobre Sarpol-e Zahab, na província iraniana de Kermanshah.

Em toda esta zona vivem quase dois milhões de pessoas num raio de 100 quilómetros, e a região mais afectada é habitada maioritariamente por curdos, na província do Curdistão Iraquiano – uma das 19 províncias do Iraque e a única semi-autónoma.

Depois do choque inicial, uma das perguntas mais repetidas era por que razão tinha o terramoto poupado um lado da fronteira e deixado o outro em ruínas. Apesar de ser cedo para se ter certezas absolutas, já foram avançadas duas hipóteses – uma impossível de contrariar, outra difícil de aceitar.

Para o sismólogo iraquiano Abdul-Karim Abdullah Taqi, do instituto de meteorologia do Iraque, houve menos vítimas no seu país "devido ao ângulo e à direcção da falha [sísmica] neste terramoto em particular, e também devido à natureza das formações geológicas no Iraque, que podem ter absorvido melhor os choques". Mesmo sem pôr em causa esta explicação, o outro lado da fronteira centrou-se na discussão sobre a qualidade das construções em Sarpol-e Zahab, uma cidade que foi destruída durante a guerra entre o Irão e o Iraque, entre 1980 e 1988.

Depois de ter caído nas mãos do Exército de Saddam Hussein, e apesar de ter sido reconquistada pelas tropas do ayatollah Khomeini logo no início da guerra, Sarpol-e Zahab continuou a servir de alvo para os ataques iraquianos. A cidade foi sendo reconstruída nas décadas seguintes, mas a zona mais afectada pelo terramoto de domingo tinha servido de modelo a um projecto especial do ex-Presidente Mohamed Ahmadinejad: o plano nacional de habitação social, chamado Mehr (bondade em farsi), previa a construção de centenas de casas em Sarpol-e Zahab, mas a sua segurança foi posta em causa desde o primeiro momento. Essa suposta má qualidade das construções terá sido uma das principais causas da mortalidade do sismo de domingo à noite, como se lê num texto publicado no site de notícias Fararu, que defende a aprovação de reformas políticas no Irão: "Antes do seu 10.º aniversário, os prédios Mehr transformaram-se em caixões para os seus habitantes."

Muito antes de se conhecer o balanço final do terramoto de domingo, as autoridades iranianas foram passando as horas a rever os números provisórios, como é habitual nestas situações – a região montanhosa entre o Iraque e o Irão, uma casa habitada pelos curdos, está povoada por várias localidades remotas, cujo acesso fica ainda mais difícil quando a terra treme e os deslizamentos tapam caminhos e casas com pessoas lá dentro. Até ao final da tarde desta segunda-feira, a Press TV iraniana dava conta de 452 mortos e 7100 feridos – mas estes números podem vir a ser muito mais dramáticos, quando se souber o destino das mais de 70 mil pessoas que terão sido directamente afectadas. Outro problema para a contagem é a realização de funerais sem autorização: os números oficiais têm como referência as certidões de óbito, mas várias famílias têm enterrado os seus mortos o mais depressa possível de acordo com o preceito muçulmano, à margem das burocracias.

As autoridades iranianas decretaram três dias de luto na província de Kermanshah, onde está localizada a cidade de Sarpol-e Zahab, onde morreu a maioria das 452 vítimas contabilizadas. No lado iraquiano morreram pelo menos sete pessoas e 535 ficaram feridas.

Muito para além de Bagdad, onde Majid Ameer sentiu o seu prédio a "dançar no ar", as ondas de choque do terramoto foram sentidas em Israel, a mil quilómetros de distância em direcção ao Oeste, e também na Turquia (a Norte) e no Kuwait (a Sul).

Ainda antes de se saber o número final de mortos, já é certo que o sismo de domingo é o mais mortífero do ano – as 452 vítimas registadas até ao final da tarde desta segunda-feira já ultrapassam os 370 mortos do terramoto de 19 de Setembro no México. Os dois terramotos mais mortíferos no Irão nos últimos 30 anos ocorreram em 1990, na província de Gilan (entre 35 mil e 50 mil mortos), e em 2003, na província de Kerman (entre 26 mil e 43 mil mortos).