Elas não servem animais, servem os animais

Maria e Elisa não são chefs, mas entram nos restaurantes, infiltram-se nas cozinhas e, pé ante pé, estão a revolucionar a gastronomia.

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Duas vegetarianas — uma há três, outra há 13 anos — e activistas entram num restaurante de francesinhas e sorriem enquanto posam para a fotografia. O que é que está errado nesta imagem? Nada.

Maria e Elisa não são chefs, mas entram nos restaurantes, infiltram-se nas cozinhas e, pé ante pé, estão a revolucionar a gastronomia, oferecendo um serviço completo e individualizado de implementação e de certificação de pratos inteiramente vegetais nos menus, proporcionando formação de confiança. “Nós servimos os animais, servimos os seus interesses”, sublinha Elisa Nair Ferreira, advogada. “Quando todos os restaurantes, por mais carne que tenham lá dentro, tiverem uma opção vegetariana, aí podemos dizer que o mundo está a mudar”, subscreve Maria Aragão, activista desde 2012 e autora do livro Omeletas sem Ovos. “Muitas pessoas nunca entrariam num restaurante vegetariano. Mais do que abrir mais restaurantes vegetarianos, eu prefiro que aumente a oferta vegetariana em restaurantes não vegetarianos”, aponta Elisa. Maria aumenta a parada: “Eu preferia que não houvesse restaurantes vegetarianos.”

Ambas são a favor daquilo a que chama “normalização do vegetarianismo” — sem “protesto” e “manifestação”, sem “urgência na mudança”, sem formas e nomes esquisitos. “Isso é um problema do vegetarianismo”, alerta Elisa, que só gostava de tomate e cenoura crua. “Fui vítima do tipo de vegetarianismo que existia. Colocavam-me à frente comida que eu não entendia o que era, não identificava o que estava a comer, bolinhas de cor diferentes. Não entendia o prato, sem nome. E os que tinham nome, era estranho. Eu não ia fixar o nome daquilo. E parecia que sabia tudo ao mesmo. As pessoas gostam da comidinha do costume.” Esse é um dos truques da Aliança Animal que inventou o programa “E o seu restaurante, já tem?”, garantindo aos consumidores que naquele estabelecimento encontrarão pelo menos alguns pratos confeccionados somente com ingredientes de origem vegetal (Veg Certification – Basic), que a ementa é constituída na sua maioria por pratos confeccionados unicamente com ingredientes de origem vegetal (Veg Certification – Premium) ou que a totalidade da ementa é constituída por pratos confeccionados exclusivamente com ingredientes de origem vegetal (Veg Certification – Excellence).

A experiência de Maria Aragão permite “derrubar mitos” nas cozinhas dos restaurantes (“Que a comida vegetariana não tem sabor, que não se consegue fazer os pratos tradicionais portugueses, que tem que se tirar o açúcar e o glúten, que é caro...”). “A Maria faz tudo”, avisa a sua “cara-metade no activismo”. Faz rojões, jardineira, feijoada... “Tudo! Eu engordei. Uma pessoa aprende a cozinhar e depois... a culpa é dela!” Por culpa delas, na zona do Porto já foram servidos vários certificados (com validade de um ano). Gelados artesanais no La Copa, tosta mista de queijo e salpicão no Café do Comércio, crepes e sorvetes na creperia La Bombarde, pizza no Hand Go, natas do céu no Alma Portuense. E, claro, cerca de um quarto do menu do Al Forno: cinco variedades de francesinha (tofu, seitan, tofu fumado, caril e de tempeh), cachorro, bife, pica-pau... “Toda a gente come comida vegetariana. Alguns só acrescentam os animais.”

Elas dizem que é tudo “muito mais simples” e “muito mais rápido”. “A preparação e os tempos de cozedura de carnes e peixes não existe. Não existe estar uma hora ou duas a fazer um assado. Faz-se um prato em dez minutos para fazer uma refeição para a família. Isso é um ponto forte do vegetarianismo”, recorda Maria Aragão. “As nossas receitas vão ao encontro dos sabores que as pessoas gostam, dos sabores tradicionais portugueses. Quem está na transição, com curiosidade, fica muito mais atraído por algo que é semelhante”, junta Elisa, consciente da importância das “memórias” e da “parte emocional da comida” na alimentação do dia-a-dia. “Se as pessoas sentirem que têm algo a perder, é mais uma dificuldade. A Maria faz todos os doces de Natal. Tudo é mais simples se a pessoa perceber que pode ter a mesma mesa. Retiramos as dificuldades e mantemos as memórias, o carinho que as pessoas têm pelas receitas.”

Elas servem os animais, facilitam a vida ao restaurante (“Ficam espantados. Não sabiam que era tão fácil”) e aos vegetarianos. “Comam descansados.”