Opinião

A morte digital

Neste tempo de triunfo da realidade virtual, já é possível a existência de uma startup cujo negócio estava antes por conta de Deus, em regime de monopólio absoluto.

Na semana em que se realizou em Lisboa mais uma Web Summit, é tempo de falar de uma startup inventada por um jovem romeno, Marius Ursache. Chama-se Eternime (http://eterni.me), e o seu negócio é a imortalidade, a eternidade. Presta aos seus clientes um serviço que consiste em evitar que eles, depois de mortos, desapareçam e sejam esquecidos: “Become virtually immortal”, anuncia a Internime no seu site, onde lemos esta pergunta que parece de uma superlativa demagogia, como a publicidade enganosa, mas é afinal bastante honesta: “Who wants live forever?”. De facto, aos assinantes é garantida a eterna sobrevivência. Mas é preciso acrescentar: sob a forma desmaterializada de espectros digitais. O serviço funciona da seguinte maneira: após uma inscrição, o cliente começa a colocar numa base de dados os seus materiais digitais, isto é, todo o património digital, de ordem pessoal, que ele acumulou ao longo dos anos: fotografias, mensagens, correio electrónico, contas nas redes sociais e demais parafernália virtual. Quando morre, o software criado por esta startup efectua uma análise de todo este material, procede a uma “escavação” e extrai os dados que lhe permitem projectar uma identidade virtual, compondo assim um simulacro da pessoa morta, um espectro electrónico daquilo que a pessoa foi na vida real. O que sobrevive é, portanto, uma identidade electrónica, completamente dissociada da existência biológica, um substituto digital da pessoa física, interactivo, capaz de comunicar de além-túmulo com as pessoas que estão ainda vivas. Que a vida digital sobrevive à vida física, já se tinha tornado evidente e por vezes inquietante. Por isso, o Facebook passou a oferecer um serviço que, mediante as provas do óbito, apaga o perfil dos mortos. Mas nem por isso o Facebook deixou de ser um gigantesco cemitério sempre em expansão, e chegará o momento em que terá mais mortos do que vivos. A ideia luminosa do jovem empreendedor romeno foi esta: em vez de fazer desparecer os mortos, para que eles não se arrastem na Net como espectros sinistros, melhor seria tornar concreta a ficção da imortalidade, através das tecnologias que criam formas de virtualidade cada vez mais perfeitas, neste tempo em que a cultura digital se introduz na existência dos indivíduos, interpondo automatismos do mundo virtual entre a vida e a morte naturais (se é que tal coisa, a “morte natural”, existe: “De morte natural nunca ninguém morreu”, escreveu Jorge de Sena). O perfil virtual que sobrevive — autónomo — ao corpo biológico responde a uma maneira problemática de lidar com a morte. Por isso, esta forma de sobrevivência eterna, inventada pela Eternime (atenção, não se trata de uma imortalidade simbólica, como a dos “imortais” que vão para o Panteão, conquistada por “obras valerosas”), inscreve-se, no fundo, numa indústria da e-morte, da morte digital — a modalidade da morte pós-humana. Há hoje um campo de investigação disciplinar, nos países anglo-saxónicos, cujo objecto é a digital death. Com este termo faz-se referência a um conjunto de questões que dizem respeito ao modo como mudou, nesta nossa época, a relação entre o indivíduo e o morte por causa do desenvolvimento das novas tecnologias informáticas e dos novos media. Há uma nova questão que se coloca hoje cada vez mais: o que acontece, depois da minha morte, aos dados que me tornam sempre presente na Rede? A esta pergunta podemos responder com esta frase de um eminente teórico da cultura digital, o austríaco Thomas Macho: “Morrer significa ser transformado na sua cópia”.