Crítica

Com a morte na alma

Marcas de Guerra encontra uma longa linhagem de filmes sobre o “regresso dos heróis”.

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Personagens sem as palavras para perceberem o que se passa com eles
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Este filme muito discreto, no melhor sentido do termo, contém uma ironia que até pode nem ser premeditada mas nem por isso deixa de ser significativa. Jason Hall (que se estreia como realizador) foi o argumentista do Sniper Americano de Clint Eastwood, e aqui, trabalhando outra vez um argumento seu e continuando a tratar da experiência dos soldados americanos na última guerra do Iraque, põe os seus protagonistas do outro lado da mira telescópica: é o tempo do “sniper iraquiano”, responsável pelos traumas que os protagonistas, apanhados numa emboscada algures numa cidade iraquiana, transportam para a vida civil depois de desmobilizados. E este — a “vida civil”, vivida com a morte na alma — é o tema que interessa ao filme, que nem perde muito tempo com o Iraque enquanto “reconstituição”, para além da abertura e de um flash-back muito rápido perto do final (embora, enquanto “assombração”, o Iraque possa aparecer em qualquer lado a qualquer momento, durante uma caçada nocturna ou num jogo de consola).

Parece, de facto, uma revisão em chave discreta do Sniper Americano, sem a grandiloquência da cultura do “heroísmo” e do fetichismo patriótico e militarista que em nosso entender (é o filme dele que nos parece mais desequilibrado) Clint não soube evitar ou não soube dosear. Tudo o que vemos, como numa peça de “americana” traumatizada, é um grupo de personagens a tentar seguir com as suas vidas numa cidadezinha do Kansas, sem possuirem as palavras ou os conceitos para perceberem o que se passa com eles. Sem retórica, sem lições de moral, sem discussões sobre a justiça ou falta dela da própria guerra, sem choradinhos paternalistas e pelo contrário com uma enorme secura, os dois primeiros terços do filme quase se resumem à história de dois homens (os óptimos Miles Teller e Beulah Koale) a aperceberem-se, através da mais simples acções e ambientes quotidianos (as famílias, os filhos, os bares e os diners), de quão psicologicamente dizimados estão. O olhar de Hall é sempre justo, nunca se põe por cima das personagens, e algumas soluções de encenação são tão estranhas como bem engendradas (como o diálogo entre marido e mulher que é “varrido” pelo som ensurdecedor da corrida de automóveis que foram ver — como se tudo fosse um convite “expressionista” ao “não dizer”, ao “não falar”).

É claro que, nisto, Marcas de Guerra encontra uma longa linhagem de filmes (quase um subgénero) sobre o “regresso dos heróis”, que frutificou especialmente depois da II Guerra e do Vietname. Mas, na sua “linha recta”, na sua escassez de peripécias aventurosas, as deambulações intimistas dos seus protagonistas sugerem-nos um equivalente, em chave realista, dos zombies de Romero ou de Carpenter ou de Dante, a exporem a peculiar relação “import/export” da América com a guerra, por norma combatida em cenários distantes, mas trazida para o seu território nas cabeças de centenas de milhares de homens (e certo, mulheres também), que por ali ficam a passeá-la para trás e para a frente, anos a fio. O filme nunca assume a pose de uma tese — não faz “sociologia” — mas precisamente por isso é capaz de ter alguma coisa poeticamente justa a propor sobre esta América de hoje, com tanta morte na alma. Como naquele plano do cemitério militar, cruzinhas a perder de vista numa terra onde não há guerra desde o século XIX.