Lu Nan já nos levou do Inferno ao Paraíso (e diz que isto é só o começo)

Da desolação resignada nos hospitais psiquiátricos chineses à harmonia transcendente tibetana, Lu Nan andou a escrever uma divina comédia em imagens durante 15 anos sem saber. Trilogia 1989-2004, no Museu Berardo, até 14 de Janeiro.

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Num hospital mental em Tianjin, sempre que sentia alguém à sua frente um paciente cego (à esq.) repetia: “Eles maltratam-me!” À falta de lugares de culto seculares, muitos cristãos chineses manifestam a sua devoção em casa. Ao centro, mulher cristã, em Shaanxi. Lu Nan esteve sete anos no Tibete, onde procurou os sinais das estações do ano

Pela descrição de Lu Nan, o espaço era muito comprido. Talvez um corredor. De um lado uma fila de janelas, do outro uma parede. O fotógrafo abriu os braços para demonstrar como a passagem era estreita. E para lembrar uma situação que viveu em 1989, logo na primeira vez que entrou num hospital psiquiátrico para fotografar, episódio que abalaria os seus preconceitos em relação aos doentes mentais e colocaria em definitivo o foco do seu trabalho num sujeito tão impreciso quanto rico: as pessoas.

Lu Nan entrou nessa ala e viu um doente muito alto e entroncado debruçado sobre o parapeito de uma janela. Continuou. Tinha a câmara ao peito, mas sentiu que não era o momento de fotografar. Percebeu que o homem o fixava com o olhar até que começou a caminhar na sua direcção. Era “extraordinariamente alto e forte”. Pensou em sair dali, mas temeu “magoar” este homem, como se o seu gesto significasse fugir de uma assombração. Foge, não foge, Lu Nan ficou congelado. E o homem aproximou-se de tal maneira de si que, mesmo que quisesse, já não lhe era possível levantar a câmara e focar. Baixou os olhos à espera do impacto, de um soco que lhe poderia atirar a cabeça contra a parede. (“Pensei, estupidamente, que poderia ficar com danos cerebrais para sempre.”) Fechou os olhos, deixou de ver. Passaram alguns segundos. O fotógrafo à espera de ser agredido. Mas nada, nenhum empurrão, nenhum soco. Lu Nan levantou então a cabeça e o que viu foi um braço estendido para um aperto de mão.

Há dias, no meio de um corredor largo no Museu Colecção Berardo, em Lisboa, o fotógrafo (Pequim, 1962), baixo e entroncado, recordou num mandarim sibilado (traduzido para inglês em tempo real por Liu Zhen e posteriormente para português por Mingyu Wu) pormenores do momento (“essa fracção de segundo”) em que as ideias feitas que levava para aqueles lugares sombrios se desfizeram como um castelo de cartas. De um lado e de outro das paredes há dezenas de fotos captadas em hospitais psiquiátricos, em casas de famílias com doentes mentais e nas ruas por onde vagueiam aqueles para quem já se esgotaram as soluções. É a primeira parte de uma longa caminhada que demorou 15 anos a concretizar, o primeiro tomo de uma trilogia que também levou Lu Nan até junto das comunidades que teimam em professar a fé católica por toda a China e depois até ao Tibete, onde as estações do ano ainda ditam a gestão do tempo e o relacionamento do homem com a natureza.

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O soco não veio. No lugar dele, apareceu uma reacção amistosa e inocente. A partir daquele dia de 1989, e ao longo da concretização destes três ensaios (que podem ser vistos no Museu Berardo até 14 de Janeiro), toda a atenção de Lu Nan foi canalizada para a tentativa de captar “as pessoas enquanto tal”, pessoas que “acontecia serem doentes mentais, ou religiosas, ou camponeses tibetanos”. E para onde quer que se olhe nas fotografias deste chinês, que já foi correspondente da cooperativa Magnum, o que se vê é um extenso retrato da condição humana, imagens onde cabem o abandono, o desespero, a violência, a dor, a resignação, a fé, a resiliência, a introspecção, o orgulho, a esperança, os afectos e a transcendência. Há quase sempre pessoas nas fotografias de Lu Nan. É perceptível como procura anular a sua presença para dar lugar aos outros. Sobretudo aos que não aparecem, os que são escondidos ou os que são mostrados segundo prismas políticos propagandísticos ou usados para preencher folhetos sonhadores de agências de viagens. Neste mergulho profundo em quotidianos arredados da imagética oficial conquistou um nível de intimidade, companheirismo e confiança que lhe valeram retratos crus (e “dolorosos”) sobre perturbações mentais, testemunhos poderosos de práticas religiosas toleradas (mas não autorizadas), registos sensíveis de gestos simples vindos de um mundo “em harmonia” que pode parecer-nos impossível, a milénios de distância. A forma serena como tantos se entregam a este extenso corpo de trabalho faz-nos crer que não houve sequer intermediário, que o fotógrafo abandonou a câmara à sua sorte e como que mágica e naturalmente foram sendo captadas imagens, que se revelaram poderosos e impressivos registos.

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Para Lu Nan, um sentimento deste tipo pode ser o maior elogio ao seu trabalho, porque sabemos como tenta convencer-nos de que o mais importante não foi ter sido ele a captar estas fotografias, mas sim (e “apenas”) o facto de elas existirem como uma tentativa de compreender um todo de forma livre e profunda. “Basta desfrutar do trabalho. A publicidade não tem sentido para um artista. Se as fotografias são boas, não importa quem as tirou; e, se não são boas, também não importa quem as tenha tirado.” A esta modéstia extrema junta-se uma capacidade para se misturar em realidades que não são directamente as suas e de criar enorme empatia com aqueles de quem se aproxima. Tudo isto com uma atitude de respeito por quem fotografa, evitando imagens abusivas ou nas quais o sujeito se possa sentir degradado pela presença do fotógrafo. “Eles sabiam [que estavam a ser fotografados]. Era como se fôssemos da mesma família. Eu estava lá como o ar. Quando estava numa terra, não saía de lá nem por um momento. Era como uma pessoa da família, como uma mesa ou uma cadeira, não sentiam a minha presença.”

O fotógrafo invisível

Lu Nan bem tenta desaparecer do mapa. Evita dar entrevistas e ser fotografado, foge de inaugurações e de outros acontecimentos públicos (mesmo os relacionados com o seu trabalho, o que torna a exposição de Lisboa uma excepção a vários níveis). Já usou pseudónimos para criar cortinas de fumo sobre a sua identidade (candidatou-se à Magnum com o nome Mao Xiaohu). Por vezes, passam três/quatro anos sem que ninguém saiba como e onde está (“As coisas boas saem da discrição”). A aura de mistério criada à volta da sua vivência e personalidade — entre o espartano, o eremita e o andarilho solitário — e da sua prática fotográfica — marcadamente simbiótica, capaz de se misturar com as realidades mais dramáticas ou com os momentos mais subtis do quotidiano — valeu-lhe epítetos como aquele que o anuncia como “o mais lendário dos fotógrafos chineses”. Não vende fotografias individualmente, apenas ensaios completos (no caso desta trilogia, 225 imagens). A fama, a fortuna ou a trivialidade do dinheiro parecem não constar do seu sistema de valores: “Não trabalho pelo dinheiro, por isso quem fixa os preços dos meus trabalhos sou eu, e não os quero muito altos. Aumento os valores muito pouco de cada vez, para manter a unidade dos trabalhos, que é o mais importante.”

Na última década, chegaram o reconhecimento internacional e as exposições em nome próprio nos EUA, em França, Espanha e agora Portugal. Ainda assim tenta tornar-se invisível, eclipsar-se. Diz quem o conhece que é “um homem puro”, modesto e evasivo a um ponto que, não fossem as provas fotográficas e os livros que foi fazendo, a sua existência poderia ser posta em causa, sobretudo no início da carreira, ao longo das décadas de 1980 e 1990. Certo é que depois de nos determos num corpo de trabalho tão cortante como aquele que está exposto torna-se difícil ignorar o que se está a ver; ou não atribuir a ninguém uma empreitada épica como a que levou a cabo ao longo de 15 anos.

Foi um sentimento deste tipo que percorreu o curador João Miguel Barros durante o festival paralelo à Art Basel Hong Kong, quando há meia dúzia de anos descobriu as fotografias de Lu Nan daquela que é a sua série mais reconhecida, O povo esquecido: as condições de vida dos doentes psiquiátricos na China. “Fiquei de boca aberta. Não estava a acreditar no que estava a ver. (...) Para quem não conhece, normalmente esta é a primeira reacção quando se começa a entrar no trabalho de Lu Nan, as fotografias dele são muito fortes.” Depois do espanto, a vontade de saber mais e de organizar uma exposição em Portugal. Há quatro anos, Barros, também fotógrafo e actualmente a exercer advocacia em Macau, conseguiu contactar o esquivo fotógrafo chinês e convenceu-o a mostrar a sua trilogia em Lisboa.

Inferno, Purgatório, Paraíso

Respeitando a noção de totalidade com que Lu Nan encara os três tomos do seu trabalho, para esta exposição o curador decidiu estabelecer um paralelismo com a Divina Comédia, o poema épico e teológico de Dante Alighieri alimentado pela experiência da viagem (a curiosidade que a move, os seus limites e perigos) e cuja composição se baseia no simbolismo do número 3. “A obra de Lu Nan é a projecção moderna de uma trilogia clássica simbolicamente representada na Divina Comédia. Cada uma das suas partes são, igualmente, projecções exemplares do que pode ser, na Terra, o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. A única diferença é que as fotografias que compõem as três partes da trilogia de Lu Nan não são parte de uma qualquer fantasia, nem contêm as alegorias desse poema imortal.” Em Lisboa, o fotógrafo chinês confessou ter lido o texto de Dante há pouco tempo, depois de ter dado por terminado este corpo de trabalho, em 2004. Mas sente-se confortável com a comparação: “Fiquei muito surpreendido com as semelhanças entre esse livro e o meu trabalho. Realmente têm algo em comum.” 

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RODRIGO ANTUNES/LUSA

Ao percorrermos as imagens de Lu Nan no Museu Berardo, não é difícil estabelecer pontos de contacto entre a palavra Inferno e o degredo humano a que foram votados tantos doentes psiquiátricos espalhados por hospitais/prisões um pouco por toda a China; entre a palavra Purgatório e o ambiente de incerteza, a experiência de uma devoção contida e esparsa (como se de um pecado se tratasse) a que estão obrigados milhões de católicos chineses; e, por fim, entre a palavra Paraíso e o clima de alegria de viver que se respira num Tibete orientado pela repetição dos ciclos da natureza, que ora trazem a abundância, o trabalho e o descanso, ora apelam à contenção, ao recolhimento, à entreajuda e ao espírito de sobrevivência.

Mas entremos primeiro no Inferno

As razões que impeliram Lu Nan a fotografar pessoas com perturbações mentais não ficaram explícitas na conversa com o Ípsilon. A resposta andou entre o claro e o evasivo. Mas lá foi dizendo que, quando decidiu tornar-se fotógrafo por conta própria, no final dos anos 1980, entre os assuntos que decidiu pôr sobre a mesa lhe interessou investigar “as condições” com que eram tratados os chineses com transtornos psíquicos. No entanto, aquele que talvez seja o seu mais poderoso ensaio até hoje (publicado em livro em 1993) afirmou-se desde logo como um dos mais acutilantes registos de um universo vivencial segregado, obliterado e maltratado, situação que, não sendo exclusiva da China, se mantinha distante da consciência colectiva.

Se permanece turva a génese da decisão que, entre 1989 e 1990, o levou a contactar mais de 14 mil pessoas em 38 hospitais, espalhados por dez províncias e grandes cidades, 100 famílias de pacientes e inúmeros sem-abrigo com problemas mentais, revela-se mais claro o caminho que quis tomar depois de ver trabalhos de outros fotógrafos que se dedicaram ao mesmo assunto e que se tornaram de referência, nomeadamente o do francês Raymond Depardon (San Clemente, 1984) e da norte-americana Mary Ellen Mark (Ward 81, 1979). Depois de os elogiar como “fotógrafos de primeira ordem, absolutamente admiráveis”, Lu Nan observou que estes dois autores “centraram os seus trabalhos no meio hospitalar”. “Eu tentei fazer algo diferente. Para eles, pessoas que sofriam de perturbações mentais eram ainda vistas mais na qualidade de doentes mentais do que pessoas enquanto tais. Para mim, é o contrário, tratava-se de pessoas que acontecia sofrerem de transtornos do foro psíquico. A outra diferença é que quis abranger as famílias e os doentes sem-abrigo para dar um corpo de trabalho completo, que oferecesse uma descrição mais aprofundada e variada das condições de vida destas pessoas.”

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Diferenças ou semelhanças à parte, aquilo que Lu Nan mostra em Povo Esquecido é um pungente retrato de um mundo marginalizado e relativamente votado à sua sorte. Há poucas imagens que não nos interpelam das mais variadas formas, da ansiedade ao desconforto, da revolta à compaixão. Vemos pessoas como zombies, homens e mulheres esquálidos, crianças desamparadas, uns acorrentados, outros encarcerados em bunkers de pedra; vemos um homem preso com cordas a uma árvore, de pé, qual S. Sebastião cravejado de setas invisíveis. Sempre que os pacientes se mostravam disponíveis, Lu Nan fazia-lhes perguntas sobre os seus percursos, na tentativa de fazer um retrato um pouco mais completo e para que o sofrimento não fosse o único elemento definidor das suas vidas. Encontrou histórias de pobreza, desamparo, abuso, ignorância e desespero. “Eles maltratam-me!”, disse-lhe um paciente cego, que sempre que se apercebia da presença de alguém repetia esta frase. “Por favor, tire-me uma fotografia. Vou morrer em breve”, pediu Meng Zhaolan, de 66 anos, no hospital de Tianjin. Apesar de um ambiente generalizado de sofrimento e agonia, Lu Nan também encontrou alegria. Em toda a série há apenas uma fotografia que revela sorrisos abertos (dois pacientes brincam aos olhos tapados), mas muitas outras mostram sinais de um mundo aparentemente harmonioso (um homem toca flauta no meio do refeitório, outro escreve cartas e outro desenha o rosto de um colega de quarto) ou mesmo de ternura, como quando, num gesto recorrente, familiares acariciam a cabeça dos doentes.

Questionado sobre se a situação hoje é diferente daquela que encontrou há 20 anos, Lu Nan revelou um cenário pouco optimista: “Houve algumas mudanças nas condições hospitalares, o tratamento que dão aos doentes mentais melhorou ligeiramente. Mas a discriminação continua.” Na China, um dos países do mundo com mais pessoas a sofrer de algum tipo de perturbação mental (176 milhões, segundo um estudo de 2009 da revista The Lancet), as profissões médicas relacionadas com o tratamento destas patologias estão entre os grupos mais desprezados da sociedade, ostracismo que se estende aos familiares dos doentes. “Para os chineses, o pior insulto que se pode dirigir a alguém é chamar-lhe doente mental.”

Depois desta experiência cheia de becos sem saída e de situações limite, Lu Nan voltou-se para as comunidades que procuram a espiritualidade e a redenção professando os rituais da fé católica, uma (imensa) minoria que, apesar de não estar agrilhoada com amarras físicas, ainda hoje vive sob a supervisão do regime chinês e proibida de manter locais de culto que não os oficiais, ou seja, fora do controlo do Vaticano.

Passemos então ao Purgatório    

Situando-se mais uma vez nas margens e empenhado em fazer “correlações” entre várias realidades sociais, a série Na estrada: a fé católica na China impressiona pelo muito que revela da capacidade de ultrapassar adversidades, os que teimam em manter uma devoção antiga, que tanto se pratica no empedrado esburacado de uma calçada, como no alto das montanhas, onde o que basta é uma cruz. Impressiona a forma relativamente secreta como se pratica uma crença e como se manifesta o apego aos símbolos que a representam. Aparecem fiéis agarrados a estátuas de santos, crentes que se ajoelham perante representações em papel. Comove a fotografia de alguém que carrega nas costas, montanha abaixo, um quadro com o rosto de Cristo, metáfora perfeita de uma igreja que não precisa de um edificado monumental para espalhar o fervor da sua mensagem.

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O início não foi fácil, já que, neste caso, o fotógrafo podia pôr em perigo os fotografados expondo a sua veneração católica. Até que um padre muito respeitado de Shanxi lhe abriu as portas. Ao longo de cinco anos, Lu Nan conseguiu entrar em comunidades rurais espalhadas por todo o país e nas casas dos crentes, testemunhando cerimónias, sacramentos e a forma como a fé se concretiza na vida quotidiana. Andou ombro a ombro com fiéis em procissões, ouviu ensaios de cânticos debaixo de estruturas improvisadas e a leitura da Bíblia feita à luz de velas; presenciou momentos de preparação cristã para a morte e juntou-se aos que já choravam a ausência de vida. “É arrepiante perceber o grau de intimidade que ele conseguiu estabelecer com estas pessoas. Ganhou uma cumplicidade enorme com as famílias, deixou de ser um estranho”, sublinhou João Miguel Barros, no dia da inauguração da exposição no Museu Berardo, naquela que é uma rara oportunidade de ver fotografia documental chinesa descomprometida.

Apesar de ter visitado mais de 100 igrejas, apenas a ruína de uma delas é mostrada nesta selecção de imagens. Um sinal de que, nas últimas décadas, a história dos católicos na China foi tudo menos pacífica, resquícios da Revolução Cultural levada a cabo por Mao Tsetung, que, em 1966, proibiu todos os cultos religiosos e transformou muitos templos em estruturas governamentais ou militares. Ao lado da igreja de Shandong esventrada surge a imagem de um frade franciscano que caminha resoluto no alto das montanhas para dar catequese em Shaanxi. Vemos por ele como, apesar de sofrida, a história da minoria cristã na China (que cresce de ano para ano) também se faz de resiliência e, sobretudo, de resistência.

Na última fotografia desta série, membros da igreja tibetana em Yunnan dão as graças no Dia do Senhor num templo muito simples. É uma porta que fica entreaberta, como um convite para entrarmos na terceira etapa da epopeia “lu-naniana”.

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No Tibete, para além das mudanças operadas pela natureza e os ritmos do trabalho, Lu Nan procurou pequenos momentos da vida quotidiana, como o entrançar de cabelo entre um casal ou esta espera pelo fim da moagem

Rumemos ao Paraíso, já que estamos no Tibete, o tecto do mundo.

Em Quatro estações: o dia-a-dia dos camponeses tibetanos o olhar imersivo de Lu Nan volta-se para a força (e celebração) do trabalho e para a maneira como ele se dobra às imposições da natureza através das diferentes estações do ano, desde a sementeira, na Primavera, à ceifa, no Outono, desde a espera pela colheita, no Verão, até à sobrevivência, durante o Inverno. Fazendo jus a um desejo de atribuir à fotografia “uma poética”, para além do “sentido” que, geralmente, se manifesta de forma evidente, Lu Nan, que passou sete anos em território tibetano, entre 1996 e 2004, mostra estes trabalhadores em harmonia com o meio que os rodeia sem precisar de ser grandiloquente, prescindindo “dos grandes acontecimentos da vida”, desistindo da busca de “imagens diferentes”. Tanto vemos o arado em acção como uma família que descansa no meio da estrada, numa estranha geometria de posições. Tanto vemos a foice no ar para a ceifa do trigo, como o cisco no olho de uma menina que interrompe por causa dele a malha dos cereais.

Em paralelo aos trabalhos do campo, o fotógrafo chinês dá-nos um fresco precioso sobre tarefas domésticas, actividades artesanais e os mais extraordinariamente subtis momentos de relacionamento no seio das famílias, um registo que amiúde procura as diferenças geracionais de vidas levadas “em paz e transcendência”, um povo preocupado em garantir coisas tão básicas como as linhas e os tecidos com que fazem a sua roupa, ou a colheita para assegurar algo que parte da humanidade dá como certo — o seu próprio sustento.

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Títulos descritivos como Rapariga a ir buscar algo ou Menina a chorar e avó (entre tantos outros no mesmo registo) são reveladores de uma simplicidade desarmante, como o são o conjunto de imagens a que se referem, nos antípodas de qualquer exotismo. Imagens que, considerando toda a tensão criada à volta da luta pela independência do Tibete, também recusam servir propósitos políticos. Para referir como esses equívocos podem ser explorados, João Miguel Barros lembrou uma das mostras do trabalho de Lu Nan nos EUA, onde “os americanos tentaram logo ir buscar o lado político das imagens”. Para o curador, a obra do fotógrafo chinês, e não apenas este ensaio, “tem um sentido muito mais humanista do que propriamente político”. Mais: “Ele recusa essa leitura. E para se fazer uma homenagem correcta a este trabalho é preciso recusar a lógica da denúncia política, que acho bastante redutora. Creio que ele atravessou estes territórios de uma maneira mais filosófica. Isto não é um grito político, é um grito de afirmação pela dignidade da pessoa. Lu Nan mostra-nos onde está a miséria da pessoa, para depois nos revelar a pureza da relação humana.”

E quando se podia pensar que um trabalho com esta amplitude e profundidade (realizado entre 1989 e 2004) bastaria para que um fotógrafo se desse como realizado, percebemos que Lu Nan afinal nunca pensou nesta trilogia como o seu trabalho mais importante: “Tudo está apenas a começar.” Haverá assim uma nova empreitada. Ao Ípsilon revelou que está a “reunir conhecimentos necessários” para começar “muito em breve” ensaios mais focados no meio urbano e que estarão relacionados com o corpo, o género/sexualidade e identidade. E, em jeito de final de conversa, dá-nos um guia breve para nos orientarmos pela sua prática fotográfica: “A realidade é de três ordens diferentes: a realidade material, a realidade psicológica e a realidade espiritual. O que eu procurei desde o início, pelo menos nesta trilogia, foi captar imagens de coisas que não podia ver mas apenas sentir; por isso são imagens que descrevem directamente a realidade psicológica e a realidade espiritual, embora isso seja alcançado através da realidade material.”

No final da trilogia de imagens impressas de (e por) Lu Nan percebe-se que a própria exposição no Museu Berardo é feita de uma trilogia de formatos. Uma projecção (acompanhada de diferentes peças de música clássica, um género tão caro ao fotógrafo) mostra a totalidade das 225 fotografias, já que para a mostra de Lisboa só foi possível trazer 144. E um livro (em três tomos) acrescenta a muitas imagens pequenas histórias sobre quem se dá a ver. Histórias dramáticas como a do doente Tao Shimao, enclausurado por detrás de um muro de pedra, depois de ter matado a mãe e atacado o pai. Ou histórias de pequenos nadas, como a do momento em que um neto se mostra preocupado com as dores de cabeça da avó.