Crítica

Com todas as reservas, não pode ser ignorada esta Canção da Terra

Todo este projecto tem o seu quê de absurdo, mas os melhores momentos de Kaufmann e a direcção justificam uma audição atenta e nalguns momentos até uma adesão.

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Logo a capa intriga: o quê um único solista e não dois como está previsto na partitura? É mesmo assim, e inédito.

Com o seu órgão vocal cada vez mais dramático de tenor heróico e os graves reforçados, superstar Kaufmann entendeu que na Canção da Terra podia cantar não apenas os três trechos de tenor mas também os outros três de voz média.

Estamos tão indelevelmente marcados pela memória e audição de Kathleen Ferrier, mas também de Maureen Forrester ou Janet Baker, que não nos ocorre de imediato que a obra pode ser cantada também por um barítono, como o mostraram Dietrich Fischer-Dieskau ou Thomas Hampson. Mas esses são casos de barítonos mesmo (e grandes mahlerianos) não de uma voz cada vez mais “baritonal” como Kaufmann.

Das Trinklied von jammer der erde ou Der trunkene im frühling são excepcionais, mas nas canções que no caso seriam para barítono já a coisa é outra. Falta o carácter radioso de Von der schnöneit e na maravilhosa Der abchied se há uma bela linha vocal escapa completamente a emotividade única do Ewig/Eternamente final. No conjunto, e como seria de esperar, falta contraste, por muito que Kaufmann tenha um cúmplice de eleição na excepcional direcção de Jonathan Nott (que no ano passado, com a Orquestra juvenil Gustav Mahler e o Coro Gulbenkian, dirigiu uma extraordinária Sinfonia nº2 do dito Mahler), com um carácter exaltado a lembrar Fritz Reiner.

Todo este projecto tem o seu quê de absurdo, mas pelos melhores momentos de Kaufmann, pela direcção e, apesar de tudo, por ser um caso à parte em toda a discografia, justifica-se uma audição atenta e nalguns momentos até uma justificada adesão. Por isso, com todas as muitas reservas, também não pode ser ignorado numa discografia de A Canção da Terra.