Clássicos nas escolas ajudam a ler (e a melhorar) o mundo

A Rede das Bibliotecas Escolares, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e as autoras do projecto Olimpvs.net unem-se para tornar visível a Antiguidade e “manter vivo o espírito humanista do conhecimento clássico”.

Ambiente durante a cerimónia de assinatura do protocolo
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Ambiente durante a cerimónia de assinatura do protocolo DR

Clássicos em Rede é o nome do programa que foi lançado nesta segunda-feira para alunos do ensino básico e secundário com o propósito de aumentar os seus conhecimentos sobre a cultura clássica. Na certeza de que esta ajuda a ler o mundo de hoje. E a melhorá-lo.

No Museu de Lisboa — Teatro Romano sublinhou-se a vontade de levar os jovens a identificar quotidianamente a presença do conhecimento clássico, “na língua e etimologia, na herança patrimonial, nos modelos estéticos e na arte, no imaginário colectivo e no ideário que está na base das nossas sociedades”. Resumindo, “tornar a cultura clássica uma evidência para os mais jovens”, nas palavras de Teresa Santa-Clara, da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE).

Da iniciativa faz parte um concurso, as Olimpíadas da Cultura Clássica, em diferentes modalidades: escrita, expressão plástica e trabalhos multimédia. Os temas para este ano lectivo são Ulisses e Penélope; Minotauro e o Labirinto; Zeus e os Jogos Olímpicos. As escolas terão de se inscrever até 30 de Novembro.

No encontro foi lida uma mensagem do secretário de Estado da Educação, João Costa, que a dada altura se dirige directamente aos alunos, que vieram da Escola Básica de Mafra e da Escola Secundária Leal da Câmara, em Sintra: “Peço-vos que agradeçam vivamente aos vossos professores por vos darem a oportunidade de participar nesta iniciativa. Vocês têm professores muito inteligentes, que percebem o que é fundamental para a vossa formação. Peço-vos também que entendam que estudar a cultura clássica não é só estudar algo antigo e interessante (ainda que só por si isso já fosse muito bom). Estudar a cultura clássica é abrir os olhos para o que nos rodeia. A influência da cultura grega e latina está hoje presente no nosso património, na nossa língua, na nossa literatura, na forma como as nossas cidades estão organizadas, na nossa justiça e nos nossos tribunais. Até os super-heróis da Marvel estão cheios de referências à cultura clássica! Mais importante, está presente na forma como pensamos, como sentimos, como raciocinamos, como nos relacionamos. Por isso, quando hoje queremos uma sociedade mais justa e para todos, essa sociedade constrói-se com mais conhecimento, com mais cultura.”

O que somos e como somos

O encontro contou com a presença da coordenadora da RBE, Manuela Pargana Silva, que sublinhou a importância de explorar a forma “como os gregos e romanos olhavam para o mundo” e de estudar as suas “preocupações sobre a nossa existência, o que somos e como somos”.

O director da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Paulo Farmhouse Alberto, também na mesa de abertura, enalteceu esta parceria, já que considera “fascinante o universo da Antiguidade Clássica”, não duvidando de que será “uma aposta ganhadora”. Também se dirigiu directamente aos alunos, manifestando um desejo: “Talvez nos encontremos na Faculdade de Letras daqui a uns anos.”

As autoras da colecção Olimpvs.net (em que cinco jovens adquirem poderes dos deuses gregos), Ana Soares, professora, e Bárbara Wong, jornalista do PÚBLICO, disseram querer “estender este gosto pelos clássicos a todas as escolas” e recordaram sonhos de infância, como o de quererem “ser guerreiras”. Aqui, desafiaram os alunos a “pôr os sonhos em prática”, com “trabalho e persistência”.

A série (editada pela Alfaguara) tem oito títulos e nasceu da percepção de que faltavam no mercado livros sobre estes temas para leitores entre os oito e 15 anos. “A mitologia está presente em muitas brincadeiras e jogos de computador e consolas, mas fora de contexto. Quando aparece um monstro com três cabeças, não é só porque dá jeito, há uma explicação”, referiu Ana Soares.

“Puxar a carroça”

O Centro de Estudos Clássicos esteve representado por Maria Cristina Pimentel, que salientou o potencial de “interdisciplinaridade dos estudos clássicos” e de que esta é a forma “que se deveria agir nas escolas”, fazendo pontes entre todos os saberes. Mostrou-se satisfeita por estas parcerias irem ajudando “a puxar a carroça dos clássicos”.

O lançamento prosseguiu, sempre com os convidados a serem apresentados por alunos, com as comunicações de Maria Catarina do Espírito Santo sobre “Ciência e cientistas na Antiguidade” e de Rui Carlos Fonseca sobre “Os feitiços de Harry Potter”. Houve ainda tempo para as professoras de Mafra apresentarem um jogo sobre cultura clássica, criado pelas próprias, e que toda a plateia jogou divertida a partir de tablets distribuídos. Antes, os ex-alunos da escola de Sintra realizaram uma actuação com base no texto In basilica. “Fizemos um curso livre de Latim na Faculdade de Letras e gostámos muito. Por isso estamos aqui”, disseram ao PÚBLICO, quase em coro.

Quem também estudou Latim foi o secretário de Estado da Educação, que terminava assim a sua mensagem: “Fui aluno de latim e grego. Um dia conto-vos como casei graças ao Cícero e ao latim!”