A “salada russa” nos jornais portugueses de 1917

Há cem anos, grande parte da imprensa portuguesa retratou a situação como sendo de resultado imprevisível ou desfavorável para os "maximalistas" de Lenine.

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ADRIANO MIRANDA / PUBLICO

A Revolução de Outubro chegou a Portugal dois dias depois. Foi a 9 de Novembro de 1917 que os jornais portugueses noticiaram o assalto ao Palácio de Inverno, o então quartel-general do Governo Provisório, e da ocupação dos principais pontos de Petrogrado (actual São Petersburgo) pelos bolcheviques.

Pouco mais se sabia. Tanto O Século como o Diário de Notícias ou o Jornal de Notícias falavam da passagem do poder das mãos do Governo Provisório para o “comité revolucionário” de uma forma pacífica. O jornal A Manhã mencionava que tinham ficado 30 pessoas feridas.

As lacunas informativas foram sendo preenchidas nos dias que se seguiram. No dia 10 de Novembro por exemplo, o Diário de Notícias já avançava com uma cronologia mais detalhada dos acontecimentos.   

Nos dias que se seguiram, os jornais portugueses foram noticiando a Revolução de Outubro consoante as suas linhas editoriais ou políticas. Os jornais considerados generalistas, como O Século ou o Diário de Notícias, procuraram desenvolver trabalhos factuais que dessem espaço ao Governo Provisório que chefiou o país até à revolução e ao "movimento maximalista" - os bolcheviques de Lenine - que a concretizou. No entanto, estes jornais não conseguiram esconder a sua descrença no Partido Operário Social-Democrata Russo, que sustentava os "maximalistas".

Já títulos como A República ou A Monarquia assumiram-se de imediato contra os revolucionários. Ao contrário, A BatalhaA Bandeira Vermelha demonstraram sempre apoio à causa bolchevique.

Independentemente da simpatia política de cada jornal, todas as publicações interpretaram os sinais revolucionários sem surpresa. Uma vez que desde a Revolução de Fevereiro (que depôs o regime absolutista do czar Nicolau II), que no calendário português se assinalou a 8 de Março de 1917 - a de Outubro teve lugar em Novembro -, as notícias sobre a instabilidade política russa faziam correr tinta nas gráficas.

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Notícia do Diário de Notícias da edição de 9 de Novembro de 1917

Por já se estar à espera dela, a Revolução Bolchevique levou os jornais a atribuírem menor destaque a este conflito do que aquele que tinham dado à revolução anterior. Esta foi uma das conclusões a que Paulo Guinote chegou no estudo A Revolução Russa na Imprensa Portuguesa, que realizou para o seu mestrado em História do Século XX.

“Durante o período estudado [1917-1918], ninguém atribui às ocorrências de Outubro o privilégio de serem a revolução Russa. Na melhor das hipóteses, ela seria uma das revoluções verificadas na Rússia em 1917”, constata Paulo Guinote.

Aos portugueses, a Revolução de Outubro, que em Portugal tem a data de 7 de Novembro de 1917, foi relatada de forma mais superficial e foi mastigada pelos principais jornais internacionais. A distancia física do conflito fez com que as fontes possíveis fossem os meios de comunicação estrangeiros. O cruzamentos das informações divulgadas por estes últimos originou textos confusos e imprecisos.

Na ausência de dados concretos eram publicadas suspeitas, considerações políticas ou interrogações. A 9 de Novembro, O Século admite: “Ignora-se a duração que os acontecimentos possam ter, bem como a importância dos mesmos”.

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Notícia do Jornal de Notícias da edição de 9 de Novembro de 1917

Houve jornais que publicaram, no mesmo dia, informações que se contradiziam. O Diário de Notícias do dia 15 de Novembro, por exemplo, indicava numa notícia que o chefe do Governo Provisório, Alexander Kérensky, teria sido derrotado e noutro texto afirmava que teria recuperado o poder.

“Até há pouco, ao tratar-se dos acontecimentos da Russia, dada a sua complicação, chamava-se ao conjunto desses acontecimentos 'salada russa'; agora, em vista da trapalhada que por lá vae, segundo os informes que nos trazem os telegramas hontem recebidos, 'salada russa' é o que se lhes deve chamar", lia-se no Jornal de Notícias a 13 de Novembro.

Cepticismo dos “independentes”

A análise do conflito russo nos jornais portugueses feita por Paulo Guinote revelou que “de entre as quase três dezenas de títulos principais incluídos nas edições que se sucederam dos primeiros dias de Novembro até final do ano, cerca de metade retrataram a situação como sendo de resultado imprevisível ou desfavorável para os maximalistas”.

No dia 13 de Novembro, seis dias depois da revolução, o título do Diário de Notícias era: “Os maximalistas começam a perder terreno”. No mesmo dia, O Século apelidava os bolcheviques de “anarquistas germanizados”. Já no dia 14, O Primeiro de Janeiro avançava com a expectativa de que Kérensky tivesse recuperado o poder.

Mesmo as raras fotografias que foram publicadas da Revolução de Outubro confirmam a tendência para atribuir maior protagonismo ao governo deposto. O Século dedica a primeira fotografia impressa a uma reunião de sovietes. No entanto, a primeira fotografia de uma personalidade é de Kérensky.

Também no Diário de Notícias, o primeiro rosto é o do líder do Governo Provisório, na edição do dia 19 de Novembro. Neste jornal, a primeira imagem de Lenine, líder do partido operário, surge apenas na quarta-feira 28 de Novembro. Trata-se de uma fotografia dupla em que o rosto de Lenine aparece de perfil e de frente, tal como nas fotos tiradas aos prisioneiros.

Mães a casar com filhos

Se a imprensa generalista não descreveu a Revolução de Outubro com isenção ou rigor, não se esperava que os títulos com tendências republicanas ou monárquicas o fizessem. A abordagem destes últimos variou entre denegrir o movimento bolchevique e evitar tocar no assunto para não o ampliar.

Em 1921, o Diário de Lisboa escrevia: “Na Rússia, as mães já se podem casar com os filhos”. Esta e outras ideias semelhantes eram usadas para caracterizar os comunistas “como homens sem princípios, prepotentes e desumanos, grosseiros, desrespeitadores das mais normais regras de boa educação, a par de notícias tão fantásticas que só a prodigiosa capacidade de invenção da burguesia poderia criar”, conclui o historiador César Oliveira num texto na revista Análise Social, em 1973.

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Notícia de O Século da edição de 9 de Novembro de 1917

Mas o dedo não era só apontado aos bolcheviques. O jornal monárquico O Dia acusou os republicanos de conduzirem “o país russo para a 'Anarquia com A maiúsculo'”, porque não evitaram o “cataclismo”.

Alternativa

A imprensa operária encontrou na Revolução Russa uma prova de que o sindicalismo podia ser uma alternativa social. O carácter excepcional da primeira revolução comunista marxista do século XX inspirou textos propagandísticos nestas publicações.

A Revolução Russa “teve grande impacto sobre o movimento operário português, que, através da sua imprensa, não só procura contrariar a deturpação e as informações tendenciosas e falsas dadas pela imprensa burguesa (republicana, monárquica e 'independente'), como realiza a divulgação das posições políticas em presença no decurso do processo revolucionário entre Fevereiro e Outubro”, escreveu César Oliveira.

O jornal Bandeira Vermelha, que viu frequentemente as suas edições confiscadas, escrevia: “Sem o bolchevismo, não [seria possível] tão cedo a desejada emancipação económica que com tanta veemência [se tem] apregoado e que, digam o que disserem, é a mais importante de todas”.

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