Opinião

Inovação em Educação: o que é e o que se vê

Restringir a inovação em Educação à utilização de tecnologias é extremamente pobre e equívoco.

Um dos resultados positivos de tanto se falar na premência de inovar a Educação é que hoje ninguém — refiro-me a pessoas e entidades que têm uma voz respeitada e consequente — nega a importância — e mesmo a urgência — desta inovação. Temos assim um largo consenso sobre a necessidade e prioridade de mudar a Educação que temos. Este impulso, sedento de “modernismo” e de “progresso”, está, no entanto, contaminado de equívocos.

Estes equívocos são em grande parte originados pelo facto de se pensar que a inovação em Educação é uma questão unicamente de instrumentos, de metodologias ou de tecnologias e não um conjunto de valores e de princípios que é preciso estabelecer antes de “cair nos braços” de numerosas e infalíveis ofertas de inovação.

Desenvolver um processo que traga procedimentos novos para a escola pressupõe antes de mais dar um sentido, digamos ontológico, à inovação. Queremos inovar para quê? E logo aqui podemos encontrar muitas perguntas e muitas respostas. Alguns exemplos: “Queremos inovar para que todos os alunos tenham sucesso na escola”, “Queremos inovar para que os alunos se sintam motivados para ir à escola”, “Queremos inovar para que todos os alunos se sintam motivados a aprender”, “Queremos inovar para que todos os alunos se eduquem no estrito respeito pelos Direitos Humanos”, enfim, toda uma série de compromissos dos quais derivarão as medidas, os recursos, as metodologias cujo uso poderá conduzir ao seu cumprimento.

Não confundir os objetivos da Inovação com os seus instrumentos é, pois, uma primeira e fundamental reflexão para podermos inovar a escola. E darei um exemplo: um professor desenvolveu durante uma aula a “matéria” (que termo curioso!) e foi escrevendo no quadro os aspetos fundamentais do que ia explicando. Quando terminou, disse aos alunos: “Agora podem copiar para o caderno.” Ouviu-se uma explosão de “clicks”: os alunos tinham fotografado o quadro com os seus smartphones. Onde está aqui a inovação? Na forma como o professor explicou, diferenciou, apoiou a aprendizagem de todos os alunos, na forma adicional e alternativa que usou para que todos os alunos aprendessem, ou nos clicks dos smartphones? Sem dúvida que está na primeira componente.

Restringir a inovação em Educação à utilização de tecnologias é pois extremamente pobre e equívoco, dado que as tecnologias podem ser usadas para segregar e excluir da mesma forma que podem ser usadas para incluir e para melhorar a participação de todos os alunos. Depende dos valores que lhes são precedentes.

E o que se aponta às tecnologias poder-se-ia apontar às “técnicas inovadoras na sala de aula”. Quando um professor diz, por exemplo, que está a trabalhar de acordo com a metodologia de “Design Thinking”, esta afirmação levanta mais dúvidas do que certezas. Usa esta técnica para quê? Em que contexto? Usa-a sempre? E como é que esta técnica se compatibiliza com outras formas de interação na sala de aula? Esta técnica mobiliza e motiva igualmente todos os alunos? Tantas perguntas que não podem ser respondidas pela simples e unívoca afirmação de “Eu uso o Design Thinking!”.

As tecnologias e formas de organização inovadoras só o são, na verdade, se contribuírem para valores mais primordiais e urgentes da Educação de hoje. Esta posição não pode desencorajar a introdução de tecnologias e a experimentação de modos menos habituais de organizar a sala de aula. Pelo contrário: muitas vezes, estes impulsos de “fazer diferente” mostram-se extremamente mobilizadores e motivadores para professores e para alunos. A questão é, mais uma vez, a de pensar o que é essencial e urgente mudar na educação de hoje e face a este pensamento escolhermos o que pode ajudar e contribuir para levar estes grande objetivos adiante. E se assim for, até uma lousa de ardósia pode ser mais adequada que um tablet e um lápis e uma borracha mais indicados que um smartphone de última geração. Enfim, precisamos de uma inovação que nos aproxime de cumprir os objetivos que se encontram explícitos no Perfil do Aluno para o Século XXI, precisamos de toda a inovação possível para construir uma escola que motive e seja significativa para todos os alunos, que seja justa e inclusiva. E, sobretudo, uma escola que não deixe ninguém para trás, porque, como afirma um recente relatório publicado pela UNESCO, “todos os alunos contam e contam da mesma maneira”.

Precisamos de uma inovação que não seja o screensaver, mas sim o programa.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico