Crítica

Todo o mundo é um palco

Philip Roth cria uma trama infindável de duplos, num jogo de espelhos que se perde em meandros agónicos e só resiste ao tempo (e ao ridículo) porque é um escritor que, mesmo quando perde o rumo, é sempre desafiadoramente interessante.

A reedição deste romance permite releitura salutar de um Roth ainda não contaminado pelo azedume
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A reedição deste romance permite releitura salutar de um Roth ainda não contaminado pelo azedume ERIC THAYER/REUTERS

No início de O Escritor Fantasma, Nathan Zuckerman, grande promessa da nova literatura, chega ao retiro de E.I. Lonoff, excelso homem de letras, uma lenda viva, considerado por alguns críticos como sucessor directo de Melville e de Hawthorne e, por outros, descartado sem cerimónias por se ter tornado obsoleto, afastado já dos seus tempos áureos quando, “tímido, apaixonado e desesperado”, produzia contos extraordinários, verdadeiras parábolas cómicas sobre judeus errantes, diferentes de tudo o que se escrevera até então.

Nathan, aos vinte e três anos, está preocupado com a construção do seu próprio Bildungsroman, pelo que a estreita convivência com um autor tão insigne –figura supostamente decalcada dos autores judeus Bernard Malamud ou Henry Roth, ou de ambos – representa uma verdadeira iniciação, o caminho certo no sentido de se tornar “a autoridade em demónios judaicos” como o próprio dirá, mais tarde, na sequência das obras ( incluindo os nove romances onde é manipulado por Roth) em que participará como actor/autor principal.

Mas muita coisa acontecerá depois desses anos cinquenta do século XX, quando o então jovem Nathan atrai a atenção de Lonoff - já por essa altura condenado a levar uma vida desinteressante, limitando-se a “dar voltas a frases” - pela sua vivacidade e originalidade.

Nathan é o orgulho da família até à publicação do conto que o torna famoso, onde retrata sem condescendência a comunidade judaica que tão bem conhece. Quando entra em casa de Lonoff só quer deixar para trás as recriminações do seu próprio pai, um homem terno e decente, podólogo de profissão, que se mostra tremendamente chocado por Nathan ter usado os membros da própria família como personagens, oferecendo ao mundo uma imagem patética dos judeus, daqueles que não sofreram os horrores do Holocausto e que carregam uma culpa acre e desoladora, o que, no rescaldo da IIª Grande Guerra é, obviamente, uma espécie de sacrilégio. Nathan, à boa maneira freudiana – recorde-se a filmografia de Woody Allen – anseia por se libertar das restrições morais da sua comunidade. Pelo caminho, “matará” o próprio pai, substituindo-o por Lonoff um “artista, o mais famoso esteta da América, esse gigante da paciência, da força de vontade e do altruísmo…”.

Nathan chega a casa de Lonoff. Está a nevar e os dois homens sentam-se a conversar em frente à lareira, o mestre adoptando uma jovial condescendência e o discípulo uma estudada reverência. Um Lonoff desencantado – tal como as personagens dos seus contos recusa-se a “tomar iniciativas” contraria o entusiasmo de Nathan, adoptando um cepticismo mordaz.: “Não tente (seguir o meu exemplo); Se a sua vida for ler , escrever e contemplar a neve, vai acabar como eu. Trinta anos de fantasia.” Mas Nathan está já distraído por uma jovem que ele entreviu sentada no chão do escritório – Lonoff explica-lhe que se trata de Amy Bellette, uma aluna que o está a ajudar a catalogar manuscritos. A visita prolonga-se. Nathan é convidado para jantar e, mais tarde, para pernoitar. Surge Hope, a mulher de Lonoff, “uma gueixa envelhecida”, sarcástica e trágica que desafia o marido, faz uma cena de ciúmes e parte um copo. Nathan observa a crise conjugal com avidez e fica a saber que Amy Bellette é, afinal – ou talvez não –, Anne Frank, a adolescente judia holandesa, cujo diário se transformou numa lenda. Roth conta a história da família de Nathan, a de um outro escritor, Félix Abramavel (a cujo encanto Nathan resiste), e a de Amy/Anne, enquanto vai plantando, na cabeça do leitor, uma complexa teia de dúvidas

Philip Roth o autor que, nas palavras de um seu crítico, se encontra permanentemente enclausurado entre Freud e Kafka, ensaia em O Escritor Fantasma a sua longa caminhada, o seu penoso destino, que tentou exorcizar em A Lição de Anatomia ( 1983) e fez passar por várias metamorfoses, sempre dolorosas, sempre delirantes através de sucessivas nemésis. A reedição deste romance de 1979 permite uma releitura salutar de um Philip Roth ainda não contaminado pelo azedume que culminou no shakespereano O Fantasma Sai de Cena, onde a sua reflexão sobre a passagem do tempo, o envelhecimento e a solidão atingem paroxismos tão trágicos como hilariantes e onde acabou por enterrar este mesmo Nathan Zuckerman.

As pessoas que acusam Philip Roth de misoginia e mau gosto - entre outras críticas mais violentas - esquecem-se por vezes que ele é, essencialmente, um escritor cómico e que o riso é, nele, imensamente subversivo. Em O Escritor Fantasma, mesmo na parte mais lúgubre e solene do livro quando, à laia de “expiação”, relata os dramas dos campos de concentração e o destino de milhões de judeus europeus através da história de Anne Frank, aqui representada por mais um fantasma, ou “duplo” ( a caprichosa Amy Bellette), Roth não resiste ao apelo do chamado “riso trágico”, fazendo ecoar a exortação nietzscheana: “ é preciso aprender a rir para podermos ser os pessimistas destinados ao inferno”.

Desde Adeus Colombo (1959), o seu romance de estreia que tanto irritou a comunidade judaica, o autor desdobra-se em caricaturas e máscaras, em figuras que se apresentam deliberadamente como clichés, no limite do ridículo e do kitsch. Roth sempre gostou de chocar o mundo inteiro e quando o acusam de atrair o ódio aos judeus ou de mostrar a sua flagrante misoginia, ou quando resolve “reformar-se” - qual é o escritor que se reforma? - é impossível esquecermo-nos da eterna questão: será que a comédia, o género que não conhece limites, é a forma mais livre de todas as expressões ou será que o autor se deve auto-censurar quando, para a maioria dos seus leitores, ele (ou ela) têm de observar certos limites da decência e do decoro?. Quando Roth coloca em cena os seus professores envelhecidos e libidinoso, os seus adolescentes masturbatórios, as suas shiksas deslavadas e agressivas, as suas judias eroticamente sedutoras, compõe um universo de personagens inesquecíveis que habitam um espaço particular, a dos judeus da classe média de Nova Iorque e arredores, em permanente contenda, no que diz respeito a esperteza e desenvoltura, com os judeus de Chicago de Saul Bellow .

Com a sua habilidade e perversidade na forma como utiliza as palavras, Roth cria uma trama infindável de duplos, num jogo de espelhos que se perde em meandros agónicos e só resiste ao tempo (e ao ridículo) porque é um escritor que, mesmo quando perde o rumo, é sempre desafiadoramente interessante. A sua feroz e vitalícia meditação sobre a criação artística, as relações humanas e o peso da História surge, em O Escritor Fantasma, como um ensaio de tudo o que escreveu posteriormente.

Quem o lê fica preso na rede dos seus truques habilidosos, da sua feroz crítica, da sua incomparável vitalidade. Terá sido mesmo assim que tudo se passou? Quem será o fantasma de quem? E, já agora, existirá realmente um escritor chamado Philip Roth? Ou será ele, apenas, e também, uma miragem?