Crónica

A fotografia do Adriano

Olho para aquele homem e aqueles olhos parecem não esperar nada de ninguém. Parecem-me os olhos de quem está habituado a que ninguém faça nada por ele. Os olhos de quem sempre fez tudo sozinho. Os olhos dos esquecidos.

A fotografia do Adriano Miranda devolveu algum silêncio à tragédia. E fê-lo porque fala mais alto, fala muito alto, tivemos de nos calar um pouco diante dela. Há silêncios que fazem muito, muito barulho. A fotografia do Adriano é um deles.

A fotografia do Adriano devolveu humanidade à tragédia, e a nós. As tragédias têm rostos. No momento em que ela estava a ser impressa, para ser capa do jornal no dia seguinte, chovia em alguns sítios do país. Também as pessoas e as terras precisavam que se lhes devolvesse isso. Finalmente. Pelo menos, isso.

A fotografia do Adriano devolveu algum silêncio à tragédia. Os olhos parados daquele homem, tudo tão triste naqueles dias e naquelas noites. Até a chuva, tão bem-vinda, parecia uma tristeza do céu. Tanta desgraça junta. Ao mesmo tempo que nos cala, a fotografia do Adriano faz-nos sentir embaraçados por ficarmos calados. Que dizer de decente perante aquele olhar? Tanta desgraça junta. A fotografia do Adriano está carregada de silêncio, porque só ele resta, ardeu tudo. Como aquela casa em ruínas.

A fotografia do Adriano devolveu algum silêncio à tragédia. E com isso falou mais alto do que todos os que berram nas redes sociais. Berram contra o Estado, contra o Governo, contra a esquerda e a direita, contra o tempo, contra os jornalistas. Berram soluções. Com a fotografia que tirou, o Adriano não descobriu a maneira de acabar com os incêndios em Portugal, com a fotografia que tirou o Adriano não descobriu nada, mas destapou tudo.

A fotografia do Adriano devolveu algum silêncio à tragédia. Um silêncio que nos pesa. Denso como aquele céu de fumo. Devolver o silêncio à tragédia não é calar a revolta. É que a revolta também pode ser uma coisa vinda de dentro, com um silêncio nas entranhas primeiro, uma tristeza antes de ser mais e mais. Uma dor antes de ser um grito.

A cor do céu, a opressão daquele céu, tanta desgraça junta naquela fotografia, meu deus. Tanto abandono. Olho para aquele homem e aqueles olhos parecem não esperar nada de ninguém. Parecem-me os olhos de quem está habituado a que ninguém faça nada por ele. Os olhos de quem sempre fez tudo sozinho. Os olhos dos esquecidos.

Se algum dia destes aparecerem por aí os retratos e as histórias dos heróis de Portugal, de quem mais trabalha ou mais faz pelo país, se nesse dia não puserem este homem, e outros homens e mulheres como ele, novamente nas primeiras páginas dos jornais, este país não tem memória, nem coração.

Este homem, nesta fotografia do Adriano, está sozinho no seu país. E é ele e outros como ele que vão sozinhos reconstruir as casas e as vidas. Eles, sim, vão começar do nada, e sem nada, tudo outra vez.

São tão tristes aqueles olhos, são resignados, fazem-nos sentir vergonha por estarmos todos tão distantes uns dos outros. Olho para aquela camisola larga, um corpo magro dentro dela, as rugas na cara, vejo uma vida inteira curvada ao trabalho. E agora ardeu tudo.

Olho para a fotografia do Adriano, para aquele homem e, se estivesse com ele, não saberia o que dizer. É isso que a fotografia do Adriano devolve à tragédia. Somos todos zeros perante quem morreu e quem ficou. A fotografia do Adriano deixa tudo a descoberto: o silêncio, a perda, a solidão. Mostra o trabalho, a injustiça, a velhice, a distância, a distância enorme, num país tão pequeno, entre aquele homem e os corredores do poder e sem árvores de Lisboa. 

PÚBLICO -
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