Sara Tavares à escuta dos sons que a rodeiam

Após uma longa ausência, a cantora regressa com Fitxadu, o disco mais corajoso da sua carreira. Onde antes havia voz e guitarra ao centro, há agora uma voz rodeada de apontamentos electrónicos.

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Sara Tavares fala de “um back to yourself” necessário — se não a cada disco, pelo menos de tempos a tempos ANA TRINDADE

Xinti tem oito anos. Está já muito distante no tempo. Da última vez que Sara Tavares lançou um álbum ainda José Sócrates não tinha sido reeleito como primeiro-ministro e a Uber tinha dois curtos e pouco planetários meses de vida. Por isso, se num primeiro momento, Sara pegou na guitarra para, como sempre, começar a compor as para o seu novo álbum, acabou por parar, motivada a olhar à sua volta, perguntando-se se as suas canções deveriam surgir no mesmo jorro íntimo do seu passado ou relacionar-se com a música que pulsava perto de si. Por muito que a composição possa obedecer a um impulso pessoal e a uma expressão individual, não acontece isolada, alheada do mundo em redor, negligente do meio onde se insere. Sendo música de um indivíduo, nasce num contexto colectivo. O percurso de Sara Tavares já não é também o mesmo desse ano de 2009. A sua vida tomou caminhos inesperados e um novo álbum teria inevitavelmente de lidar com essa condição.

No ano de lançamento de Xinti, numa altura em que a cantora consolidava uma linguagem musical que tinha começado a fixar em Balancê, em que esgravatava naquilo que havia em si de identidade cabo-verdiana, ver-se-ia diagnosticada com um tumor benigno no cérebro, que lhe exigiu uma intervenção cirúrgica e uma mudança séria de paradigma. “Se olhar para a minha agenda de há sete anos”, diz, “não descansava de todo, era de domingo a domingo, de Janeiro a Dezembro. Não tive mão nisso, havia muito cansaço e senti-me muito explorada.” Daí que se tenha visto na posição de reaprender a ter prazer com a música. E isso implicou desacelerar, olhar à volta, perceber o que se estava a passar e adiar “o medo do processo de promoção e tournées” obrigatório na sequência da edição de um novo disco.

Sara Tavares fala de “um back to yourself” necessário – se não a cada disco, pelo menos de tempos a tempos. Algo que começou a aprender desde cedo. Na sequência da sua vitória no programa Chuva de Estrelas, cujo prémio lhe garantia a gravação de um álbum, lançou com os Shout um registo de gospel, numa altura em que não encontrara ainda uma forma pacificada de transportar para a música as suas raízes cabo-verdianas. Na altura, como proposta de marca lusófona naquela música de indisfarçável realidade norte-americana, a editora encomendou originais em português a que se juntava uma versão das Doce.

Se o tempo se encarregou de acentuar a ideia de que aquele “gospel à branco”, como lhe chama, demasiado polido e em jeito de replicação de uma verdade alheia lhe causava algum desconforto, também obrou uma outra evidência que foi agitando interiormente a cantora, à procura de perceber quem era dentro e fora da música. “Tinha de fazer uma cena real, baseada na verdade”, recorda. “E com todo o respeito e todo o amor, essa verdade não era o português do Paulo de Carvalho [que escreveu para o seu segundo álbum], nem o português que fiz com a Ala dos Namorados, do João Gil ou do Carlos Tê. E fui percebendo que não era também o crioulo da Cesária Évora, mas qualquer coisa entre o crioulo e o português. Então comecei a olhar para a minha mãe e para as pessoas próximas de mim, e a traduzir. Comecei a olhar para as comunidades crioulas jamaicanas em Inglaterra, para o inglês dos nigerianos, o francês dos congoleses e a perceber que temos uma linguagem parecida em Lisboa. E tentei desenvolver uma escrita mais ou menos como a nossa comunidade africana fala.”

É essa ligação à comunidade que reemerge no novo Fitxadu. Sara Tavares quis voltar-se para a sua comunidade, quis perceber o que os músicos do seu bairro e da sua cidade estão a fazer. Não será abusivo chamar a Fitxadu um vasto e continuado diálogo com Lisboa, uma Lisboa africana que Sara quis auscultar até concluir que “a maior parte desta malta está a fazer música de dança”. Não se tratava de seguir essas pistas para reproduzir a mesma abordagem, mas antes perceber quem poderia Sara ser no meio deste ambiente que não podia ignorar. “Quis perceber porque é que os ouvintes estão a pôr tudo o resto de lado e querem é curtir e beijar na boca”, explica, aludindo a uma fisicalidade da música. “No fim de contas, uma pessoa muda de estação de rádio e pára noutra porque está a gostar. Quem ouve música no carro não está a pensar nas playlists; as frequências e as vibrações estão a chegar-lhe, está a gostar do baixo e da batida, e fica ali. Comecei a prestar atenção aos meus amigos que não têm grande ligação com a música e paravam no Nelson Freitas, paravam no C4 Pedro. E comecei a perceber que eles estavam a ganhar terreno porque faziam música para as pessoas se sentirem bem.”

Essa qualidade da música que observava na relação dos amigos com alguns dos mais notórios fazedores actuais de kizomba havia de lembrar Sara Tavares daquilo que, há muitos anos, encontrava também nos Earth, Wind and Fire, em Michael Jackson ou no boogie woogie. Música apontada a uma espécie de coração colectivo, livre de desgraças, angústias ou fracassos, feita sobretudo de uma postura lúdica que lhe falava ao corpo e ao espírito. “Até a música de intervenção tem de ser veiculada de uma forma que continue a ser lúdica”, acredita. “Os Buraka Som Sistema ou os Batida fazem música que pode ser de intervenção mas é lúdica.”

Mais liberdade

Fitxadu é filho desse tal gesto de calar a guitarra por momentos e procurar um novo centro. Sara Tavares procurou adentrar essa rede de fazedores de beats, inteirar-se dessa outra forma de construir música que passa, antes de mais, pela resposta a um apelo rítmico. Em vez de cada canção ter início e fim em si, incorporou essa dinâmica de trabalhar a partir de beats, experimentar melodias por cima, chamar outros nomes para escreverem as letras consigo, cada tema transformando-se num processo singular de procura e experimentação. Daí que Sara fale de uma construção e desconstrução constante, de várias voltas até cada canção finalmente pousar na sua forma final.

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Esse processo teve um quartel-general: a sala em Santos, partilhada com um actor, um construtor de marionetas e Silk, vocalista dos Cais do Sodré Funk Connection. Foi ali que Sara começou a montar Fitxadu por entre conversas sobre música e livros, foi ali que recebeu Kalaf para começarem a falar e a experimentar o que podia vir a fazer, foi ali que se encontrou com Kid Gomez, Conductor e outros beatmakers que lhe levavam ideias, foi ali que pediu a Virgílio Varela (o Double dos rappers Family, grupo do tempo de Rapúbica) para montarem e desmontarem algumas das letras do disco.

“Na génese está o meu tipo de composição, o meu tipo de abordagem e o meu tipo de canção”, garante, “mas na roupagem vê-se que faço experiências novas, chamo amigos, dou mais liberdade ao som para se espraiar, para se expressar de outra forma. Antes, nos meus discos, curtia aquela coisa de guitarra, voz e percussões, e estava satisfeita com essa musicalidade.” Mas a curiosidade que a levou a perceber o que estava a acontecer agora na música que lhe era próxima empurrou-a também para trabalhar com gente como Conductor e Kalaf (dos Buraka Som Sistema), Kid Gomez ou Princezito. De onde, muito embora encontremos no álbum autorias de Sara, Nancy Vieira ou Manecas Costa, há uma toada electrónica que desde logo fica explicitada na introdução Onda de Som, tema que poderia perfeitamente integrar as investidas africanas de Damon Albarn, nesses encontros entre o travo a tradição musical e uma modernidade modorrenta de outra latitude.

“Ter peito e espaço p’ra morrer / e renascer”, canta Sara Tavares num dos temas mais inspirados de Fitxadu, Ter peito e espaço. É um outro exemplo, de enorme encanto, dessa bem doseada invasão electrónica do seu som, algo que a deixa um pouco inquieta quanto à reacção do público – que poderá estranhar estes caminhos antes pouco presentes no percurso da cantora. “Embora agora à distância de um mês de ter terminado o disco”, admite, “às vezes ache que tive medo de deixar algumas coisas mais evidentes, porque tinha receio de que tapassem a voz ou a essência da canção.”

O que equivale a dizer que Fitxadu, que chama para título o encerramento de um ciclo na sua vida, antecipa de imediato aquilo que lhe apetece fazer já em seguida: levar estas experiências mais longe. É um álbum que funciona como palpação dos terrenos possíveis: “Trabalhei com muita gente da electrónica e eles têm uma cabeça diferentes de nós, músicos instrumentistas. A linguagem é diferente, a comunicação entre nós é diferente, e sinto que é preciso experiência para encurtar isso.”

Não se conclua daqui, no entanto, que Fitxadu é um álbum por cumprir. Longe disso. É, na verdade, o álbum mais corajoso da discografia de Sara Tavares. E aquele em que, ao levantar os olhos da guitarra e mirar o mundo, descobriu que estava rodeada de possibilidades sem fim.