Doclisboa

Amazing Grace

De Nova Iorque à Jamaica, dos cantos religiosos às ostras e champanhe num estúdio, do quotidiano aos imponderáveis da luz: o corpo de Grace Jones harmoniza as oposições. Fortaleceu-se com elas. Bloodlight and Bami, hoje no Doclisboa, mostra a criatura em movimento.

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Didier Messens/Redferns

No Festival de Toronto, na estreia mundial de Grace Jones: Bloodlight and Bami, documentário de Sophie Fiennes, a atmosfera era electrizante — entre a multidão de jovens que, literalmente, berravam e urravam, as avós estavam também alteradas. Na sessão de perguntas e respostas que se seguiu à projecção do filme, Grace Jones dobrava-se com risadas hilariantes, batia palmas, concentrava as atenções. Também continua a comportar-se como diva. No dia seguinte, por exemplo, fez os jornalistas ficarem à espera: tinha de ir ver Rafael Nadal no Open dos Estados Unidos em ténis. Após assistir à vitória de Rafa, senta-se à frente de um prato de comida e um copo de vinho tinto francês, e o seu estado de espírito pode ser descrito como efervescente. Após uma vida inteira a actuar, a cantora e modelo jamaicana sente-se tão segura de si própria que lhe podemos perguntar quase tudo. Até a idade, apesar de antes da entrevista nos terem avisado para não o fazermos. “Quem é que lhe disse isso? Eu nunca disse isso! Nunca impedi ninguém de mencionar a minha idade”, protesta aos berros.

Acontece que a data de nascimento de Jones apresentada na Wikipedia, que indica que ela faria 70 anos em Maio de 2018, está errada, segundo ela. “Apenas o FBI sabe a minha idade”, brinca. “Aí está um mistério para você resolver. Até o FBI estava com dúvidas. Quando pedi um novo passaporte tiveram que me arrastar para uma sala. Disseram-me: ‘Bem, isto aqui não bate certo com isto e aquilo não bate certo com aquilo. Você anda muito bem escondida.’ Ah, ah, ah!”  

Afirma que a sua eterna juventude se deve a factores genéticos, mas que também sempre foi muito activa. “Quando era pequena na Jamaica fazíamos muito atletismo, incluindo salto à vara e salto em comprimento, fiz muito desporto”, explica. “A minha mãe era atleta e o meu pai, antes de se tornar pregador, era pugilista amador. Tinham corpos únicos e nunca envelheceram a nível físico. A minha mãe aos 88 anos não tinha uma única ruga na cara, e o meu pai morreu com 84 anos e também não tinha uma única ruga na cara”, conta acerca do bispo Robert E. Jones, homem muito rígido na educação dos filhos. “Mas tenho uma vida muito mais desregrada do que eles tinham. Eles apenas bebiam um pouco de vinho de uva na comunhão”, diz com uma risada, “e nada de cigarros. Tenho que deitar disfarçadamente um pouco de erva no chá da minha mãe para que ela consiga adormecer! Os corações deles são mais resistentes do que o meu, mas continuo a gostar de me manter activa.”

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Frazer Harrison/Getty Images for FYF

Com Bowie e Jackson

A incrível demonstração de Jones a rodar um hula-hoop enquanto cantava Slave to the rhythm no concerto do Jubileu de Diamante da rainha Isabel II em frente ao Palácio de Buckingham em 2012 comprova a sua resistência. Como aconteceu com o vestido vermelho e preto com cauda a arrastar pelo chão e o toucado a tocar o céu que vestiu nesse dia, Jones adora incorporar na sua performance a sua fisicalidade e fatos de outro mundo. Obviamente, ela própria é de um outro mundo.  

“Adoro o mar, nadar em águas profundas onde os pés não conseguem tocar no fundo e ficar lá durante horas. Estar no mar é como estar no espaço. Sempre quis ir até ao espaço. Há alguns anos quis fazer um concerto com Michael Jackson e David Bowie num vaivém espacial e nessa altura pensei em ir ter com o Bill Gates, e fazíamos um concerto.”

Jackson e Bowie já não estão entre nós. As mulheres costumam dar o seu melhor em idades mais avançadas, mas mesmo assim não há tempo a perder. Após o seu livro de 2015, I’ll Never Write my Memoirs (escrito pelo jornalista Paul Morley), e o filme de Fiennes, Jones está de novo em autopromoção, dando os últimos retoques num novo álbum e realizando concertos. “É como eu sempre digo, ‘Convidem-me e paguem o concerto e eu apareço lá’.

Bloodlight and Bami, que abre hoje, 21h30, no São Jorge, a secção Heart Beat do DocLisboa (e que em Dezembro, a 2, passará na secção Transmission — filmes e música — do PortoPostDoc, Festival de Cinema do Real, no Grande Auditório Manoel de Oliveira do Teatro Rivoli) demorou dez anos a ser concluído. É diferente dos habituais documentários com “convidados” que falam: Fiennes escolheu antes seguir com a sua câmara a excêntrica Grace enquanto esta anda na sua vida diária, entre Nova Iorque, Paris e a Jamaica (onde assistimos a conversas familiares, como se escutássemos, sem que fôssemos convidados, pedaços de memórias íntimas evocadas à mesa com peixe frito), entre cantos religiosos com a família numa igreja e ostras e champanhe nos bastidores da gravação de um disco.

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Bloodlight and Bami abre hoje, 21h30, no São Jorge, a secção Heart Beat do Doclisboa; demorou dez anos a ser concluído
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Rodado ao longo de uma década, a componente temporal é, significativamente, elidida, como se tudo se passasse num eterno presente — não há imagens de arquivo, por exemplo, o corpo de Grace, como o de uma atleta que se superou, parece não precisar delas para contar a sua narrativa (ao contrário, por exemplo, de Marianne Faithfull ou Whitney Houston que em Marianne Faithfull, fleur d’âme, de Sandrine Bonnaire, e Whitney ‘Can I Be Me’, de Nick Broomfield — outros dois títulos da secção HeartBeat –, são sujeitas à convenção, precisam dela. O corpo de Grace Jones em Bloodlight and Bami é a ligação, que digere sobressaltos, entre distâncias opostas. É a espantosa prova da harmonia entre opostos, entre a rugosidade jamaicana e a sofisticação parisiente, por exemplo. Esse é o corpo que se tornou poderoso absorvendo as forças — os homens fortes da sua infância — que no passado a oprimiram. Num determinado momento Grace espanta-se perante a sua masculinidade numa imagem. O filme, para lhe ser fiel, tem apenas de a seguir. As apresentações ao vivo, os êxitos Slave to the rhythm, Pull up to the bumper ou os mais recentes temas autobiográficos, William’s blood e Hurricane, surgem como pontuação, síntese apoteótica, icónica, de uma construção: a maravilhosa criatura.

“A Grace é incategorizável por isso tivemos de fazer um filme incategorizável”, admite a realizadora, irmã de Ralph, Martha e Joseph Fiennes. As duas conheceram-se através de Noel, irmão mais novo de Grace que é bispo da Igreja Pentecostal que foi tema do filme de 2002 de Sophie Hoover Street Revival: Life, Death and God in South Central LA.

“A Sophie convidou-me para ir ver o filme e quando nos conhecemos estabeleceu-se imediatamente uma ligação entre nós”, recorda Jones. “O meu irmão falou-me muito sobre ela. A magia está lá, isto era algo que estava destinado a acontecer.”

Grace diz que Noel, que aparece no documentário, é um bispo muito diferente do que foi o pai de ambos. “É uma pessoa muito interessante, muito como a Sophie. Tem uma mente muito analítica e temos sempre uma quantidade de discussões muito profundas, mesmo apesar de em muitos aspectos sermos diferentes. Percebemos o que o outro está a dizer e quando se tem isso imediatamente aprendemos um com o outro. Acho que tive logo essa mesma relação com a Sophie e é engraçado saber que somos ambas do mesmo signo, Aquário. Exploramos imenso o pensamento e a criatividade. A Sophie também vem de uma família de artistas e eu também sou uma pessoa muito visual.”  

O título do filme refere-se à vida e arte de Grace Jones. Bami é a palavra jamaicana para pão, enquanto bloodlight refere-se não apenas à luz do estúdio de gravação, mas também ao tipo de luz com que ela cresceu e com que agora actua. “Na Jamaica não tínhamos electricidade a sério na maioria do tempo, por isso havia a bela e suave luz dos candeeiros a petróleo. Isso teve um imenso efeito em mim a nível criativo.”

Fiennes viajou com Jones até à Jamaica, de modo que podemos ver o seu lado muito íntimo e mais suave, muito terra a terra, enquanto filha, mãe, irmã e avó. Se durante a conversa Jones admite que está solteira, no filme vemo-la com aquele que é talvez o seu mais significativo ex-companheiro, Jean-Paul Goude, o fotógrafo francês responsável por ajudar à criação da imagem angular e andrógina dela na primeira metade dos anos 80. É claramente perceptível que mantêm um relacionamento amigável: é o pai do único filho que Grace teve, Paulo, músico que tem uma filha de três anos, que a improvável e babada avó adora. Se a entrada no turbilhão da moda de Paris nos anos 70 provou ser um salto em relação aos humildes inícios de vida, Goude deu-lhe um sentido de segurança e confiança para lá estar.

Em 1980 Jones era já artista musical com créditos firmados e uma sensação do disco sound. Os álbuns Warm Leatherette (1980) e Nightclubbing (1981) podem ainda ter incluído versões de temas dos Roxy Music, The Pretenders, Iggy Pop e The Police, mas Grace acabaria por se definir de forma muito própria. Embora com grande ajuda dos seus imponentes fatos e características corporais, Jones possui uma voz única, com um alcance de duas oitavas e meia, o que significa que não tem problemas em alternar rapidamente entre notas relativamente elevadas e uma voz grave, quase masculina, ao cantar.

Está cansada de cantar os seus temas mais famosos? “Meu Deus, não!”, responde de forma determinada, num tom profundo e áspero. “São os meus queridos filhos, gosto de brincar com eles. Tenho ainda tanta diversidade e variedade quando os interpreto de tantas maneiras diferentes. Às vezes limito-me a fazer rap. Às vezes abordo de forma operática, porque tenho estudos de canto, por isso posso experimentar mais nelas. Ninguém alguma vez pensou que elas se tornariam intemporais.”

Quando canta Amazing grace vemos Jones a ascender à zona operática. “Oh, bem, o [tenor Luciano] Pavarotti ensinou-me alguns truques”, reconhece com gargalhadas. “Forcei-me a entrar no mundo dele para poder cantar com ele, por isso estudei a voz de ópera. A minha mãe tem uma linda voz de soprano. Ela aparece no filme.” Fez coros nas suas gravações de William’s blood e My jamaican guy, certo? “Sim, mas de forma muito discreta”, responde Jones, referindo-se ao facto de que Marjorie, muito religiosa e cujo pai tocou com Nat King Cole, nunca poderia ser publicamente associada à música da filha.

Grace também indica a mãe como grande influência na sua noção de moda. “Era uma costureira de alto nível e eu com seis anos já fazia croché com a minha tia, que estava sempre a fazer croché. E assim vamos habituando o nosso olhar aos detalhes. Começamos com o fio mais fino e depois a partir disso fazemos qualquer coisa em muitas formas e feitios diferentes.”

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As apresentações ao vivo, os êxitos Slave to the rhythm, Pull up to the bumper ou recentes temas autobiográficos, William’s blood e Hurricane, surgem no documentário como síntese apoteótica, icónica, de uma construção

Para as suas performances pediu ajuda a alguns dos seus velhos amigos criadores, como Issey Miyake e Jean-Paul Gaultier, autor do fato que utiliza em Pull up to the bumper. Também usa os espantosos chapéus de Philip Treacy.  

“Quando comecei como modelo os criadores foram atraídos por mim. Ficaram fascinados em como eu me conseguia arranjar com 5 euros. quero dizer, 10 francos. Acredito que no mundo existem imanes que não conseguimos ver, como quando somos atraídos para alguém numa determinada altura ou até para uma loja, como aquela a que a Jerry Hall [então sua companheira de quarto] e eu costumávamos ir. Chamava-se The Rag Queen e a rapariga que era dona daquilo era alemã. Ela viajava por todo o mundo e regressava da Europa de Leste com peças vintage dos anos 20 e 30 muito baratas e eu e a Jerry fazíamos  as nossas compras de roupa lá. Eu própria escolhia e fazia as combinações e os criadores ficavam a olhar para nós. De um momento para o outro estavam a fazer um desfile de moda baseado na maneira como nos vestíamos. Começaram com os capuzes porque eu usava capuzes dos anos 20 e 30 porque tinha rapado o cabelo e ficava com frio na cabeça.”     

No filme temos um breve vislumbre de Grace nua. Nada que nos deva surpreender, dada a forma como se exibia em clubes na juventude, mas o que é incrível é a forma como agora, quando se aproxima dos 70 anos (ou seja lá qual for a sua idade), está bem preservada. “Na realidade, fiquei surpreendida por não haver mais nus, pois ando sempre nua. Em casa sou nudista.” Aqui Fiennes interrompe: “O meu filho disse-me: ‘Mamã, o que eu gosto na Grace é que ela deixa-me vê-la nua.’”

Foi sempre assim tão descontraída? “Não, de forma nenhuma! Está a brincar comigo? Com a minha educação religiosa, pelo amor de Deus, não!”, graceja descaradamente.

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A nudez é uma reacção contra isso? “Não, simplesmente libertei-me. No meu livro conto como tomei drogas alucinogénicas e literalmente me tornei nudista”, conta sobre a época em que deixou a casa dos pais para frequentar a universidade. “Eu vivia numa comuna hippie nudista em Filadélfia. Nessa altura tinha um namorado hippie e também era uma Hells Angel.”

Então já fez de tudo, não? (Acabámos por não falar sobre Conan, o Destruidor e a malvada “Bond girl” May Day em A View to a Kill”/”007 Alvo em Movimento.) “Nem tudo. É verdade que queria fazer tudo, mas espero que ainda haja muita coisa para fazer.”

A sua actual filosofia de vida, declara, é viver o presente, enquanto segue em frente. “Você pode ver-me ao vivo, pode ver-me online, não é revisitar o passado. As pessoas vieram ver-me ao AfroPunk Festival, continuo a actuar em todos os festivais e em digressão por todo o mundo. Estes jovens adoram os festivais, vêm com as suas tendas e ficam por aí e estão mesmo muito interessados. Que é que eles vêem? Eu a entrar em palco com pinturas corporais do Keith Haring, meio nua. Acho que pensam ‘Oh, meu Deus! O que é isto?’. O que interessa é viver o presente. Eles também estão a viver o presente.”